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Hora da Verdade

Marta Temido defende Marcelo e diz que lei obrigava SNS a tratar das gémeas do Santa Maria

30 nov, 2023 - 07:00 • Susana Madureira Martins (Renascença) e Helena Pereira (Público)

A ex-ministra de António Costa recusa ter dado qualquer orientação aos serviços do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, para, em 2019, tratarem especificamente as duas crianças com um medicamento que custa dois milhões de euros. "Não houve nenhum contacto da Presidência da República com a ministra da Saúde sobre este tema", garante.

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Hora da Verdade com Marta Temido
Hora da Verdade com Marta Temido

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Em entrevista ao programa Hora da Verdade, da Renascença e do jornal Público, Marta Temido fala da polémica com duas gémeas luso-brasileiras com atrofia muscular espinhal, que receberam em Portugal um tratamento no valor de quatro milhões de euros, e defende Marcelo Rebelo de Sousa.

A ex-ministra da Saúde refere como "normal" a tramitação de reclamações de cidadãos para a Presidência da República e daí para o gabinete do primeiro-ministro. "O pedido de verificação do que se passava com este caso entrou no Ministério da Saúde junto com outros pedidos. É o circuito normal".

Marta Temido iliba ainda o secretário de Estado Adjunto e da Saúde de então, António Lacerda Sales, e salienta que havendo uma "nota de que há duas crianças que precisam de um tratamento, se as crianças têm documentos nacionais do nosso país, o normal era as crianças serem tratadas no nosso país". Ou seja, bastava as gémeas terem nacionalidade portuguesa para serem tratadas pelo Serviço Nacional de Saúde.

A ex-governante e atual deputada e presidente da concelhia do PS de Lisboa revela que ainda não foi contactada nem pelo Ministério Público, nem pela Inspeção-Geral das Atividades em Saúde e espera que o processo avalie, "pelo menos, três questões: se houve ou não houve uma interferência indevida; se as crianças deveriam ou não deveriam ter sido tratadas e, em última instância, se o medicamento a utilizar deveria ser aquele ou deveria ser outro".

Em relação à menina da Guiné-Bissau que tem a mesma doença e que está à espera de um tratamento semelhante também no Hospital de Santa Maria, Marta Temido considera que deveria ser tratada tal como foram as gémeas e nota que o que falta é um visto do Tribunal de Contas. "As instituições estão cá para resolver os problemas burocráticos", conclui.

Sobre este caso de crianças gémeas com atrofia muscular espinhal que terão tido um tratamento de favor no Hospital de Santa Maria, qual é que foi o seu envolvimento como ministra da Saúde neste caso?

Antes de mais, dizer duas coisas: não tive qualquer contacto com o Presidente da República relativamente a este caso, nem dei qualquer orientação sobre o tratamento destas crianças. Quando o caso foi relatado na comunicação social há algumas semanas, eu referi que tinha uma ideia do caso, da referência às duas.

Mas como é que soube do caso quando era ministra?

Não soube quando era ministra. A referência que eu tinha de memória era da situação e não do tratamento específico em concreto.

Disse à TVI que se lembrava de duas gémeas e que achava que o tratamento não tinha prosseguido.

Mas era uma ideia apenas de memória que tinha do tema, de existirem duas gémeas.

Eram outras gémeas?

Não tenho a certeza se eram estas ou outras.

O caso concreto só ficou a saber pela reportagem da TVI?

O caso concreto não lhe posso dizer que na altura não tenha havido um contacto sobre o caso. O que posso dizer é que eu tive necessidade de ir refazer o circuito documental daquilo que me poderia ter passado pelas mãos.

"Não houve nenhum contacto da Presidência. A ministra da Saúde não deu qualquer orientação sobre o tratamento"

E o que é que descobriu?

