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Nova tradução portuguesa da Bíblia “é um momento histórico”

25 mar, 2019 - 17:44 • Ângela Roque

D. Anacleto Oliveira tem grandes expectativas em relação ao contributo dos leitores para a edição definitiva, e elogia empenho dos 34 biblistas envolvidos.

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A Conferência Episcopal Portuguesa apresentou esta segunda-feira o primeiro volume da nova tradução da Bíblia em português, “Os Quatro Evangelhos e Salmos”. Trata-se de uma edição “ad experimentum”, que dá a possibilidade a quem a ler de contribuir, com sugestões ou correções, para a edição definitiva. Para D. Anacleto Oliveira, bispo de Viana do Castelo, biblista, e que preside à Comissão Coordenadora do projeto, este é mesmo “um momento histórico na história da Bíblia”.

“Que eu saiba até hoje, e já lá vão milhares de anos de história da Bíblia, nunca houve nenhuma tradução em que o público participasse”, diz em declarações à Renascença, não escondendo a expetativa que deposita no processo. “É evidente que nós hoje temos meios que não havia antigamente, meios técnicos, internet. Isso facilita esta colaboração. Mas, mesmo nas traduções que foram feitas recentemente noutros países, como Espanha, França, Itália ou Alemanha, não me consta que o público tivesse participado na tradução”.

Convicto de que as mudanças que já constam neste primeiro volume da nova tradução vão provocar “no mínimo curiosidade”, D. Anacleto desafia os leitores a participar, sobretudo os cristãos. “Leiam, leiam, leiam. Leiam várias vezes o mesmo texto, porque quando a gente lê só uma vez e está habituado a uma tradução antiga tem uma reação negativa”, explica. E dá como exemplo a sua própria experiência: “já ando a rezar os Salmos há vários dias, e cada vez gosto mais desta tradução, por isso, leiam muitas vezes. É claro que vai haver imperfeições, eu próprio já encontrei algumas. Por isso pedimos com insistência que nos digam que palavra é, onde é que aparece. No fim haverá uma análise de todas essas sugestões, sem naturalmente fugir aos critérios fundamentais. Mas, tenho uma esperança muito grande de que, de facto, teremos contributos muito preciosos”.

Um exemplo é a oração do Pai-Nosso, que aparece nos Evangelhos de Lucas e de Mateus. Em ambas as versões a oração termina com "não nos leves até à provação", em vez do "não nos deixeis caír em tentação" a que os portugueses estão mais acostumados.

D. Anacleto Oliveira só não consegue avançar com um prazo para que a tradução de toda a Bíblia esteja concluída. “A Bíblia alemã demorou 20 anos a traduzir. A Bíblia francesa – uma das mais belas de todas aquelas que conheço, e que é comum a todos os países de língua francesa – demorou, também, cerca de 20 anos. Nós vamos em sete anos”, lembra. E para já foi apenas publicada a edição provisória de “Os quatro Evangelhos e Salmos”.

“É claro que nós temos o interesse que seja o mais rápido possível, o problema é que todos aqueles que estão a colaborar têm muitos outros afazeres, temos de tirar tempo a outros deveres para nos dedicarmos a isto. Embora o façamos com muita paixão. Portanto, não posso prometer quando é que irá sair a edição definitiva, mas irá sair de certeza o mais depressa possível, mas também o mais bela possível. Temos que juntar as duas coisas, não nos queremos deixar vencer pela pressa, e sair qualquer coisa. Queremos que seja acima de tudo com o nível, e sobretudo que tenha muita utilidade ao povo de Deus”.

Há um prazo para colaboração dos leitores? “O prazo, eu diria, é até à véspera de encontrarmos a tradução completa e definitiva. Até essa altura é sempre tempo, e isto pode durar 5, 6, 7, 8, 9 ou 10 anos”, diz o bispo de Viana. Tudo depende, também, da forma como correr a experiência de auscultação dos leitores em relação a este primeiro volume traduzido, por isso ainda é cedo para saber se o processo se repetirá em relação às outras partes da Bíblia. “Não, isso ainda não está decidido. Mas, estamos abertos a essa hipótese. É claro que com isso vai demorar um bocadinho mais tempo, mas irá enriquecer, por isso, se virmos que vale a pena, faremos isso”, explica.

D. Anacleto Oliveira não poupa elogios ao empenho dos 34 biblistas que estão a colaborar na nova tradução portuguesa da Bíblia, no que classifica como “um trabalho entusiasmante!”. Entre eles estão vários peritos dos restantes países de língua oficial portuguesa, cujo contributo tem sido, em muitos casos, fundamental. “Há um brasileiro, especialista em língua portuguesa, e com grande experiência em traduções bíblicas, que nos deu umas orientações para a nossa tradução. Nós aproveitámos a dica e pedimos-lhe para ele traduzir uma série de livros do Antigo Testamento, e está a trabalhar com um afinco enorme”.

“Um dos termos que é capaz de causar um bocadinho sensação é a forma como traduzimos, no Evangelho de São João, ‘No princípio era a Palavra, a Palavra estava em Deus’. Usámos ‘Palavra’ e não o 'Verbo'. Esse foi um dos temas discutido com ele”, revela.

As contribuições dos leitores podem ser enviadas por escrito para o Secretariado Nacional da Educação Cristã, na Estrada da Buraca nºs 8-12, 1549-025, mas preferencialmente através do endereço de correio eletrónico: bíblia.cep@gmail.com

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