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Vara defende Constâncio. Banco de Portugal "não tinha de se meter" no crédito a Berardo

14 jun, 2019 - 21:00 • Lusa

Ex-administrador da Caixa Geral de Depósitos disse aos deputados que os empréstimos para financiar ações do BCP foram uma "coincidência" e que não há "nexo causal" com a sua ida para o banco privado.
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O ex-administrador da Caixa Geral de Depósitos Armando Vara afirma que o Banco de Portugal (BdP) "não tinha de se meter" nos créditos à Fundação José Berardo, defendendo o papel do ex-governador Vítor Constâncio.

"O que o Banco de Portugal tinha de fazer naquele caso era dizer se sim ou se não" ao aumento de capital no BCP e não pronunciar-se sobre o crédito concedido pela Caixa Geral de Depósitos (CGD), afirmou Armando Vara no parlamento, em Lisboa, durante a sua audição na comissão parlamentar de inquérito à gestão e recapitalização da CGD.

"Ninguém me encomendou o sermão", garantiu Armando Vara, admitindo que acompanhou a discussão à volta da aprovação ou não por parte da administração de Vítor Constâncio do aumento de posição no BCP e a sua ligação com o crédito de 350 milhões de euros concedido à Fundação José Berardo.

Armando Vara declarou que "é possível apontar muita coisa a Vítor Constâncio, mas não nessa matéria".

De acordo com o ex-administrador da CGD, "seria impensável" o Banco de Portugal ter interferência nas políticas de concessão de crédito, exceto em algo que "não tivesse a ver com o perigo de honrar os compromissos em relação aos seus depositantes".

Na última sexta-feira, o jornal Público revelou documentos, a que posteriormente a Lusa também teve acesso, que mostram que a operação de entrada de Joe Berardo no BCP tinha sido autorizada pelo BdP, mesmo sabendo que as verbas necessárias para essa operação provinham de um crédito de 350 milhões de euros contraídos junto do banco público.

Segundo esses documentos, dois membros da supervisão bancária do BdP, Carlos Nunes e Virgílio Mendes, assinaram uma carta na qual se lê que "o Conselho de Administração do Banco de Portugal, em sessão de 21 de agosto de 2007, deliberou não se opor à detenção por parte da Fundação José Berardo de uma participação qualificada superior a 5% e inferior a 10% no capital social do Banco Comercial Português, SA e inerentes direitos de voto". Nessa reunião Vítor Constâncio disse que não participou.

Empréstimos para financiar ações do BCP foram "coincidência"

Armando Vara disse aos deputados que os empréstimos para financiar ações do BCP foram uma "coincidência" e que não há "nexo causal" com a sua ida para o banco privado.

"Não vejo nenhum nexo causal. Foi coincidência", respondeu Armando Vara ao deputado do PCP Paulo Sá, que lhe perguntou sobre a 'guerra' de poder no BCP e a posterior ida de Vara e de Carlos Santos Ferreira, então presidente da CGD, para o banco privado.

Armando Vara disse também que "não conhecia pessoalmente" o empresário José Berardo, que "não tinha nenhuma relação com ele" e que só o conheceu "na fase de ir para o BCP".

No entanto, Vara não excluiu "que como aqui já foi referido, houvesse um certo compromisso entre pessoas [...] que tinham alguma apetência pela direção do banco", uma referência às palavras da deputada do PS Constança Urbano de Sousa, que tinha referido os nomes de Paulo Teixeira Pinto [então presidente do BCP] e António Mexia.

"Não acredito na tese da conspiração", defendeu Armando Vara. "Nós não tivemos nada a ver, em nenhuma circunstância, em nenhum momento".

Armando Vara voltou a referir que "só soube o que se estava a passar" depois, mas que isso não significava que tivesse estado "um ano a ver navios".

"Tenho bem presente os interesses que se moviam contra nós", afirmou o ex-ministro, e que "a seu tempo" irá "escrever sobre o assunto".

Armando Vara confessou também que "se tivesse consciência do que se viria a passar depois, provavelmente não teria aceitado ir para o BCP".

O ex-administrador da CGD afirmou ainda que o que acabou por determinar a sua ida e de Santos Ferreira para o BCP "foi a determinação de outra pessoa que não Filipe Pinhal" para a presidência do banco, que "era vice-presidente na altura em que o engenheiro Jardim [Gonçalves] era presidente".

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