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Martins da Cruz: "Sánchez vai ter de fazer concessões"

24 jul, 2023 - 23:53 • Manuela Pires

Negociar com o Junts pela Catalunha constitui um problema: o presidente do partido, Carlos Puigdmont, está fugido à justiça espanhola. "Vai ter um preço porventura elevado para o governo do senhor Sánchez", diz à Renascença António Martins da Cruz, antigo MNE que foi também embaixador em Madrid.

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O embaixador Martins da Cruz diz, em entrevista à Renascença, que vai ser difícil ao PSOE responder às exigências do Junts pela Catalunha

O líder do Partido Popular, que venceu as eleições, esteve em contactos com vários partidos, mas conseguiu apenas o apoio do União do Povo Navarro, que tem um deputado. Feijó está encurralado ou terá uma saída para poder formar governo?

O facto de o PP ter sido o partido mais votado não significa que seja o que está em melhores condições para formar governo. Nós não nos podemos esquecer que em Espanha, tal como em Portugal, o voto é para o parlamento. Tal como aconteceu em Portugal, em 2015, por exemplo, quando a coligação PSD/CDS foi a mais votada e foi o PS que formou o Governo.

Mas o rei vai ouvir os partidos. Quem é que vai convidar a formar governo?

Eu acho que só no dia 31 de julho ou 1 de agosto é que serão conhecidos os resultados oficiais. Depois, o parlamento reúne-se, é eleito um presidente e só depois é que o rei chama os partidos. Deverá acontecer a 20 de agosto.

Em primeiro lugar, o partido que tiver em melhores condições para formar governo e, para isso, temos um teste, que é a escolha do presidente do parlamento. De qualquer maneira, mesmo que se chame em primeiro lugar o senhor Alberto Feijó, não significa que ele tenha condições para formar governo. Se o líder do PP for submetido a uma votação no Parlamento e reprovar, ele precisa de maioria absoluta na primeira votação e maioria simples na segunda votação, começa a contar um prazo de dois meses. E se em dois meses não houver governo, é preciso fazer uma nova eleição.

Foi precisamente o que aconteceu em 2019…

Exatamente.

Pedro Sanches venceu as eleições, não conseguiu a investidura no parlamento e são convocadas novas eleições. Poderá acontecer o mesmo desta vez ou o líder do PSOE vai levar já uma garantia de que tem apoios parlamentares suficientes?

Eu acho que é uma solução possível. Pedro Sánchez faz uma coligação com o SUMAR, que é o herdeiro do Podemos, e conta também com o apoio dos partidos regionais. E aí vai ter de fazer concessões. Que tipo de concessões? Podem pedir uma maior autonomia e mais financiamento, ou seja, mais verbas do Orçamento de Estado para essas autonomias que são sobretudo a Catalunha e o País Basco. Mas mesmo assim não chega.

O partido Junts acaba por ser o mais importante neste xadrez...

Sim, o Junts pela Catalunha. Mas há um problema porque o presidente desse partido, Carlos Puigdmont, está fugido à justiça espanhola. Vai ter um preço porventura elevado para o governo do senhor Sánchez. Se quiser formar o governo…

Há muitos eleitores do PSOE que não gostam desta ligação aos independentistas da Catalunha...

Exatamente, foi o partido, aliás, que se opôs ao PSOE no governo anterior, nunca votou com eles. Vão pedir sobretudo duas coisas: amnistia para o senhor Puigdmont? E o referendo para a independência da Catalunha? Parece-me difícil aceitar estas condições.

No Partido Popular, este resultado pode ter implicações na liderança do partido. Ontem os apoiantes mostraram apoio a Diaz Ayuso, a presidente da comunidade de Madrid?

Não é a tradição do Partido Popular. O senhor Aznar perdeu duas eleições, só foi eleito à terceira é Mariano Rajoy, presidente do também perdeu uma eleição. Não sei se ele se manterá. Penso que tem condições, porque teve uma subida muito significativa dos votos. Não ganhou, mas subiu de 89 para 136 deputados, é uma subida significativa.

Mas o que é que correu mal na campanha do Partido Popular?

Na minha opinião foi um excesso de confiança, ou seja, como lhe correu bem o debate que teve com o Sanches, houve uma quebra na campanha eleitoral do PP. Devem ter pensado que são favas contadas.

Pedro Sanches é um resistente e disse ontem á noite que o sistema parlamentar vai resolver esta questão. Será que Alberto Feijó tem habilidade política para unir outros partidos em torno da sua investidura?

Ele tem uma dificuldade porque precisa de ter o apoio do Vox. O Vox vai exigir fazer parte da coligação e vai mesmo exigir a vice-presidência do governo. O Partido Nacionalista Basco que em tempos apoiou um governo do PP, já disse agora que com o Vox não alinha e, portanto, penso que o senhor Feijó vai ter grandes dificuldades em formar governo, em conseguir os votos suficientes para passar nas votações no Congresso.

O Vox é a terceira força política, mas tem nestas eleições uma derrota porque perde 19 deputados, fica com 33. É uma tendência de descida ou foi o voto útil que fez baixar a votação no Vox?

O Partido Popular, na reta final da campanha, insistiu muito no chamado voto útil, e isso terá feito com que uma parte, não a totalidade dos votos que perdeu a Vox, foram engrossar as fileiras do PP. Nós não nos podemos esquecer que a grande maioria dos eleitores do Vox, no passado eram eleitores do PP. Deslocaram se para a direita radical e alguns retornaram ao antigo partido, de modo que o Vox perdeu algum significado, mas mesmo assim é o terceiro partido mais votado em Espanha.

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