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Carlos Cortes toma posse como bastonário da Ordem dos Médicos

15 mar, 2023 - 08:41 • Marta Pedreira Mixão , Olímpia Mairos

Em entrevista à Renascença, o novo bastonário da Ordem dos Médicos queixa-se de falta de condições de trabalho e de reconhecimento. Carlos Cortes diz que as demissões a que se assiste são "grito de alerta" porque "não tem havido a devida atenção do poder político".

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O novo bastonário da Ordem dos Médicos (OM); Carlos Cortes, diz que é preciso atrair os clínicos para Serviço Nacional de Saúde e aponta a falta de condições de trabalho e de reconhecimento como fatores que têm ditado o afastamento dos clínicos do SNS, assim como os sucessivos casos de demissões.

Em entrevista à Renascença, no dia em que toma posse, o sucessor de Miguel Guimarães sublinha que um número crescente de médicos "não sente, infelizmente, atração pelo Serviço Nacional de Saúde".

"Alguns não optam logo no início da sua carreira pelo Serviço Nacional de Saúde, outros abandonam o Serviço Nacional de Saúde para o setor privado, para a imigração e nós até temos tido, infelizmente, casos de médicos que abandonam a profissão perante a desilusão que encontram no Serviço Nacional de Saúde”, descreve.

Nestas declarações, o médico patologista aponta "dois ou três aspetos” que explicam o quadro vigente: “Um deles tem a ver com a falta de condições de trabalho. Foi isso que aconteceu precisamente no hospital de São Francisco Xavier. Por outro lado, a falta de reconhecimento do papel dos médicos, a sua elevada diferenciação, a responsabilidade que têm nesses hospitais. As pessoas, infelizmente, optam por outros caminhos e o Serviço Nacional de Saúde acaba por não ter recursos humanos suficientes para dar as respostas que tem que dar."

Demissões são "grito de alerta"

Para o novo bastonário da OM, o poder político não tem dado atenção às dificuldades que os médicos de medicina interna atravessam e as recentes demissões no São Francisco Xavier são um exemplo de "um grito de alerta" dado para o Ministério da Saúde: “Infelizmente, estas demissões não são inéditas. Elas constituem um grito de alerta, um apelo dos médicos a chamar a atenção ao Ministério da Saúde para resolver os problemas desses hospitais."

"Quando os médicos apresentam demissão de chefes de equipa, por exemplo, eles não deixam de trabalhar. Eles continuam a fazer a sua atividade, a tratar os seus doentes, não deixam de ver os seus doentes, simplesmente é um sinal de alarme”, sublinha.

Na perspetiva de Carlos Cortes, a Medicina Interna “é um pilar dos hospitais, não só no serviço de urgência, mas também nos serviços de internamento, no acompanhamento dos doentes dentro dos hospitais e é uma área que tem sido muito desvalorizada”.

"Não tem havido a devida atenção do poder político para as questões e as dificuldades que os médicos de Medicina Interna atravessam. É importante a direção executiva [do SNS] e o Ministério da Saúde darem essa atenção que é necessária”, defende.

Falta especialistas combate-se com mais formação

Segundo o novo bastonário da OM, o país precisa, não de diplomados em medicina, mas sim de médicos especialistas para colocar nas áreas onde são necessários.

“Temos cada vez mais escolas médicas, mas aquilo de que o país precisa não é de diplomados em medicina. O que o país precisa é de ter médicos especialistas, precisamente para colocar nas áreas onde eles são necessários”, sinaliza, exemplificando que há “problemas nas urgências de Ginecologia, Obstetrícia, da Pediatria e da Medicina Interna, mas também em muitas outras especialidades da Cirurgia, Anestesiologia, por exemplo, Ortopedia, onde não há médicos especialistas”.

“O Ministério da Saúde tem que levar esta situação com uma grande preocupação para capacitar as unidades hospitalares e unidades dos cuidados de saúde primários para poderem dar mais formação, para poderem dar melhor formação para poder, obviamente, formar mais especialistas com qualidade para responder às as carências de recursos humanos médicos”, destaca.

Modernização da ordem começa por dentro

Eleito para o triénio 2023/2025, Carlos Cortes substitui no cargo o médico urologista Miguel Guimarães, que esteve seis anos à frente da Ordem, cumprindo dois mandatos. Na sua candidatura, Cortes defendeu ser “fundamental a defesa da autonomia e independência da Ordem dos Médicos” e prometeu investir na sua modernização.

Nestas declarações à Renascença, Carlos Cortes explica que “a transformação e modernização da Ordem dos Médicos começa de dentro, nomeadamente com alterações nos procedimentos certificações, uma certificação de qualidade e a utilização das tecnologias de informação e comunicação para tornar a ordem, por um lado, mais responsiva e, por outro lado, para aproximar mais dos seus associados e ser mais fácil para os seus associados tratarem dos assuntos que têm que tratar com Ordem dos Médicos”.

O novo bastonário quer olhar para aquilo que é feito com o Serviço Nacional de Saúde, no setor privado e no setor social. E fala de questões laterais como o envelhecimento, a violência, os abusos, que acabam por ter um impacto muito profundo na saúde.

“Esta modernização da Ordem dos Médicos pretende ter um impacto no exterior, um impacto também na ajuda, no contributo a uma melhor saúde para os portugueses, olhando para a saúde de uma forma algo diferente daquilo que tem sido feito (…). Mas a proposta que eu queria fazer além destes problemas, que obviamente, são os problemas que estão na ordem do dia, são os problemas mais referidos, nós termos uma atitude proativa”.

“É vermos um pouco os determinantes da saúde, as questões das alterações climáticas, as questões do envelhecimento, as questões ligadas à violência no local de trabalho, à violência doméstica e os abusos sexuais. Todas elas são muito relevantes, porque depois têm um impacto muito profundo na saúde”, conclui.

O Patologista Clínico, Carlos Cortes, foi eleito, no dia 16 de fevereiro, bastonário dos médicos com 61,94% dos votos, num total de 11.176 votos, na segunda volta das eleições disputadas com o médico Rui Nunes, que obteve 6.867 votos.

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