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3 de março, Dia Mundial da Audição

É difícil aceitar a perda da audição. “Todos envelhecemos, uns melhor do que outros”

02 mar, 2024 - 09:00 • Redação

Quem está comprometido com a saúde auditiva sente o estigma. Ignorar ou esconder o problema pode ser uma tentação, mas não a solução.

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Com o tempo, não são só os cabelos brancos e a pele enrugada que aparecem. Ouvir mal também pode integrar a lista de maleitas.

"Vive-se um pouco mal com as idades”, garante à Renascença a docente da Faculdade de Psicologia e Ciências para a Educação da Universidade do Porto Raquel Barbosa.

A dita sabedoria angariada com a vida varre-se quando se associa a “velhice”, confirma a especialista. “Uns lidam muito bem com isso, outros menos."

Envelhecer é “tudo aquilo que é mau e declínio, doença e dependência”, diz a psicóloga para reforçar que esta fusão de conceitos só aumenta o estigma à idade.

“Todos envelhecemos, uns melhor do que outros, mas há este estereótipo de tudo o que é ouvir mal, ver mal, caminhar mal ou estar mais doente... são os mais velhos”, afirma Raquel Barbosa. Nestas situações, para a docente, há duas opções: ou se aceita com vida e convive-se com a perda ou se volta as costas e é-se submisso à privação.

“Nada é fácil na vida e, quando se chega a uma certa idade, a pessoa fica mais triste." Teresa Pinto dos Santos, 87, começa mais um dia com os primeiros passos da sua caminhada matinal, mas começa também mais um dia com tonturas e desequilíbrios. "Sinto-me ourada, hoje... É o ouvido e os cristais. Tudo ajuda e já tenho tido muitas quedas”, entristece.

Teresa está a tentar aprender a viver com “este problema do ouvir mal” há mais de 20 anos, sem contar ainda com a paralisia que tem no olho direito e a faz “ver muito poucochinho." Mas depressa desfaz-se de possíveis lamentações e consolos, porque, afinal, “há pessoas que felizmente têm a audição e até vistinha boa."

“Ataca-me um pouco a cabeça”, mas lá anda “bem doente” e vai se desenrascando. “Sou muito aberta no falar e explico-me muito bem”, diz. E não espera menos dos outros: que se amanhem.

"Sinto-me ourada, hoje... É o ouvido e os cristais.” Teresa Pinto dos Santos, com os seus 87 anos, vive há mais de 20 com problemas auditivos. Foto: Catarina Magalhães
"Sinto-me ourada, hoje... É o ouvido e os cristais.” Teresa Pinto dos Santos, com os seus 87 anos, vive há mais de 20 com problemas auditivos. Foto: Catarina Magalhães
"Sinto-me ourada, hoje... É o ouvido e os cristais.” Teresa Pinto dos Santos, com os seus 87 anos, vive há mais de 20 com problemas auditivos. Foto: Catarina Magalhães
"Sinto-me ourada, hoje... É o ouvido e os cristais.” Teresa Pinto dos Santos, com os seus 87 anos, vive há mais de 20 com problemas auditivos. Foto: Catarina Magalhães
"Sinto-me ourada, hoje... É o ouvido e os cristais.” Teresa Pinto dos Santos, com os seus 87 anos, vive há mais de 20 com problemas auditivos. Foto: Catarina Magalhães
"Sinto-me ourada, hoje... É o ouvido e os cristais.” Teresa Pinto dos Santos, com os seus 87 anos, vive há mais de 20 com problemas auditivos. Foto: Catarina Magalhães

A técnica é simples. “As pessoas têm de começar a falar mais alto. Se me disserem 'Teresinha, não ouvi o que você disse', eu explico outra vez e está tudo bem”, conta.

Não há outro remédio para a “folga de audição" de Teresa. Mas, para António Almeida, já lhe basta a sua mulher a falar alto. “Eu já tenho dito a ela: 'não reparas que eu já pus as próteses auditivas, fala mais baixo!'”, desabafa o antigo serralheiro, de 79 anos. Os ruídos com serras e motosserras deram-lhe cabo dos ouvidos, explica.

“Quando vamos almoçar fora ou vamos aqui ou acolá, eu só digo "fala baixo", e as pessoas até ficam a olhar para a gente”, ri-se. “Deus me livre! Passo um mau bocado."

Com os amigos do café e dos jogos de sueca também há mal-entendidos e zanga-se, de vez em quando. “Mas que culpa tenho eu de ouvir mal?”, confronta-os, "Isto que me aconteceu a mim, devia de vos acontecer a vós."

Pode não entender à primeira ou à segunda, mas António está saturado com os “exageros”. Raquel Barbosa confirma que estes “comportamentos automáticos” de falar mais alto quando têm uma pessoa mais velha à frente ou ao lado pode ser mal vista e entristecer os doentes. Tal como se balbucia para os bebés, “sentem uma certa infantilização".

“Às vezes, estou mortinho para sair das conversas." Ainda assim, António tenta adaptar-se e aprender a fazer o luto, mas reconhece que não é fácil acartar com a situação. “Eu tenho um grande desgosto, mas o que é que hei-de fazer? Não admito é que levem a mal, eu aí fico tolo."

