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“Porque é que o presidente Nyusi não está em Pemba a coordenar as operações?”

30 mar, 2021 - 23:38 • José Pedro Frazão

Fernando Jorge Cardoso critica o comportamento do chefe de Estado moçambicano na resposta ao agravamento da situação na província de Cabo Delgado. O investigador do ISCTE defende que os atores externos devem ajudar Moçambique com controlo de tráfego marítimo e apoio logístico-militar e não pela presença de soldados estrangeiros com intervenção direta em combate.

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O agravamento da situação militar no norte de Moçambique devia obrigar à presença do Presidente Filipe Nyusi na coordenação das operações na província de Cabo Delgado.

A opinião é de Fernando Jorge Cardoso, investigador do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa e especialista em assuntos africanos, comentando os mais recentes desenvolvimentos no norte de Moçambique, após o ataque à vila de Palma reivindicado pelo auto-denominado Estado Islâmico que causou dezenas de mortes civis e levou a uma fuga massiva da população para outras zonas da província de Cabo Delgado.

"Em Cabo Delgado há uma guerra contra a população moçambicana. São eles que estão a morrer. Os 700 mil refugiados vêm do Nordeste de Cabo Delgado."

"Não compreendo porque é que o presidente Nyusi não está em Pemba a coordenar as acções durante dois, três ou quatro meses ou o tempo necessário. Ele é o Chefe das Forças Armadas e aquelas são populações moçambicanas. Ele está em Maputo a falar com as pessoas internacionais sobre aquilo que se passa no país dele e já se viu que ele não tem quadros para conseguir controlar aquilo que se passa. Então ele que assuma! Ele que vá para Pemba e que comande as operações, porque isso dará um sinal à população de Cabo Delgado de que ele é o presidente de Moçambique e também se preocupa com eles", apela Fernando Jorge Cardoso na Renascença.

O académico considera que os ataques de Palma reflectem o reacendimento do interesse do auto-denominado Estado Islâmico pela situação no nordeste da província de Cabo Delgado, assinalando a necessidade de compreender o contexto e a geografia do conflito para uma análise mais sólida da situação.

" Isto é uma guerra de movimento. São várias dezenas ou até centenas, ninguém sabe quantos, de combatentes experimentados. O que aconteceu nestes últimos tempos é o que ninguém estava à espera, com a chegada de novos combatentes provenientes de outros países", sublinha Cardoso.

Não a intervenção estrangeira, sim a cooperação militar

Após os ataques a Palma, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos manifestou apoio a Maputo e Portugal anunciou o envio de um contingente de 60 militares no quadro da cooperação técnico-militar entre os dois países lusófonos. Fernando Jorge Cardoso considera que a mobilização de forças estrangeiras para a área "significaria aumentar a confusão no terreno", sublinhando que as forças armadas moçambicanas que ali operam estão muito mais preparadas do que no início das hostilidades.

O investigador português sugere dois tipos de apoio externo a Moçambique. "Em primeiro lugar, no apoio ao controlo das rotas marítimas. Isso sim pode ser feito por sul-africanos, franceses ou por outros países que tenham a capacidade de vigilância e de barcos para o fazer porque Moçambique não tem", aconselha Fernando Jorge Cardoso que, noutro plano, refere a necessidade de um apoio do ponto de vista logístico-militar às forças moçambicanas através do envio de munições, armamento ligeiro, fardamento, comida e combustível.

"Este tipo de questões são absolutamente fundamentais e os chamados conselheiros militares, que são especializados do ponto de vista da organização destas questões, são mais do que necessários em Moçambique", remata este observador atento da realidade moçambicana.

Comentários
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  • Bruno
    31 mar, 2021 aqui 02:30
    Nas guerras do passado eram os EUA e a URSS quem financiava as operações militares. Estão mal habituados.

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