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Dorothy Day. A história de conversão da mulher que quis resolver “os problemas da pessoa que está ao lado”

14 jun, 2019 - 16:40 • Marta Grosso

Foi apontada pelo Papa Francisco como um dos americanos exemplares e sempre disse que não queria ser santa. Este sábado, a Lucerna apresenta “A Longa Solidão”, uma autobiografia que, no fundo, é um “convite a entrar num mistério”.
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É uma das figuras marcantes do século XX, com ideias avançadas até para o nosso tempo – assim é descrita Dorothy Day, uma mulher comum nas dificuldades que enfrentava no dia-a-dia e extraordinária no legado que deixou.

Nascida no seio de uma família protestante da classe média norte-americana, Dorothy Day (1897-1980) tornou-se jornalista de profissão, ativista de sangue e católica de coração e convicção.

Fundou uma espécie de movimento espiritual do século XX, com uma rede de casas de acolhimento e jornais que abrangia todo o território dos Estados Unidos e cujo propósito era alimentar os famintos e acolher os pobres, os mais vulneráveis, os doentes e os necessitados, no espírito da caridade cristã.

Mas nada disto foi alcançado pacificamente. A história de Dorothy Day é cheia de episódios marcantes, muitos deles radicais. Foi presa várias vezes por desobediência civil e manifestações pacifistas (a última vez aconteceu em 1973, aos 75 anos), conviveu em ambientes boémios, intelectuais e artísticos, e viveu maritalmente com um homem com quem não era casada.

Ao nível político, não é fácil dizer se estava mais à esquerda ou à direita – tanto criticava severamente um lado como o outro.

O nascimento da sua filha, em março de 1926, marca o ponto de viragem na sua vida: a conversão ao catolicismo (em 1927). Ter uma filha numa altura em que acreditava não poder ter filhos levou-a a questionar: a quem agradeço?

Da conversão às casas de acolhimento

A Longa Solidão” é a autobiografia de Dorothy Day sobre todo o seu processo de conversão. E é o primeiro livro da coleção "Calcutá" – uma série de obras literárias e académicas que a Lucerna/Princípia Editora vão lançar no âmbito da reflexão histórica, filosófica e teológica cristã.

“É uma conversão motivada por uma grande alegria”, que se transforma “numa situação pessoal complicada”, afirma à Renascença o professor Henrique Leitão, um dos promotores da coleção "Calcutá".

É que o homem com quem vivia e pai da sua filha não a acompanhou neste caminho. Dorothy Day decidiu batizar a sua filha, mas Forster Batterham, também ativista e seu grande amor, não assistiu à cerimónia e a relação tornou-se cada vez mais difícil de manter.

Dorothy acaba por ir para Nova Iorque e fazer uma vida sozinha com a filha. E foi neste momento delicado e de grande desorientação da sua vida que conhece um francês, Peter Maurin, que a desafia a começar um jornal.

“Não há nada que eu queira mais. É a ambição para qualquer jornalista ter o seu próprio jornal”, recorda Dorothy numa entrevista ao programa religioso “Christopher Closeup”, em 1971.

O jornal – o “Catholic Worker” – começa a ser distribuído nas ruas de Nova Iorque a um preço muito acessível. Estávamos em 1933 e os EUA ainda viviam os efeitos da Grande Depressão.

Um dia, aparece no jornal uma pessoa mais desfavorecida, a quem Dorothy Day e Peter Maurin oferecem café. “Passado um tempo outras pessoas vêm e o emigrante francês sugere que lhes dê sopa. Algum tempo depois, têm uma fila de pessoas que vão lá só para receber comida”, conta o professor Henrique Leitão.

Daí, às casas onde Dorothy Day acolhia os pobres, dando-lhes um teto, comida e condições para manter uma família, foi um passo.

“Não me chamem santa. Não quero ser afastada tão facilmente”

A diocese de Nova Iorque lançou o processo de beatificação de Dorothy Day, mas Dorothy não queria que lhe chamassem santa. Não queria ser colocada num patamar diferente do das pessoas comuns, pois vivia as mesmas dificuldades de todos nós.

“Ela não vive num convento, vive no meio da maior metrópole do mundo, vive perfeitamente imersa nos problemas políticos, sociais e económicos do seu tempo” e ainda nas dificuldades que é educar uma filha por entre a ajuda que concede aos mais necessitados, sublinha o professor Henrique Leitão.

É, por isso, “uma mulher muito do nosso tempo” e que é difícil enquadrar “nos esquemas simples com que muitas vezes classificamos as pessoas”.

Em 2015, quando visitou os Estados Unidos, o Papa Francisco apontou-a como um dos quatro americanos de destaque.

“Nestes tempos em que as preocupações sociais assumem tal importância, não posso deixar de mencionar a Serva de Deus Dorothy Day, que fundou o ‘Catholic Worker Movement’”, afirmou, considerando inspiradores “o seu ativismo social, a sua paixão pela justiça e pela causa dos mais oprimidos”.

Dorothy Day defendia que todos os homens são nossos irmãos e não se recusa um prato de comida a um irmão quando ele tem fome.

“Não podemos deixar de reconhecer o facto de que todos somos irmãos. Seja que um homem acredite ou não em Jesus Cristo, na sua encarnação, na sua vida aqui connosco, na sua crucificação e ressurreição; seja que acredite ou não em Deus, ainda assim, continuamos sendo todos filhos de um mesmo Pai”, dizia.

Dorothy Day queria, assim, resolver as dificuldades da pessoa que está ao lado. Diz quem a conheceu que ansiava por respostas para as grandes questões: como devemos viver esta vida? Onde? De que maneira e com que propósito?

“A Longa Solidão” é “um convite a conhecer-se esta personalidade e conhecer Dorothy Day é entrar de alguma maneira num mistério – o mistério do que a graça faz na alma de uma pessoa”, resume o promotor da coleção “Calcutá”.

“Quando uma pessoa escreve a história da sua vida e o trabalho em que esteve empenhada, também faz, de certa forma, uma confissão. Quando escrevi a história da minha conversão, há 12 anos, deixei de fora todos os meus pecados, mas contei todas as coisas que me trouxeram até Deus, todas as coisas bonitas, todas as lembranças de Deus que me assombraram, me perseguiram ao longo dos anos, de forma a que, quando a minha filha nasceu, numa alegria grata voltei-me para Deus e tornei-me católica. Poderia adorar, louvar e agradecer-Lhe na companhia de outros. É difícil fazer isso sem um ritual, sem um corpo com que possamos amar e mover-nos, amar e louvar. Eu encontrei a fé. Eu tornei-me um membro do Corpo Místico de Cristo. Ir à Confissão é difícil. Escrever um livro é difícil, porque estamos «a entregar-nos». Mas, quando amamos, queremos entregar-nos”, escreve Dorothy Day na sua autobiografia.

“A Longa Solidão” é lançada este sábado, 15 de junho, na Feira do Livro de Lisboa, às 15h00.

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  • Vera Costa
    18 jun, 2019 00:28
    "A longa solidão" autobiografia de Dorothy Day , interessante! muito interessante!!!