“A surdez vai-nos provocar algum isolamento, a solidão e a diminuição da autoestima”, acrescenta o audiologista Jorge Humberto Martins.

A perda auditiva não se resume à compreensão da informação, mas "é essencialmente um transporte de um conjunto de informações que vão trabalhar às partes mais finas do nosso cérebro: as nossas emoções", completa o terapeuta da fala Pedro Brás Silva.

"Só queria ouvir tal e qual aos meus 20 anos"

Mesmo que se esconda nos recantos, atrás das grandes confusões e conversas, António recusa-se a não aproveitar a vida que lhe resta e vai soltando gargalhadas enquanto se lembra destes episódios.

“Quem brinca consigo mesmo tem este processo facilitado”, afirma a professora Raquel Barbosa. Ir atrás do relógio não dá bons resultados e é melhor, aconselha, encarar o que se ainda tem, com a atitude.

“Não se revêem minimamente naquele estereótipo que os sustenta. Há recursos para isso e ainda bem. Temos as bengalas, temos as cadeiras, temos os aparelhos auditivos”, reforça a docente de Psicologia. “A idade é uma categoria vazia”, diz, relembrando que “os mais velhos não são todos infelizes e deprimidos."

Para a especialista, “a curva da felicidade é uma curva em U." Ou seja, quando se tem projetos de parentalidade, preocupações com o trabalho e pressões das expectativas sociais, estes momentos podem passar ao lado. E já com uma certa idade sentem-se livres. “Já não sou aquilo que a sociedade, os meus filhos e a minha família queria. Agora sou quem sempre quis ser."

No entanto, há quem viva acorrentado ao passado. "Chegam-me ao consultório a dizer 'eu só queria continuar a ouvir bem e ter na minha vida as mesmas pessoas e coisas, tal e qual como quando tinha os meus 20 anos'”, partilha Raquel Barbosa. Esta expectativa inflexível à mudança tem, por isso mesmo, impacto em termos emocionais e psicológicos.

Já lá vão quase 30 anos que António aparelha o ouvido e não foi há muito tempo que deixou de sentir o estigma. “Se calhar, perdeu-se a vergonha, mas, quando corto o cabelo, até deixo as pontas crescer um bocadinho." Não se quer sujeitar a que alguém pense: “Olha, aquele é mouco!”, diz. Até nos consultórios os doentes não escondem essa preocupação.

“Um doente que precisa de usar aparelho auditivo e é capaz de ter óculos com as lentes muito grossas diz-me logo: 'Ó, doutor, não quero usar porque se vê!'”, confirma o otorrinolaringologista Pedro Escada.

Venda de emoções

Coladas às televisões nos programas da manhã e da tarde, as pessoas mais velhas tornam-se amigas das pessoas que vêem nos ecrãs e os reclames destes dispositivos médicos, de meia em meia hora (ou menos), também são protagonizados por estes apresentadores.

“É uma figura querida, não é? É apresentada uma solução rápida e barata que alguém em que eu confio também usa”, declara Raquel Barbosa, acrescentando que estes apresentadores da confiança do público tornam-se “influencers das pessoas mais velhas." Estes produtos publicitados fazem um jogo, segundo a docente de Psicologia, para entrar no ar nos programas que esta faixa etária lidera audiências.

“A minha vida mudou”, “estou muito melhor”, “agora, consigo conviver com os meus netos”. Ao venderem qualidade de vida, este “discurso sorridente” é, para Raquel, uma “venda de emoções". O técnico de audiologia Jorge Humberto Martins tem a mesma ideia: “Usam figura de pessoas sobejamente conhecidas com programas com muita audiência."

Pelo Jardim do Marquês, no Porto, há quem se esquive a alongar sobre este assunto, a pensar que se quer vender estes aparelhos. Mas quem dá um ou dois minutos também mostra agrado a estas publicidades. “Acho que é positivo”, acredita Maria da Graça Pinto, 74, e também Ana Maria Cordeiro, 76, se bem que nunca compraram estes dispositivos médicos.

“Se valer a pena... Pelo menos o Júlio Isidro faz uma grande publicidade a isso e eu não o tenho por mentiroso”, remata Maria Silva, 78.

Não se sabe o sucesso destes anúncios, mas é certo que já são uma tradição nos intervalos dos canais generalistas. "Para muitos, a única opção é aquilo que veem na televisão, porque nem procuram ajuda", conclui Raquel Barbosa.

No entanto, há casos alinhavados longe das publicidades. A mãe, de 90 anos, de Fernando Teixeira, 57, proprietário de uma retrosaria em Vila Nova de Gaia, resgatou-se a si mesma. Não se deixou levar em descuidos nem adiou a decisão: endereçou a deficiência auditiva à família, logo aos primeiros sinais.

“Agora, é como ela quer. Quando vamos sair para qualquer lado, gosta de usar aparelho”, explica Fernando. Assim que não lhe interessa, põe-no em cima da prateleira. “É um bebé", ri-se, “mas quando esteve aqui o Papa ela adorou porque ouviu tudo."

