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E depois de Mossul?

“O genocídio moldou a identidade dos yazidis”

30 jun, 2017 - 17:10

Com os seus territórios disputados por árabes e curdos, os yazidis exigem uma região autónoma onde possam viver lado a lado com membros de outras minorias, desde que não sejam muçulmanos sunitas. Um retrato da complexidade da vida no norte do Iraque.

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E depois de Mossul?


Quando o Estado Islâmico ocupou Mossul, no Verão de 2014, foi uma questão de dias até começarem a surgir imagens de perseguição aos cristãos, a quem era dada a possibilidade de se converterem, fugirem ou morrerem.

Mas aos yazidis, praticantes de uma religião pré-islâmica, não foi dada qualquer escolha. Os homens foram mortos e as mulheres levadas para mercados de escravos. Tornaram-se famosas as imagens de civis refugiados no Monte Sinjar, considerado sagrado pelos yazidis, sem comida nem bebida, a carregar os seus filhos mortos nos braços.

Agora, com Mossul prestes a ser libertada, os yazidis sonham com um novo futuro, de preferência numa região autónoma juntamente com outras minorias, mas não todas. Mas o futuro depende em larga medida do entendimento entre curdos e árabes, que parecem estar numa rota de colisão.

A Renascença falou com Mirza Dinnayi, um activista yazidi, que dá conta das aspirações e das preocupações do seu povo.

Quando Mossul for libertada podemos esperar que a tensão entre o Curdistão e Bagdad chegue à superfície. Acredita que se possa transformar num conflito armado?

Há muitos conflitos que podem acontecer depois da libertação de Mossul. Esse é um deles.

Os curdos parecem apostados na independência. Qual é a vossa posição?

O desejo pela independência existe entre os curdos e nós apoiamos isso, mas pensamos também nos problemas nas áreas disputadas [entre árabes e curdos], porque a maioria dos yazidis e de outras minorias, como os cristãos, vivem lá. Dizemos que só pode haver independência se o processo for pacífico, porque a guerra prejudicará a nossa comunidade.

Se for criada uma região autónoma para as minorias, e caso o Curdistão se torne independente, essa região devia estar ligada a Bagdad ou a Erbil?

Os yazidis têm algumas exigências tanto para o Iraque como para o Curdistão. Queremos uma região autónoma administrada pelos yazidis, na província de Sinjar e da Planície de Nínive, e esta região deve estar em cooperação com Bagdad e o Curdistão. É isso que os yazidis querem.

Depois de tudo o que se passou, depois do genocídio, penso que os yazidis e os cristãos têm todo o direito a apresentar exigências para fazer parte do Curdistão, ou não. A maioria dos yazidis preferiam estar ligados ao Curdistão, porque pensamos que não temos futuro possível com Mossul, pois todos os ataques foram planeados em Mossul, as nossas mulheres foram levadas para Mossul como escravas sexuais por árabes sunitas, por isso não há possibilidade de integração com Mossul para esta geração. Com os curdos partilhamos raízes étnicas, por isso seria possível, mas os yazidis não aceitarão sem condições.

Quando fala numa região autónoma seria juntamente com outras minorias, com os cristãos, shabaques, turcómanos… É isso que querem?

Sim, é essa a ideia, que todas as minorias vivam juntamente e em paz.

Se houver uma região autónoma estariam a viver juntamente com cristãos, shabaques, turcómanos… As relações entre os yazidis e estas comunidades são fraternas? Seria fácil viverem em paz?

Entre os yazidis e os cristãos não há problema. Com os shabaques xiitas também não. Infelizmente os shabaques sunitas juntaram-se ao Estado Islâmico. Já com os turcómanos também é muito difícil, porque há também turcómanos xiitas e sunitas e estes juntaram-se de forma muito agressiva ao Estado Islâmico e atacaram os yazidis, mas com os xiitas temos boas relações. Mesmo estas minorias estão divididas entre elas e o Estado Islâmico destruiu a harmonia das sociedades. Mas, na minha opinião, os yazidis, cristãos e shabaques e turcómanos xiitas podem entender-se. Devido ao Estado Islâmico, penso que qualquer relação com muçulmanos sunitas não pode ser incluída neste projecto.

Os curdos dizem que os yazidis são curdos com uma religião própria. O que é que pensa disso?

Não existe consenso sobre isto. Alguns yazidis dizem que somos uma nação independente, outros dizem que somos curdos, outros que somos uma entidade etno-religiosa que deve ser respeitada como tal.

A minha opinião é que a identidade yazidi foi estabelecida agora depois do genocídio, a forma como os yazidis se definem antes e depois de 2014 é diferente. Os políticos no Iraque e no Curdistão ainda não perceberam isso, mas deviam reconhecê-lo.

Os cristãos estão muito divididos na região, com mais de 12 partidos políticos e meia-dúzia de milícias. Esta divisão também afecta os yazidis?

Infelizmente, sim. A minha comunidade está dividida entre diferentes partidos. Há yazidis que pertencem ao PKK [grupo curdo que actua sobretudo na Turquia e que é considerado uma organização terrorista por Ancara] e há yazidis que pertencem ao KDP e ao PUK [os dois principais partidos do Curdistão iraquiano], há yazidis independentes e alguns pequenos partidos yazidis que nos últimos dois anos provaram ser completamente inúteis. Portanto, também estamos divididos, talvez não tanto como os nossos irmãos cristãos, mas também estamos.

Como é que se explica a existência de militantes do PKK na zona de Sinjar? É verdade que muitos yazidis simpatizam com este grupo?

A simpatia está mais com a YBS [Unidades de Protecção de Sinjar] e com a YPG [Unidades de Protecção Popular], que são grupos armados apoiados por Bagdad e que têm boas relações com o PKK. Quando os yazidis estavam presos nas montanhas, perseguidos pelo Estado Islâmico, os peshmerga do Curdistão iraquiano colapsaram e foram curdos sírios do YPG que vieram em seu auxílio e libertaram mais de 150 mil pessoas, que estavam cercadas na montanha sem comida nem água. E por isso as pessoas ficaram agradecidas e juntaram-se a estes grupos.

O problema é que o KDP acha que Sinjar pertence-lhe e os peshmerga dizem que como estes grupos não lhes obedecem não são legais, por isso devem partir. Mas estas pessoas são de Sinjar, não vêm de fora. Temos tentado resolver isto de forma pacífica, mas não tem sido possível até agora.

Por isso, o problema é que temos dois conflitos nestas zonas disputadas. Uma é entre o Curdistão Iraquiano e Bagdad, sobre a futura administração da região, e outro é um conflito entre curdos, com influências da Turquia, que apoia uns e do Irão, que apoia outros. Este conflito é mais perigoso que aquele que existe entre o Iraque e o Curdistão.

Para criar uma região autónoma é necessário aliados e apoio, de Bagdad ou de Erbil, mas também internacionais. Já existem?

Estamos a tentar fazer "lobbying" junto da União Europeia e dos Estados Unidos. Toda a gente, das Nações Unidas aos países ocidentais, diz-nos que temos razão, que precisamos de uma região autónoma, mas todos nos perguntam quem pagará a conta. É este o problema que temos agora. Temos solidariedade do Ocidente, mas até agora ninguém está disposto a estabelecer um projecto. Eu acho que a responsabilidade cabe à comunidade internacional.

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