Pedi acesso formalmente aos documentos administrativos, ao abrigo do direito à Informação, ao Ministério da Saúde. Apurei que o pedido de verificação do que se passava com este caso entrou no Ministério da Saúde junto com outros pedidos. É o circuito normal.

Quando um cidadão apresenta uma reclamação a uma entidade, quer seja ao Presidente da República, ao gabinete de um ministro, até aos deputados, há um circuito pré definido. Normalmente, dá-se a entrada desse pedido.

Foi o que o Ministério da Saúde fez a esse documento que vinha do gabinete do primeiro-ministro e que canalizava um documento da Casa Civil da Presidência da República. Esse documento é aquilo que já tem sido referido na comunicação social.

Um relatório médico?

Não é um relatório médico, é uma carta da Casa Civil da Presidência da República que é remetida através do chefe de gabinete do primeiro-ministro, que, aliás, vem acompanhada de outros pedidos de outros utentes, também com situações e com problemas e disposições de outras instituições, e que tem a tramitação habitual.

O encaminhamento que era feito era sempre o mesmo. No meu Ministério, era o encaminhamento para as instituições visadas pela queixa, reclamação, dificuldade, exposição. Não tenho esses documentos de envio para fora, para outras entidades. Tenho depois comigo já uma resposta aos pais da criança dada por uma das nossas entidades, no caso o Infarmed, a dizer que o medicamento está em processo de avaliação europeu.

A carta que recebe via Casa Civil da Presidência da República não é um relatório médico, é exatamente o quê?

É um ofício de rosto que tem um conjunto de nomes de pessoas, homens, mulheres e também de uma instituição, e que diz: "Junto se remete para os devidos efeitos, para avaliação". Dentro desse ofício do rosto, do gabinete do primeiro-ministro, vêm então uns ofícios do chefe da Casa Civil da Presidência da República, onde a informação que consta é exatamente a mesma.

Quanto a este caso destas crianças, o que é que se encontra? Encontra-se de facto a exposição, dizendo que são duas cidadãs portuguesas, "filhas de e de", que têm uma determinada doença e que precisarão eventualmente de tratamento e, portanto, com esta carta vem, não um relatório médico, mas uma informação médica, e os cartões de cidadão das duas crianças.

Não houve nenhum contacto da Presidência da República com a ministra da Saúde sobre este tema. A ministra da Saúde não deu qualquer orientação sobre o tratamento. Isso não funciona assim no nosso país. Naturalmente, estou disponível para dar todos os esclarecimentos adicionais.

Já foi contactada pelo Ministério Público ou pela Inspeção-Geral das Atividades em Saúde?

Não.

O ofício que recebeu não reencaminhou para Santa Maria?

Eu não tenho esse completo documental. Aquilo que me forneceram foi o ofício de entrada e os documentos de resposta de uma concreta identidade, o Infarmed.

Não é estranho?

Aparecem ofícios de Santa Maria, mas já a pedir informação financeira sobre o tratamento.

A TVI noticiou que a primeira consulta de Santa Maria teria sido marcada pelo então secretário de Estado, Francisco Ramos. Acha possível?

Não, nessa altura Francisco Ramos já não era secretário de Estado. Talvez estejam a referir-se a António Lacerda Sales.

Acha possível ter sido marcada por Lacerda Sales?

Não parece que isso faça qualquer sentido. Se há uma nota de que há duas crianças que precisam de um tratamento, se as crianças têm documentos nacionais do nosso país, o normal era as crianças serem tratadas no nosso país e, portanto, bastava o encaminhamento normal, que era aquilo que se fazia no Ministério da Saúde para a instituição, para a instituição tramitar o processo. Quando um cidadão se queixa a uma entidade da Administração Pública, há uma obrigação de tramitação de documentação.

Então nem percebe este mal estar dos médicos que foi evidente?

Não.

Acha que, até do ponto de vista deontológico, é errado?

