A+ / A-

Pisces III. A história do resgate a maior profundidade já realizado

22 jun, 2023 - 19:51 • Diogo Camilo

Há 50 anos, dois britânicos foram resgatados de um submersível no Oceano Atlântico depois de 76 horas à espera por ajuda a quase 500 metros de profundidade. Foram resgatados com vida quando apenas lhes restavam 12 minutos de oxigénio.

A+ / A-

O estado do submersível de visita ao Titanic e dos seus cinco passageiros - três passageiros, o CEO da empresa turística OceanGate e um mergulhador especialista no naufrágio do navio - foi confirmado esta quinta-feira, com a Marinha dos EUA a anunciar as mortes, depois de terem sido encontrados destroços perto do local, quatro dias após o início da expedição.

Há cinquenta anos, um caso parecido teve um desfecho feliz. Em 1973, um engenheiro e um ex-operador de submarinos da Marinha Real Britânica foram resgatados com vida a quase 500 metros de profundidade, depois de três dias presos numa bola de aço com menos de dois metros de diâmetro, quando apenas lhes restavam 12 minutos de oxigénio.

Na missão de rotina de instalação de cabos de telefone submarinos chamada de Pisces III, os dois homens que desafiaram a morte, Roger Chapman e Roger Mallinson, estiveram 84 horas debaixo de água até serem encontrados, a mais de 200 quilómetros da costa da Irlanda.

A troca da garrafa de oxigénio que salvou a vida dos mergulhadores

A expedição, que teve início a 29 de agosto de 1973, demorou cerca de 40 minutos a descer até aos cerca de 480 metros de profundidade. A fraca visibilidade tornava-a o trabalho mais cansativo e cada um fazia turnos de oito horas.

“Foi como viajar numa autoestrada em nevoeiro, a tentar seguir uma linha branca. Um piloto tinha os controlos do submarino numa mão e na outra uma mão mecânica que levantava, torcia e se movia de lado para lado. E depois trocávamos. Era desconfortável, tínhamos de estar ajoelhados, com a cabeça nos joelhos do outro”, conta Roger Chapman à BBC.

A aventura incluiu um turno que durou 26 horas sem dormir e um pormenor que pode ter salvado a vida de ambos: a troca da reserva de oxigénio: “Por alguma razão decidi trocar. Podia ter criado um problema grande por mudar uma garrafa que estava a meio, mas se não o fizesse, não teríamos sobrevivido.”

Cerca de oito horas desde o início da missão do Pisces III, um percalço aconteceu. “Estávamos à espera que o cabo de reboque nos levasse para a nave-mãe, quando de repente fomos puxados para trás e começámos a afundar rapidamente”.

A razão estava numa peça que ficou inundada quando a escotilha foi aberta. Com isso, o submarino ficou uma tonelada mais pesado. "Ao afundarmos, a minha maior preocupação era se estávamos perto da plataforma continental, porque se a atingíssemos, seríamos esmagados”, diz Roger à BBC.

Uma sandes, uma lata de limonada e 76 horas de espera por ajuda

Ao contrário do Titan, estes mergulhadores mantiveram contacto com a nave-mãe, enviando uma mensagem de que ambos estavam bem fisicamente e moralmente. Nessa altura, restavam-lhes cerca de 66 horas de oxigénio.

Chapman e Mallinson usaram as primeiras horas para “se organizarem”, de maneira a garantirem que a embarcação não estava a verter água. Decidiram que, se queriam que o oxigénio durasse, tinham de fazer o mínimo possível.

“Quase não falámos. apenas agarrámos as mãos um do outro e apertámos para mostrar que estávamos bem. Estava muito frio e estávamos ensopados. Eu não estava na melhor forma, tinha sofrido uma intoxicação alimentar três ou quatro dias antes”, diz Chapman.

Fora do Pisces III, a ajuda estava a caminho. A marinha britânica já tinha sido chamada para o resgate e, num esforço conjunto com um veículo de resgate não tripulado da Marinha dos EUA e depois de várias tentativas, conseguiram que o cabo para os puxar até à superfície ficasse preso.

Só nesse momento, três dias depois, é que os dois marinheiros comeram as sandes e beberam as latas de limonada que tinham guardadas.

Às 10h50, começou a ser puxado o submersível e, pelas 13h17 locais, os dois mergulhadores estavam a salvo e fora de água.

“Tínhamos 72 horas de oxigénio quando começámos o mergulho e conseguimos ganhar mais 12,5 horas. Quando olhámos para as reservas, restavam-nos 12 minutos de oxigénio.”

Este é, ainda hoje, o resgate a maior profundidade conhecido. O Titan encontra-se na zona afótica, ou seja, aquela que marca o início da zona a partir da qual a luz solar não consegue penetrar a água.

A partir dos 300 a 400 metros de profundidade, o oceano está em completa escuridão e a cerca de 4.º C - para comparação, o submersível pode estar a quase 4.000 metros de profundidade.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Destaques V+