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ESTUDO DA FFMS

Laura Sagnier: “O salário de uma mulher que faz o mesmo trabalho que um homem tem que ser igual”

12 fev, 2019 - 22:29 • José Pedro Frazão com Redação

Em entrevista à Renascença, a coordenadora do estudo "As Mulheres em Portugal, Hoje" apresenta algumas sugestões de políticas públicas que Portugal deveria adotar para que a partilha de tarefas entre mulheres e homens seja mais equilibrada. Ainda assim, garante: “As mulheres são mais infelizes no trabalho do que na família.”

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Este é um estudo para uma fundação. Mas que tipo de clientes podiam procurar um estudo sobre a mulher?
[Risos] Bom, acho que qualquer organização preocupada com a desigualdade que existe atualmente entre géneros no mundo. Podia ser uma organização internacional ou qualquer empresa que estejam preocupadas e a fazer já programas de igualdade de género nas suas companhias.

Há uma parte do estudo que tem a ver com a ligação ao trabalho. Seria interessante conhecer a opinião de um diretor de recursos humanos sobre as mulheres que trabalham nessa empresa.

Este estudo, no fundo, tem uma vantagem sobre muitos outros estudos existentes sobre a mulher. Todos são muito focados num só tema, como a mulher e a maternidade, ou a mulher e o emprego. A vantagem deste estudo feito pela [consultora] PRM, empresa de "market intelligence", é que contempla tudo o que pode afetar o mercado em estudo – neste caso, as mulheres. Por exemplo, o estudo em Espanha está a ser muito utilizado nas empresas. Uma das conclusões que aprendemos em Espanha – e que é igual em Portugal – é que as mulheres não são entes formados por compartimentos estanques. Tudo o que a mulher vai incorporando na sua vida – trabalho pago, convivência em casal, et cetera – é interrelacionado de uma forma totalmente independente. Quando perguntamos a uma mulher o que é importante no seu emprego ideal, resulta que o mais importante tem quase o mesmo peso do seu salário e passa pela conciliação entre o meu trabalho e a minha vida familiar. Imagine quão relevante é isto para uma empresa.

Na fase em que a mulher está com a criança ou com filhos ainda menores, isso pode chegar a ser mais importante inclusive que o salário.

Mas não tem que ser feliz apenas numa dimensão. Como funciona a "contaminação" da felicidade entre família e empresa?
Um dos capítulos em que a mulher portuguesa está menos feliz com a sua vida é o trabalho. Elas estão a trabalhar muitas horas no emprego e em muitos [empregos] percebem-nas muito pouco. Muitas delas associam trabalho a dinheiro, ponto final. É uma questão de infelicidade em relação ao trabalho que é bastante importante.

São mais infelizes no trabalho do que na família?
Muito mais.

Isso é diferente em relação a Espanha?
A mulher portuguesa está mais infeliz com o trabalho do que a mulher em Espanha. Porque em Espanha a mulher trabalha uma hora a menos por dia e recebe mais do que em Portugal.

Há alguma expectativa nas mulheres de que algo pode mudar?
Não estudámos a forma como elas estão a ver o futuro do trabalho. O que sabemos é se o trabalho que têm cobre as expectativas que tinham em relação ao mercado laboral. E não cobre. A grande maioria tinha expectativas laborais que não bateram com o que enfrentam na actualidade.

Que outras diferenças encontra entre as mulheres de Portugal e de Espanha?
A principal diferença tem a ver com a maternidade. A mulher portuguesa tem a maternidade muito mais idealizada do que a espanhola. Quando comparamos o número de mulheres que querem ter filhos ou quantas se sentem felizes com a maternidade, em Portugal há mais mulheres.

A possível interpretação disto com os dados que temos no estudo tem muito a ver com o facto de as católicas em Portugal serem muito mais do que em Espanha, onde há uma fatia importante de agnósticas e ateias. No estudo vemos que há muita relação entre a proximidade à maternidade e a religião.

Há uma diferença de termos entre uma mulher realizada e uma mulher feliz?
A questão da felicidade e da realização tem milhares de teorias, que os especialistas têm medido de maneira diferente. Para fazer um questionário medimos a felicidade numa escala de zero [nada feliz] a dez [muito feliz], o que é já uma decisão importante sobre a escala que se vai empregar. Depois, medimos a felicidade não só com a vida no geral mas com uma série de aspetos que influem na vida da mulher – desde os filhos ao trabalho – e como ela se sente com o seu aspeto físico, com a sua família de origem. E, então, com base nisto tudo, baseámo-nos numa corrente de Yuval Noah Harari, que fala num "tecto de cristal " da felicidade – que se sustenta em duas colunas: psicológica e biológica. No plano psicológico, a felicidade depende das expectativas muito mais do que questões objetivas como a situação económica, social ou política. No plano biológico, as expectativas e a felicidade são determinadas pela bioquímica. A definição de quão feliz está a mulher em cada um dos capítulos nesta expectativa que ela tem consoante cada um dos elementos.

