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Felgueiras, Caldeira e Vale e Azevedo. As histórias de outras fugas mirabolantes à justiça

29 set, 2021 - 19:11 • João Carlos Malta

Está longe de ser a primeira vez que um arguido ou condenado pela justiça portuguesa abandona o país em fuga. Em alguns casos, os foragidos voltaram ou foram capturados.

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Quando nas últimas horas da passada terça-feira se soube que o ex-presidente do BPP João Rendeiro fugiu à justiça portuguesa, o país explodiu de indignação. A credibilidade da justiça foi novamente posta em causa. Mas a verdade é que esta não é a primeira vez que um arguido de renome abandona o país para não ter de prestar contas aos tribunais.

Se Rendeiro invocou legitima defesa para se proteger da "injustiça" da justiça nacional, outros no passado apresentaram argumentos idênticos ou muito parecidos.

Relembre aqui a lista dos mais mediáticos foragidos à justiça das últimas décadas em Portugal.

Fátima Felgueiras

No âmbito do processo Saco Azul (instrumento destinado ao financiamento do PS e das campanhas autárquicas), a presidente da Câmara de Felgueiras, Fátima Felgueiras, fugiu para o Brasil.

Em janeiro de 2003, Fátima foi ouvida durante oito horas no Tribunal de Felgueiras. No interrogatório que se prolongou até de madrugada, o juiz determinou que podia aguardar julgamento em liberdade.

A presidente da autarquia duriense disse estar inocente e argumentou que estava a ser alvo de uma cabala.

Em maio, Felgueiras, depois de ser vista no cabeleireiro, apanhou o avião e fugiu para o Brasil, momentos antes de ser conhecida a decisão de prisão preventiva que seria decretada pelo Tribunal da Relação de Guimarães.

No final do mês, o Supremo Tribunal Federal brasileiro decidiu que a mulher que liderou vários anos a autarquia de Felgueiras não podia ser extraditada.

Fátima Felgueiras tinha dupla nacionalidade e o Brasil não extradita cidadãos nacionais.

Dois anos e quatro meses depois, em setembro de 2005, Fátima volta a Portugal e o juiz da Relação revoga a prisão preventiva, por considerar que não há perigo de fuga.

Ainda chegou a ser condenada em 2008, a três anos e três meses de prisão, com pena suspensa e perda de mandato, por um crime de peculato, um de peculato de uso e outro e abuso de poder. Três anos depois seria considerada inocente de todos os crimes.

Vale e Azevedo

Em 2018, é a vez do ex-presidente do Benfica, João Vale e Azevedo.

O advogado foge para Londres num jato privado, que alugou por quase 20 mil euros, apesar de declarar ao Estado que vivia com apenas 441 euros por mês e dos legumes que planta na sua quinta de Sintra.

A fuga ocorre em junho desse ano, pouco antes de serem emitidos mandados de detenção para o cumprimento de uma pena de 10 anos de prisão, por burlas ao Benfica, relacionadas com as transferências dos jogadores ingleses Scott Minto, Gary Charles, do marroquino Tahar e do brasileiro Amaral.

Esta pena de prisão sucede a uma outra, de 11 anos e meio, dos quais cumpriu cinco sextos, relacionada com diversas burlas.

Há poucos meses, o ex-presidente dos encarnados voltou a fintar a justiça ao alegar não ter sido notificado pelas autoridades inglesas através de carta rogatória para o julgamento de falsas garantias bancárias de três milhões de euros em três processos que é acusado de burlar o BCP.

Pedro Caldeira

Pedro Caldeira chegou a ser responsável por mais de metade das operações negociadas na praça portuguesa, à frente da maior sociedade de corretagem do país. Era o rei da bolsa nacional.

A 23 de Julho de 1992, fugiu aos braços da justiça portuguesa, na sequência de um dos maiores escândalos financeiros da história recente de Portugal.

Voou de Madrid para Miami, na Florida. O FBI acabaria por detê-lo num hotel de luxo em Atlanta, quase um ano depois, a 19 de março de 1993.

Pouco tempo depois, seria extraditado para Portugal.

Estava indiciado pela prática de 17 crimes de abuso de confiança e 65 de burla agravada. Oito anos mais tarde foi absolvido.

Padre Frederico

O julgamento do padre Frederico foi o primeiro com transmissão em direto pela televisão portuguesa. O homicídio de Luís Miguel Correia, de 15 anos, na madrugada de 1 de maio de 1992, no Caniçal, na ilha da Madeira, chocou o país.

As autoridades depressa ligaram a vítima ao sacerdote. Apesar de dizer estar inocente, o padre Frederico Cunha foi considerado responsável pelo crime.

Alegava ter estado à hora do crime com o afilhado, Miguel Noite, de 19 anos. O tribunal não aceitou o alibi e declarou o padre culpado. Condenando-o a 10 de março de 1993 a uma pena de 12 anos de prisão, pelo crime de homicídio, mais 18 meses pela homossexualidade tentada com um menor.

Mas a 7 de abril de 1998, o padre Frederico foge do Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus. Segue para a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.

Dias depois, em entrevista ao ‘Diário de Notícias’, afirma que fora “vítima de uma cabala.”

O Estado português desistiu de perseguir judicialmente o padre que continua a viver no Brasil na companhia da mãe.

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