Não me cumpre pronunciar-me sobre o bem ou o mal porque não conheço os detalhes do caso, mas tenho ouvido algumas referências que me preocupam e que me perturbam.

O quê?

Que deveríamos não ter tratado estas crianças porque elas não tinham residência em Portugal quando a lei é clara.

É a nacionalidade que conta?

Isso.

Por isso é que a criança da Guiné, que nasceu no Hospital de Santa Maria, não teve medicamento? Acha que não devia ter direito a ter?

Acho que devia.

Mas não teve ainda.

Isso não tem nada a ver com a circunstância da menina não ser portuguesa.

Acha que é decisão dos médicos, então?

Daquilo que ouvi na comunicação social, há um problema de um visto do Tribunal de Contas. Mas as instituições estão cá para resolver os problemas burocráticos.

Sobre aquelas duas crianças, espero que o processo avalie pelo menos três questões: se houve ou não houve uma interferência indevida; se as crianças deveriam ou não deveriam ter sido tratadas e, em última instância, se o medicamento a utilizar deveria ser aquele ou deveria ser outro. Ou seja, três níveis de responsabilidade, uma responsabilidade clínica, outro tema é se as crianças tinham ou não tinham direito a ser tratadas no SNS.

Daquilo que conheço do processo, diria que sim. Outro tema é se houve ou não houve uma interferência de terceiros indevida. Sobre isso, não sei. O que posso dizer é que ela não passou por mim.

O médico Levy Gomes disse à TVI que a sua secretária ligava várias vezes ao diretor de serviço para saber do estado de saúde destas crianças e por isso era impossível a senhora enquanto ministra não saber.

Não comento.

Não é verdade?

Não, não é verdade. Em devido tempo, se averiguará quem fez o quê, a mando de quem, por que motivos, se não fez...

Não foi sua secretária nem ninguém a seu mando?

Que eu saiba, não. O meu gabinete tinha, como todos os outros gabinetes, um chefe de gabinete e tem uma tramitação.

Já falou com Lacerda Sales sobre este caso?

Não.

Vai atuar sobre estas declarações e insinuações de Levy Gomes?

Não. Não tenho motivo para acreditar que haja da parte do Dr. Levy Gomes qualquer má intenção. Penso que ele tem a informação que transmitiu sobre o processo e que, tal como eu, também quererá ser esclarecido.

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  • Antonio Machado
    01 dez, 2023 Braga 22:38
    É urgente esclarecer esta situação Começa a haver confusão a mais e vêm ahí eleições, eu pessoalmente exijo saber quem anda a brincar com os impostos que pago.
  • Joaquim Correto
    30 nov, 2023 Paços 14:11
    Como assim, se elas vieram de propósito para esse fim?
  • ze
    30 nov, 2023 aldeia 11:26
    É trapalhada atrás de trapalhada,deste governo socialista, é bom que as entidades competentes averiguem com rigor o que de facto se passou, o povo português merece respeito e não ser tratado como ignorantes.
  • Cidadao
    30 nov, 2023 Lisboa 09:54
    "... lei obrigava SNS a tratar das gémeas do Santa Maria..." Isto é uma ALDRABICE PEGADA, destinada a fornecer uma saída à pressa para aqueles que têm as barbas a arder. Aliás esta entrevista é toda para branquear a titular do cargo na altura, não vá a candidatura dela a cargos políticos mais relevantes, ficar "manchada" por esta argolada paga a 4 milhões e picos...
  • Sara
    30 nov, 2023 Lisboa 08:42
    Mas que lei, as que voces inventam para favorecer amigos?em 10 dias obtiveram nacionalidade portuguesa?não nasceram cá, não moram cá, nem nunca vão morar, governo socialista a fazer favores para os amigos, tudo corrupto.tantos portugueses que morreram porque não tiveram resposta em 10 dias, a injustiça é enorme, governo que não cuida dos seus, deviam ser todos julgados por as coisas que fizeram no SNS, vergonha

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