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Cruz Vermelha ucraniana sem capacidade para ajudar a maioria dos deslocados. "É sempre doloroso escolher aqueles que vamos apoiar"

04 mai, 2022 - 10:14 • José Pedro Frazão enviado especial à Ucrânia

A Cruz Vermelha da Ucrânia mantém a operação no leste do país. Apesar dos combates e dos bombardeamentos, a delegação ucraniana da organização está a ajudar nas evacuações de civis no DonBass, em particular na zona de Luhansk, e, mais a norte, ainda opera em Kharkiv, segunda cidade da Ucrânia, fortemente bombardeada. Entrevistado pela Renascença, o diretor-geral da Sociedade da Cruz Vermelha na Ucrânia revela que não há conversas com a congénere russa e gostaria de ter mais recursos para apoiar os deslocados ucranianos.

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Maksym Dotsenko acabara de assinar uma parceria da Cruz Vermelha ucraniana com a Câmara de Lviv para a construção de um centro de apoio para mulheres grávidas que estará pronto em meados de julho. Aguardam um total de 160 mulheres que serão acolhidas nesta unidade, vindas de zonas de batalha e que precisam de apoio especial .

Em entrevista à Renascença, o Director-Geral da Cruz Vermelha ucraniana garante que a organização ainda presta apoio a zonas do Leste do país a que ainda consegue aceder, mas a situação é muito difícil mesmo para quem só quer ajudar.

Qual é o principal desafio neste momento para a Cruz Vermelha na Ucrânia?

Essa é uma pergunta muito filosófica. Não somos tão fortes quanto gostaríamos. Isso significa que não podemos mesmo ajudar todos. Queremos crescer para poder apoiar mais e mais pessoas. É psicologicamente muito difícil ter que escolher entre todos aqueles que precisam do nosso apoio.

Quantas pessoas são ajudadas neste momento pela Cruz Vermelha Ucraniana ?

Agora ajudamos cerca de um milhão de pessoas em atividades diferentes, como assistência médica, vales de dinheiro e outras coisas. Mas isso não é nada quando existem 7 milhões de deslocados internos na Ucrânia. Por isso é sempre uma dor quando temos que escolher entre aqueles que temos que apoiar.

Qual é a ligação que têm neste momento com o Comité Internacional da Cruz Vermelha, que está a tratar dos corredores humanitários ?

Somos bons parceiros. Somos todos de um movimento e estamos a trabalhar diariamente com eles. Claro que as exigências de segurança da Cruz Vermelha Internacional são mais apertadas do que as nossas, porque como somos ucranianos, temos que estar lá e não posso impedir os nossos voluntários de o fazerem. Nós parcialmente acompanhamos as colunas de evacuação a partir de diferentes cidades desde o início. Como sabe o Comité Internacional da Cruz Vermelha está envolvido na coluna humanitária de Mariupol. É um trabalho complexo. Tentamos coordenar-nos muito bem e não nos duplicar, ou seja, tentamos ser complementares. Temos diferentes esferas de atividades. A Cruz Vermelha Internacional fica com umas regiões e nós tratamos de outras.

Mas como é que a Cruz Vermelha opera no leste da Ucrânia?

As nossas delegações regionais e locais ainda estão lá. Não em todos os lugares, porque em áreas muito perigosas e afetadas pela guerra, nós deslocalizámos as nossas equipas. Mas estamos, por exemplo, que estamos em Lysychansk e Sievierodonetsk. Temos quatro equipes de resposta a emergências agora com sede em Slavyansk. Eles apoiaram a evacuação de pessoas vulneráveis de Lysychansk e Sievierodonetsk.

Claro que agora não estamos em Mariupol, mas ainda estamos a trabalhar em Kharkiv debaixo dos bombardeamentos. A nossa organização está lá com mais de 150 voluntários.

Já houve problemas com os vossos voluntários?

Infelizmente sim. Um voluntário morreu durante os bombardeamentos a Marinka. Estas são pessoas tão inspiradoras, há pessoas que querem sempre apoiar e não temos um problema de falta de voluntários. Temos mais de 8 mil agora.

A Cruz Vermelha é uma comunidade neutral. Você é neutro, mas também está do lado ucraniano. Como é que opera neste ambiente e especificamente na área leste ?

Temos que ser neutrais, de acordo com os nossos princípios. Mas nós, como Cruz Vermelha nacional , temos um papel de auxílio ao nosso Governo. Temos um mandato neutral para apoiar civis em território ucraniano. Nós apoiamos os ucranianos aqui e neste momento toda a nação está unida no apoio ao nosso povo. É muito fácil para nós agirmos aqui. Apoiando os ucranianos, não vamos olhar para as diferentes religiões, políticas e outros aspetos. Vamos apenas ajudar as pessoas.

Mas não conseguem operar nalgumas áreas no leste.

Essa é uma questão de acesso, não de neutralidade. Não podemos operar lá porque não temos acesso ao local.

Quem dá ajuda humanitária a essas pessoas neste momento ?

Infelizmente é uma questão muito difícil. Por exemplo, na cidade ocupada de Kherson, ainda estão a trabalhar a nossa organização regional e as nossas organizações locais. Podemos apoiá-los fornecendo algumas transferências de dinheiro para poderem comprar lá alguma comida. Há territórios a que não temos acesso como é o caso de Mariupol. Infelizmente não conseguimos ajudar aí com ajuda humanitária.

Mantêm ligações com a Cruz Vermelha na Rússia ?

Não. Nós fazemos parte de um mesmo movimento. Participamos em conferências semelhantes, mas, por enquanto, não queremos ter nenhuma ligação, porque não vemos o resultado das nossas negociações. Não acho que eles possam ajudar nos seus territórios.

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