A+ / A-

André fez 126 mil km para mostrar quem “faz acontecer”

28 set, 2015 - 14:17 • Marta Grosso

André Leonardo tinha 23 anos quando decidiu dar a volta ao mundo. Objectivo: conhecer gente inspiradora, pessoas que "fazem acontecer", seja em Silicon Valley ou na Tanzânia.
A+ / A-

Estávamos em finais de 2011 e a crise tinha tomado conta do quotidiano dos portugueses. Das conversas, das atitudes. Farto de negatividade, um jovem empreendedor decidiu dizer “Basta!” e lançou-se num projecto audacioso, classificado por família e amigos de impossível.

“O miúdo estava a ter um devaneio”, recorda André Leonardo em entrevista à Renascença. André era esse “miúdo” – tinha 23 anos. O “devaneio”: dar a volta ao mundo para conhecer empreendedores e pessoas inspiradoras, com negócios surpreendentes.

Visitou 23 países, entre os quais Tanzânia, Estados Unidos, Quénia, Índia, Moçambique, Brasil e Israel. Mas havia outro objectivo nesta missão: levar ao mundo o que de bom se faz em Portugal.

No dia 2 de Fevereiro de 2014 partiu para o mundo. Mochila às costas e chapéu de cortiça na cabeça. A história está num livro agora editado, “Faz Acontecer” (edição A Esfera dos Livros).

“Difícil é diferente de impossível”

A decisão criou-lhe “um friozinho incómodo na barriga”, sinal de que estava ali o projecto da sua vida. Frequentava então o mestrado em Gestão no ISCTE.

Quase todas as pessoas a quem transmitiu a ideia lhe disseram que era impossível. “Não tinha patrocinador e não tinha contactos. Parecia uma coisa completamente irreal”, descreve o empreendedor açoriano.

Seguiram-se dois anos de trabalho árduo, entre angariação de patrocínios e recolha de contactos de empreendedores em cada canto do mundo.

André diz-se “um optimista crónico”, mas nem imaginava no que se estava a meter. Durante a viagem, foi assaltado em Moçambique e ficou quase sem nada, dormiu em estações de comboio, comeu muitas vezes atum – “atum com atum, atum com massa, atum com arroz” –, passou o 25º aniversário “trancado” num hotel do Japão (“O maior tufão dos últimos 15 anos estava a passar na rua”) e sentiu a terra tremer no Chile.

“Fui obrigado a adaptar-me várias vezes, mas na nossa vida, no dia-a-dia, também somos obrigados a adaptar-nos. Todos os dias nos acontecem coisas – umas boas, outras menos boas, umas por nossa culpa, outras por culpa de terceiros –, mas não podemos ficar parados, temos de nos adaptar e a vida segue em frente”, afirma.

“É tudo uma questão de atitude”

Quando partiu de Portugal, André Leonardo tinha 100 entrevistas marcadas com pessoas inspiradoras dos quatro cantos do mundo. Acabou por fazer 143. Uns referiam outros.

Entre as pessoas com quem falou está a brasileira Bel Pesce, empreendedora de 26 anos que conseguiu ingressar no MIT contra todas as probabilidades, fundar a sua empresa e tornar-se numa das pessoas mais influentes do Brasil; o jovem da Tanzânia que se tornou um “speaker” motivacional, depois de ter conseguido fazer a instalação eléctrica da sua casa a partir dos livros que requisitou na biblioteca local; e o “Cristiano Ronaldo indiano”, que, para sobreviver, se tornou limpador profissional de ouvidos.

Não é fácil, diz André, destacar uma história do livro, mas admite que foi um português que o tocou mais profundamente. Ricardo Teixeira “nasceu com todas as suas capacidades físicas, era uma pessoa bastante activa e com 15 anos deu um mergulho na praia que o deixou tetraplégico”.

“Imagine-se todo o problema que isto cria, toda a capacidade de readaptação que é preciso ter. O Ricardo hoje tem 38 anos, está à frente de duas empresas saudáveis, emprega mais de 60 pessoas, é casado, tem um filho e, portanto, como ele costuma dizer, ‘a deficiência não é desculpa para nada’, descreve.

“Se o Ricardo consegue isto e tem todos os problemas que nós temos mais os problemas físicos, então nós também conseguimos tudo”, conclui. “É tudo uma questão de atitude. Só não fazemos o que não queremos.”

Levar Portugal ao mundo

“Um dos objectivos da viagem era também levar um bocadinho de Portugal, do que melhor temos, [ao resto do mundo]”, conta. “Levar exemplos inspiradores e falar deles.”

Foi o que fez nas palestras que deu, por exemplo, no Nepal – em Kathmandu, onde fez “uma palestra para quase 100 empresários nepaleses, numa sala cheia” – no Brasil e nos Estados Unidos (na zona de Boston, para vários alunos e professores de Harvard).

“Temos muito para explorar em Portugal, temos muitos bons exemplos e temos de começar a acreditar que somos tão bons como os outros, porque somos”, destaca.

Para melhor conhecer os casos portugueses, o jovem empreendedor passou os primeiros três meses da sua odisseia a “percorrer Portugal de Norte a Sul e ilhas.”

“Falei com muitas pessoas, como Johnson Smith, Ricardo Teixeira, Rui Nabeiro e muitas outras”, conta.

Inspirar. Para trabalhar muito

Percorridos mais de 126 mil quilómetros, “Faz Acontecer” serve para inspirar.

“Nesta viagem tive oportunidade de ver casos extremos e são esses casos que nos permitem tirar as conclusões mais fortes. Eu sempre acreditei que o difícil é diferente de impossível, mas a viagem foi a confirmação clara e inequívoca disso”, admite.

Escrito numa linguagem informal e acessível, o livro de André Leonardo pretende dar um “empurrão” a quem tenha algum projecto escondido na gaveta.

“Depois, estudem bastante, trabalhem muito. Vai custar, vai doer muito, mas se tudo correr bem e com uma pitada de sorte – e, mais uma vez, a sorte vem com o trabalho – as coisas vão acontecer, não tenho dúvidas disso”, garante.

“A sorte dá imenso trabalho”, isso é certo, mas tal não significa que seja impossível fazer acontecer.
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • josealbinoferreiraartinschagas
    28 set, 2015 porto 16:43
    Grande talento,e grande espirito de aventura!
  • FRANCISCO S.M.BETTENCOURT
    28 set, 2015 Terra Chã-Angra do Heroismo 15:50
    Não fossemos nós Portugueses descobridores do mundo sinto orgulho no André pela coragem sim coragem porque é preciso muita por ter levado Angra do Heroísmo os Açores e Portugal ao Mundo.