Ao contrário deste exemplo, Raquel Barbosa avisa que são muitos os avisos ignorados pelas famílias. A docente afirma que se deve perguntar e estar atento a quaisquer dificuldades, já que o familiar pode estar a disfarçar a perda auditiva por estar distraído. “Quem está mais atento vai perceber o esforço, a chegar-se mais com um ouvido do que com o outro ou tentar ler os lábios", refere.

É como a sociedade estivesse mal-habituada, porque, “ao longo da vida, tudo é uma questão de tempo." Empurram-se os problemas e tapam-se os olhos, porque mais tarde ou mais cedo vão estar resolvidos. A professora indica que é preciso aprender a “antecipar a velhice”.

Tal como se prepara a reforma, não se deve desvalorizar e negligenciar possíveis alertas tratáveis, visto que “não se deixa de ouvir de um dia para o outro." “Com a idade, as pessoas têm valores diferentes e isto é difícil de aceitar”, reprova Raquel Barbosa.

“Se for alguém mais novo, 'vamos logo ver o que é isso' ou 'se calhar tem outra causa qualquer'”. Procura-se logo investigar e saber o mais depressa possível a maleita. Parar, olhar e ouvir deve aplicar-se, no entender da docente, a todos. “As pessoas estão muito mais desatentas e insensíveis aos mais velhos."

"Não vou incomodar...”

Conformada, Teresa digere este problema sozinha. Esconde-o. Não porque tenha vergonha ou se sinta inútil na sociedade, mas por não querer ser um peso para a família. Imaginar a despesa que a compra de um dispositivo médico poderia trazer aos familiares preocupa-a.

“Um médico por aqui queria meter-me um aparelho, mas tinha de entrar com cinquenta euros e outros no fim do mês”, partilha. “Deu-me a ideia de que, como eu tinha filhos, podia: 'Pois é, senhor doutor, mas os meus filhos têm a vida deles e têm os seus compromissos'. Eu, como mãe, não lhes vou estar a sacrificar. 2.050 euros? Não quis. Desisti."

Decidiu, então, inscrever-se, há quatro meses, no hospital para ser avaliada e receber, em princípio, os dispositivos médicos mais indicados. Mas porque não quis pedir mais cedo? “Ó, filhinha, porque nunca ninguém quis cuidar disso”, lamenta. Sente que a sua audição foi ignorada.

A nora bem lhe deu um amplificador auditivo - equipamento sem finalidade médica -, mas “para aquilo não vale a pena”. Descontente, Teresa até sente que "aborrece a própria família", porque perde o fio à meada das conversas. “Tinha uma audição muito apurada, eu consolava-me, mas tudo tem de passar."

“Se ficar aqui para um canto, se calhar, é melhor, porque não vou incomodar” e “a minha família já tem tantas dificuldades, vou eu agora dizer que vou precisar?” são, aos olhos da docente de Psicologia Raquel Barbosa, as maiores questões deste problema de saúde. E, por isso, já estão predispostos a esperar por irremediáveis melhoras, porque, afinal, “pode ser que isto passe".

“Até verbalizam: 'estou aqui e estou à espera da morte' e 'só vou andar aqui mais uns anos e não vou estar a chatear ninguém'”, conta Raquel, com alguma amargura. Não vale o investimento nem as preocupações.

“Não vale a pena, para quê? Estes já me custaram 1.400 euros e eu ouço bem pertinho”. Maria Fernanda Salgado, 83, é o retrato disto mesmo. Era bancária em Luanda e, no cá e lá, uma viagem aos quarenta correu-lhe pelo torto. “Apanhei um temporal, com muitos poços de ar, e quando cheguei a Angola estava com os ouvidos entupidos."

Sem médicos no “mato”, aplicaram-lhe “uma pomadinha” nos ouvidos. Deram-lhe como sarada. Com 60 anos, fez quimioterapia. “Piorei. Agora, estou a fazer outra vez quimio e estou no caos”, fraqueja. “Não estou para gastar dinheiro, antes quero ir fazer uma viagem... Se tiver saúde."

Teresa concorda e declara-se contente por conseguir, mesmo com alguns tropeços e sustos, continuar com a sua rotina e passeios. “Dou graças a Deus que ainda cá ando com a minha idade e tento levar a vida calmamente."

“Quando não ouço, não ouço, filhinha." E depois simula, com prontidão e entusiasmo, como interage com os filhos dependo se tem ou não aparelho consigo:

"'-Trouxeste o ouvido?

-Não!

-Ah, então temos de falar mais alto'.

Ou...

'-Trouxeste o ouvido?

-Trouxe.

-Então, ela ouve tudo! Cuidado que ela agora vai ser malandra. Diz-nos que não está a ouvir e está a ouvir tudo'."

Tenta levar as coisas com humor. “Não levo as coisas a piorar!". Não há outra maneira para Fernanda. “Sabe o que dizem os meus médicos? 'Ó, senhora Fernanda, às vezes não vale a pena ouvir tanta coisa. Antes vale esquecer'."

"A vida é a vida e é assim, não é?”, conclui Teresa.

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