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Papa. Terrorismo alimenta-se do “desespero” que nasce da pobreza

25 nov, 2015 - 15:58 • Aura Miguel , em Quénia, e Filipe d’Avillez

No primeiro discurso em África, Francisco disse que “a violência, os conflitos e o terrorismo” alimentam-se “com o medo, a desconfiança e o desespero que nascem da pobreza e da frustração”.

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Papa. Terrorismo alimenta-se do “desespero” que nasce da pobreza

No primeiro discurso de uma viagem de seis dias a África, o Papa Francisco defendeu que a melhor forma de combater o terrorismo é através do crescimento económico. Francisco aterrou esta quarta-feira no Quénia, um país marcado pela ameaça da Al-Shabaab, filiados da Al-Qaeda.

“A experiência demonstra que a violência, os conflitos e o terrorismo se alimentam com o medo, a desconfiança e o desespero que nascem da pobreza e da frustração. Em última análise, a luta contra estes inimigos da paz e da prosperidade deve ser conduzida por homens e mulheres que, destemidamente, acreditam e, honestamente, dão testemunho dos grandes valores espirituais e políticos que inspiraram o nascimento da nação”, disse Francisco, em Nairobi, a capital do Quénia.

Diante do Presidente e das mais altas figuras do estado do Quénia, o Papa incentivou os quenianos a lutar contra as divisões sociais. “Enquanto as nossas sociedades experimentarem divisões, sejam elas étnicas, religiosas ou económicas, todos os homens e mulheres de boa vontade são chamados a trabalhar pela reconciliação e a paz, pelo perdão e a cura dos corações.”

“À luz disto, encorajo-vos a trabalhar, com integridade e transparência, para o bem comum e a fomentar um espírito de solidariedade a todos os níveis da sociedade. Peço-vos, de modo particular, que manifesteis uma autêntica preocupação com as necessidades dos pobres, as aspirações dos jovens e uma distribuição justa dos recursos naturais e humanos com que o Criador abençoou o vosso país”, disse Francisco.

O Quénia tem sido dos países mais estáveis de África, mas, em 2007 e 2008, conflitos interétnicos puseram em causa essa estabilidade. Desde então, a principal ameaça à segurança interna do país, maioritariamente cristão, tem sido os ataques levados a cabo pela Al-Shabaab, que opera a partir da Somália.

O elogio ao ambiente

No primeiro discurso de uma viagem que tem previstas passagens pelo Uganda e pela República Centro-Africana, o Papa elogiou os líderes políticos do Quénia pela forma como têm trabalhado para proteger o ambiente e os recursos ambientais.

Francisco voltou a um tema que tem marcado o seu pontificado e que já mereceu uma encíclica, a primeira de um Papa dedicada exclusivamente a questões ambientais.

“O Quénia foi abençoado não só com uma beleza imensa nas suas montanhas, rios e lagos, nas suas florestas, savanas e regiões semidesertas, mas também com a abundância de recursos naturais. O povo queniano nutre grande apreço por estes tesouros que Deus lhe deu, sendo reconhecido por uma cultura de conservação que o honra.”

“A grave crise do meio ambiente, que o mundo enfrenta, exige uma sensibilidade ainda maior pela relação entre os seres humanos e a natureza. Temos a responsabilidade de transmitir a beleza da natureza, na sua integridade, às gerações futuras e a obrigação de exercer uma justa administração dos dons que recebemos”, disse ainda o Papa.

“Estes valores estão profundamente arraigados na alma africana. Num mundo que continua mais a explorar do que proteger a nossa casa comum, tais valores devem inspirar os esforços dos governantes para promover modelos responsáveis de desenvolvimento económico.”

Agenda cheia

Eram cerca das 14h00 em Lisboa quando o Papa chegou a Nairobi. Foi recebido pelo Presidente Uhuru Kenyatta. Após uma viagem cansativa, Francisco terá um resto de quarta-feira relativamente calma: haverá apenas um encontro com membros do Governo e do corpo diplomático.

Já quinta-feira terá vários eventos. De manhã, o Papa encontra-se com líderes das várias religiões e confissões cristãs do Quénia. Depois, celebrará missa na Universidade de Nairobi. Depois do almoço, haverá um encontro com padres, religiosos e seminaristas e, por fim, uma visita à sede da ONU na capital queniana.

Na sexta-feira, Francisco terá uma série de encontros e a meio do dia arranca para o Uganda.

A visita a África, a primeira na vida de Francisco, termina no domingo após uma ida relâmpago à República Centro-Africana, um país que vive dias de grande instabilidade.

A Renascença em África com o Papa Francisco. Apoio: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

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  • Soldier
    25 nov, 2015 London 21:31
    Concordo , caminhante. Se repararmos com atenção veremos que sempre que há crises e pobreza as pessoas em vez de olharem para as suas próprias falhas preferem culpar os que estão bem, o que é mais fácil. Basta olhar para os bancos da escola em que os burros dos subúrbios "bullyizam"'os bons alunos con a conivência cobarde da sociedade em geral . Os bons alunos roubaram ? O que ? Teremos de dividir as boas notas por todos ? Gosto bastante deste papa mas acho que neste aspecto em particular ele anda um pouco baralhado. Talvez devesse reler Mateus 12
  • António Costa
    25 nov, 2015 Cacém 20:45
    "Segundo anunciou no domingo o ministro do Interior do Quénia, Moenda Njoka, Abdirahim Mohammed Abdullahi, filho do chefe de governo de Mandera, província no extremo nordeste do Quênia, esteve envolvido no ataque de 2 de abril à universidade de Garissa, que fez 148 mortos" ....que estranho Papa Francisco, reparou "filho do chefe do governo...", este individuo não me parecia "subalimentado" e tinha ao que parece "um futuro brilhante" pela frente. E os atentados ao World Trade Center, as "torres gémeas"? Os autores do atentado também não me pareciam vitimas de "exclusão social"....Faço minhas as palavras do CAMINHANTE, com o qual concordo a 100%.
  • Matias
    25 nov, 2015 Lisboa 18:57
    Estou de acordo com o Papa! mas no meu entender a culpa da pobreza é de todos os ricos quem exploram os pobres e lhes pagam uns miseráveis euros ou outra moeda fora da Europa que nem sequer dá para sobreviverem. Mais, não acredito que nestes tempos que estamos a viver somos controlados pelos ricos por forma a retirarem-nos o mais possível para que mais ninguém consiga alcançar outras metas a não serem eles ou os seus familiares pois neste momento controlam tudo e todos e, os médias estão a ajuda-los porque não querem dizer as verdades e, os médias ou outros que as querem dizer são ameaçados por processos que lhes poderão ser levantados pelos ditos senhores dos poderes e com dinheiro para comprarem grandes Advogados ou mesmo empresas de advogados obrigando a que os pobres não se possam expressar e a ficarem de bico calado por via de perderem os empregos e, desta forma ficarem dinheiro para si e para os sues nomeadamente os sues filhos.....
  • CAMINHANTE
    25 nov, 2015 LISBOA 18:28
    Lamento muito, Sua Santidade Papa Francisco, mas não é linearmente assim. Pobres há desde que se conhecem as sociedades e não faziam terrorismo como nos dias de hoje, quanto muito banditismo e um ou outro assassínio... mais, muitos destes praticantes e aderentes ao Terrorismo como arma de guerra, não passam fome, tinham vidas menos más e alguns mesmo já dentro da área da classe média. O problema é outro; não queira branquear o MAL com a desculpa da pobreza, porque não corresponde à verdade.

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