O que faz da mulher portuguesa uma mulher cansada?
Ela acumula, dia após dia, ano após ano, sobretudo aquelas que têm mais do que um filho, quase 14 horas de trabalho por dia. Como o dia tem 24 horas, acaba por fazer com que fique sem tempo para ela própria. Não é apenas o ela trabalhar muito, mas tem também pouco tempo para descansar.

Está a incluir o trabalho em casa não pago.
Exato. Isto é algo que todos devemos considerar na nossa sociedade. Há muitas mulheres que não gostam de cozinhar, que odeiam as tarefas da casa. Para elas, isto é um horror, porque é um trabalho não remunerado. É muito importante que nos mentalizemos de que quando uma mulher sai do seu lugar de trabalho, não é que vá "brincar" com as suas amigas no café ou para tomar um bolo de arroz. Ela vai para casa duplicar as horas que fez no emprego.

Consegue saber se os dados confirmam que o homem hoje participa mais nas tarefas domésticas?
Sim. Hoje participam mais. Mas essa evolução foi tão lenta que se continuarmos a este ritmo demoraremos entre cinco a seis gerações para que a repartição das tarefas esteja equilibrada entre homem e mulher.

O que aconselharia em matéria de políticas públicas em Portugal?
Deveria fazer-se um esforço na educação. É muito importante que as crianças percebam, e quanto mais cedo melhor, que as mulheres e os homens têm que fazer os mesmos trabalhos em casa. Já é assumido que todas as mulheres vão trabalhar fora de casa. Muitos meninos estão a ser educados de forma diferente face às meninas. Isto é um erro impressionante para conseguir uma sociedade mais igualitária e justa. Por outro lado, deveriam obrigar a que o salario de uma mulher que faz o mesmo trabalho que um homem tenha que ser igual.

Em que medida é que a felicidade da mulher depende do homem?
Essa é uma das piores notícias do ponto de vista de uma mulher. Este resultado não decorre de uma pergunta que colocámos, mas é uma informação que obtivemos de forma indireta, aplicando técnicas de análise multivariável que corelacionam quão feliz se sente a mulher com a sua vida e com o resto das facetas que estamos a tratar. Observámos que o que mais faz com que uma mulher esteja feliz é que ela tenha acertado com o parceiro com que decidiu conviver. Isso é muito importante, mas é uma notícia muito má para a mulher. Porque seria muito mais fácil dizer que o que mais influencia é uma carreira profissional adaptada a si. É mais fácil encontrar um emprego que te encaixe do que encontrar um casal com que consigas partilhar a vida.

Isso é interessante.
Não sei. Não sei...

Uma questão metodológica por fim. Isto não é um estudo sociológico, mas um estudo de mercado, com base num inquérito feito através da Internet. Que garantias existem em relação à melhor resposta possível por parte das mulheres?
Todas. O facto de responderem pela Internet, que era um dos critérios básicos deste estudo, servia para garantir que a mulher ia responder a questões muito íntimas da sua vida – como perguntas sobre sexo, relacionamento com os pais e com os filhos. E fazê-lo diante do ecrã de um computador garante o máximo possível de sinceridade.

Responderam caso a caso, pessoa a pessoa?
Sim. E outra vantagem da resposta pela Internet passa pelo facto de o estudo conter "caminhos" adaptados a cada mulher. A pergunta seguinte dependia da resposta anterior. Uma mulher que não tem crianças e que não tem trabalho pago, uma mulher que vive ainda em casa dos pais, demorava 20 minutos a responder. Enquanto uma mulher que tem trabalho pago, filhos e convive com um casal, demorava entre 50 e 60 minutos. A Internet não está a enviesar o estudo. O que não podemos dizer é que este estudo representa todas as mulheres em Portugal. Representa, sim, as mulheres que acedem de forma regular à Internet. Mas como o estudo pretende ajudar as mais jovens, não nos preocupou muito a falta de mulheres de outras idades.

É um estudo para ajudar as mais jovens?
Sim. É um estudo que pretende melhorar a sociedade. Mas é muito difícil mudar as dinâmicas de casais que estão juntos há mais de 20 anos. O meu objetivo em Espanha, quando comei a fazer este estudo, era ajudar as mais jovens. Eu penso que com bons dados consegues tomar boas decisões. Entendo que o objetivo a Fundação Francisco Manuel dos Santos é muito mais amplo. As mais beneficiadas podem ser as mais novas, que ainda não começaram a tomar decisões relevantes na vida delas.

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