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“E Deus nisso tudo?”

A fé também se alimenta de sopas chinesas

11 abr, 2019 - 23:56 • Eunice Lourenço e Ana Catarina André

Isabel Capeloa Gil, reitora da Universidade Católica, conversou sobre a vida em Macau e o doutoramento na Alemanha.
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"E Deus nisso tudo" com Isabel Capeloa Gil
"E Deus nisso tudo" com Isabel Capeloa Gil
Ouça a conversa na íntegra clicando na imagem acima

A fé de Isabel Capeloa Gil, reitora da Universidade Católica Portuguesa, começou “ao colo” da mãe, viveu dias felizes e inter-religiosos em Macau, mas passou por dois anos de “angústia profunda”. Saiu dessa crise “muito mais forte”. Revelações da reitora da Católica numa noite de conversa com Maria João Avillez, na iniciativa “E Deus nisso tudo?”, que decorre semanalmente na igreja do Campo Grande, em Lisboa.

A conversa começou sobre a condição feminina e Isabel Capeloa Gil a discordar do que chamou uma “autovitimização da mulher” porque esse discurso sugere que apenas través de medidas para atribuição e lugares (vulgo quotas) se consegue ultrapassar o papel secundário. “Há redes culturais e sociais e políticas – e temos falado muitos nos últimos tempos de endogamia política - que levam a que as escolhas se façam a partir dessas redes. E não tem a ver com género”, afirmou Capeloa Gil, que é a segunda mulher a ser reitora da UCP.

“É preciso que as mulheres saibam mostrar o valor que têm”, defendeu esta mãe de duas filhas, para quem nunca se colocou a opção entre a família e a carreira, nem na Alemanha (fez doutoramento em Munique) onde as colegas viam a carreira académica como “uma espécie de vida monástica com dedicação total, sem família, nem amigos”.

Depois, a conversa foi até Macau, onde isabel viveu dos 7 aos 15 anos, devido á colocação do pai como oficial da marinha. Viveu, então, frente a um templo chinês, o maior de Macau, para onde gostava de ir brincar com os amigos e acabavam a comer sopa com os monges para horror da mãe que achava que as sopas chinesas tinham ingredientes estranhos.

Desses tempos, contudo, Isabel não recorda “nenhuma forma de sincretismo religioso”. Rezar fazia parte da sua prática diária, integrava um grupo de jovens numa paróquia (S. Lourenço) entregue a jesuítas.

“O que mais adorávamos era participar nas procissões. Antes de racionalizar havia uma prática física da nossa crença” recordou a reitora, que tem a literatura como formação de base. A cidade parava para as procissões católicas, como parava para as celebrações do ano novo chinês, sempre “num respeito profundo entre as comunidades”.

Quando voltou de Macau, Isabel foi viver para Almada e de novo de integrou numa paróquia entregue a jesuítas. Mas, aos 18 anos, com a entrada na faculdade, a fé que tinha começado “ao colo” da mãe entrou em crise. Começou a pôr tudo em causa e viveu dois anos de “angústia profunda”. Valeu-lhe o padre Luís, que “foi fundamental”, porque percebeu que a crise não se resolveria com uma resposta dogmática.

“Saí muito mais forte desta crise”, partilhou Isabel Capeloa Gil, que hoje considera que deve muito a Jesus. “Porventura não serei digna de tanto”, disse a reitora, para quem hoje se vive “um momento limite” em que é preciso que o mundo se recentre na defesa dos valores da dignidade humana e se procure criar ciência que ajude a ter “uma sociedade melhor”.


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