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OCDE. Classe média portuguesa vive acima das possibilidades

11 abr, 2019 - 07:15 • Redação com Lusa

"Atualmente a classe média mais parece um barco que navega em águas agitadas", afirmou o secretário-geral da OCDE. Uma em cada cinco famílias da classe média "gasta mais do que ganha".

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A subida dos gastos com habitação e com a saúde combinada com a estagnação dos rendimentos levam a que as famílias da classe média portuguesa sejam das que têm mais dificuldade em chegar ao fim do mês, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Mais de um terço tinha custos superiores aos seus rendimentos em 2016, avança o jornal de “negócios”, que cita o estudo “Sob pressão, as classes médias em queda”.

De acordo com este relatório, 69% das famílias de classe média portuguesa são vulneráveis financeiramente e dizem ter dificuldades em chegar até ao fim o mês.

Portugal está no topo dos 22 países avaliados pela OCDE, ficando a apenas atrás do Chile e da Grécia.

As famílias da Lituânia e da Estónia são as que menos sentem um maior peso dos custos sobre os salários.

O que explica este cenário? O excessivo recurso das famílias ao crédito, porque quando se fala de sobreendividamento, fala-se de um ou mais créditos que ultrapassam os rendimentos mensais. Se a isso se juntar a subida dos gastos com a habitação e com a saúde, combinada com a estagnação dos rendimentos, fica-se com o quadro completo.

A OCDE lembra que os preços das casas subiram três vezes mais rápido do que os orçamentos das famílias. O que, no caso português, se traduz em níveis de poupança historicamente reduzidos.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), as famílias pouparam, em média, 4.60 euros por cada 100 euros de rendimento.

Jovens cada vez mais longe de atingir a classe média

Os jovens entre os 17 e os 35 anos, conhecidos como 'millennials', têm mais dificuldade em pertencer à classe média e ter um emprego estável do que as gerações precedentes, segundo um estudo da OCDE, publicado na quarta-feira.

"Atualmente a classe média mais parece um barco que navega em águas agitadas", afirmou o secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Ángel Gurría, a propósito de um relatório apresentado com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Intitulado "Sob pressão: as classes médias em queda", o estudo mostra que nos países da OCDE, 70% dos 'baby boomers', a geração pós II Guerra Mundial, conseguiram entrar nas classes médias atingindo a idade dos 20 anos, em comparação com apenas 60% da geração do milénio.

"Essa geração também beneficiou de um emprego mais estável durante a vida ativa que a geração mais jovem", refere o estudo, que também conclui que houve um enfraquecimento da influência económica das classes médias desde meados da década de 80.

"As suas receitas quase não sofreram aumentos nos países da OCDE" e "o custo dos bens essenciais para a classe média aumentou mais do que a inflação", lê-se no relatório.

O documento alerta que uma em cada cinco famílias da classe média "gasta mais do que ganha".

Essa situação, acrescenta o relatório, é ainda mais preocupante porque o "sobreendividamento também é maior do que nas classes sociais alta e baixa".

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  • Clarificação
    11 abr, 2019 11:12
    Gostaria de colocar uma dúvida ao técnico da OCDE que faz o estudo: o que é a classe média em Portugal? É porque chamar classe média a pessoas que se endividam para comprar casa ou ir ao médico parece-me um bocado exagerado. O nível de vida que ele chama "médio" em Portugal equivale a POBREZA em qualquer país civilizado. Portanto não é a classe média que vive acima das suas possibilidades. São os pobres da Europa que se endividam para ter o mínimo de dignidade
  • Cidadao
    11 abr, 2019 Lisboa 09:52
    Engraçado o título deste artigo, pois quando se lê o artigo todo, é que se verifica que o tal "viver acima das suas possibilidades" - frase tão cara e usada na noite tenebrosa do governo da Ditadura PSD-CDS-Cavaco Silva-Troika - é querer "apenas" uma vida normal, com um mínimo de conforto, o que é impossibilitado pela especulação imobiliária, pelos aumentos dos preços da Saúde e bens, e sobretudo pela estagnação salarial nos "mínimos", e precariedade desenfreada. Tudo isto empurra para a necessidade de endividamento, não para uma vida de luxo, mas apenas para "aguentar o barco". E como não há organização mas individualismo, nem implantação Sindical organizada que reivindique à séria, melhores condições - nos poucos exemplos que essa capacidade sindical apareceu, a luta resultou - não se vislumbra melhorias, principalmente com nova crise no horizonte.

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