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Especialistas preocupados com a falta de vigilância da Covid-19

18 out, 2022 - 07:27 • Anabela Góis

Com a queda na testagem e no isolamento, os especialistas alertam que agora é mais difícil avaliar a situação a tempo certo. A prevenção é a melhor forma de conter a doença, mas é preciso que a informação chegue às pessoas, o que não está a acontecer neste momento.

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Deixou de haver vigilância sobre a situação de Covid-19 em Portugal. O modelo que serviria para antecipar novas vagas e que chegou a ser anunciado para quando as restrições fossem aliviadas não está a funcionar.

Neste momento, ninguém sabe verdadeiramente qual é a situação da Covid-19 em Portugal.

A testagem caiu a pique, não há isolamento, e ainda não está a funcionar o modelo de vigilância - que chegou a ser anunciado para quando as medidas de restrição fossem aliviadas - que nos permita ter estimativas da evolução da doença.

O último relatório epidemiológico do Instituto Ricardo Jorge, de sexta-feira, já indicava que o facto de a taxa de transmissibilidade ter caído a pique não significa obrigatoriamente que houve uma redução acentuada de casos, o que houve - com toda a certeza - foram menos testes.

Gustavo Tato Borges, Presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, considera que há aqui uma falha que nos impede de avaliarmos a situação no tempo certo.

“Com o fim abrupto do fim de testes, e da necessidade de isolamento, do fim do estado de alerta os sistemas não tiveram a transição que seria a ideal de integração da Covid na rede médicos sentinela, da criação, por exemplo, da capacidade laboratorial para análise das águas residuais, que poderia ser um indicador bastante interessante da disseminação do vírus na nossa população e, portanto, neste momento a nossa vigilância epidemiológica, a nossa capacidade de detetar os casos de Covid-19 está seriamente coartada, temos uma grande limitação e isso traduz-se num possível atraso de 15 dias na implementação de medidas caso a situação se agrave”, sinaliza.

"Subida de casos na comunidade não tem reflexo imediato nos hospitais"

Se acompanhamos a evolução da Covid-19 apenas pelo número de doentes que vão às urgências e ficam internados, o especialista diz que, ficamos muito limitados porque a subida de casos na comunidade não tem reflexo imediato nos hospitais.

“Quando aumenta o número de casos atingimos o pico e passado 15 dias é que se atinge o pico de internamento e passado 15 dias é que atingimos o pico dos óbitos. Se nós agora só estamos apenas com capacidade e monitorizar casos graves que vão às urgências e ficam internados acabamos por estar 15 dias atrasados e não conseguimos prever quando é que teríamos de introduzir medidas atempadas para minimizar este risco”, destaca.

E se temos menos capacidade de monitorizar a doença também fica limitada a nossa capacidade para detetar as variantes em circulação, e até novas variantes do SarsCov-2 que possam surgir. Uma situação que preocupa António Sarmento, diretor de infeciologia do hospital de São João.

“O que se tem passado é que começam a surgir descendentes das subvariantes, descendentes da BA5, da BA1 e estão a surgir em muitos sítios da Europa, portanto, começa a criar-se um caldo de estirpes de vírus, de várias diferentes, e que se podem difundir com facilidade e isso está a fazer com que os casos estejam a aumentar. E até já há alguns países que já reportam um reflexo sobre o número de internamentos hospitalares”, alerta, sublinhando que “nós para já não, mas daqui a 15 dias não sei”.

"Prevenção é a melhor forma de conter a doença"

António Sarmento insiste que já se conhece o suficiente do vírus para sabermos que prevenção é a melhor forma de conter a doença. Para isso é preciso que a informação chegue às pessoas o que não está a acontecer neste momento.

“Temos de atuar na base da pirâmide e não no vértice e a base é a prevenção. Já sabemos bastante sobre o contágio do vírus e é por aí que temos de ir. E isso tem de ser uma coisa muito participada. Temos de contar com a participação da população, tem de haver uma informação que seja acessível e que seja fácil para as pessoas saberem como estão as coisas”, defende.

O especialista alerta que se os casos dispararem pode ser grave porque os hospitais já estão muito sobrecarregados com outras doenças.

“Os hospitais estão muito sobrecarregados de doentes, mas não de Covid. Só temos dois em cuidados intensivos e um em enfermaria, mas é preciso olhar com cuidado porque o reflexo da doença na comunidade em termos hospitalares tem um período de latência”, destaca.

A Comissão Europeia e a Organização Mundial da Saúde já alertaram que os casos de Covid-19 estão a aumentar o que a juntar aos vírus respiratórios habituais nesta altura, como o da gripe, vai aumentar a pressão sobre os hospitais.

Contactado pela Renascença, o Instituto Ricardo Jorge garante que tem o sistema de vigilância da Covid-19 todo preparado. Só falta a luz rede da DGS. Já a Direção Geral da Saúde remete explicações para mais tarde.

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  • Ramiro Duarte
    18 out, 2022 Lisboa 07:14
    Vejam o estado en que os transportes publicos de lisboa transportam os passageiros e ficarão a perceber que a propagação vai certqamebnte acontecer. É vergonhoso que o autocarro, eléctrico transportem o triplo das pessoas que deveriam transportar. Sem qualquer limitação nem respeito pela lotação.

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