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“Chinatown” em Vila de Conde tem a maior comunidade chinesa no país

04 dez, 2018 - 11:42 • André Rodrigues

A reportagem da Renascença foi conhecer a zona industrial de Varziela, no dia da chegada do Presidente Xi Jinping.
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Os números oficiais indicam que Portugal tem cerca de 23 mil chineses. Desses, pelo menos dois mil têm negócios instalados na zona industrial da Varziela, em Vila do Conde.

Um espaço com dois mil metros quadrados, entre a Estrada Nacional 13 e a A28, que já teve mais stands e oficinas automóveis do que atualmente. Alguns ainda resistem. Mas são cada vez menos.

Em vez de logótipos de conhecidos construtores, os armazéns ostentam fachadas com nomes pomposos e respetiva tradução em caracteres chineses.

Anunciam marcas de vestuário, calçado, acessórios de moda e de telecomunicações, decorações e bugigangas de todo o tipo.

"Aqui só vendemos roupa, mas, se der uma volta, encontra armazéns que têm tudo", começa Yang Huang, um dos poucos chineses que fala um português quase perfeito, e até com um certo sotaque nortenho.

Yang pertence à geração Huang que já leva mais anos em Portugal do que na China. Os pais chegaram em 2000. Ele veio oito anos depois. Mas os pais "não tinham tempo" para cuidar do filho, "por causa do negócio". Afirma-o sem ressentimentos. Até porque, diz, essa desvantagem acabou por acelerar a sua integração na nova realidade.

"Vivi cinco anos na casa de uma senhora portuguesa, e aprendi português muito mais rápido", conta.

Uma destreza que ajuda os pais a comunicar com os clientes quando a barreira da língua se torna um obstáculo aos negócios. "Sobretudo com aqueles clientes que são mais exigentes, e tentam puxar o preço mais para baixo".

Só que essa distância linguística também já lhe custou alguns comentários pouco agradáveis. "Por racismo, talvez". Yang reconhece que "o português é muito difícil e a amizade também, porque gozam com quem não sabe falar português".

Na Rua 10 da Zona Industrial da Varziela, as lojas entreolham-se. Lado a lado. Frente a frente.

É fácil encontrar qualquer coisa. O armazém de Binglei Wang vende tudo menos roupa, calçado ou acessórios de moda.

Em 700 metros quadrados de armazém, os corredores são estreitos, as caixas empilham-se do chão até ao teto.

São detergentes e perfumes, ferramentas, acessórios para automóveis, artigos para animais, candeeiros, lâmpadas e, agora também, decorações de Natal. Uma espécie de 'tem-tudo', que já teve melhores dias.

Grandes cadeias esmagam margens de lucro

"O negócio corre mais ou menos, porque os vendedores já vão diretamente às lojas dos 300, que são as nossas principais clientes, e os revendedores já não sentem a necessidade de vir até aqui", lamenta este jovem empresário.

Aos 20 anos, Binglei Wang já não vai à China "há três anos" e, apesar de olhar com agrado para o crescimento do seu país, sente que "já não seria capaz de trocar Portugal" por um país onde "tudo é mais confuso, onde há mais trânsito e muito mais gente", onde a simpatia também não abunda.

"São as diferenças entre os locais: aqui eu entro numa loja, pago e a pessoa diz-me 'obrigado'. Na China, não há bom dia, boa tarde ou boa noite. É entrar, comprar, pagar rápido e ir embora". Sem palavras, sem sorrisos.

Se até há pouco tempo, as lojas chinesas eram sinónimo de preço baixo, hoje, as grandes cadeias esmagam as margens de lucro até ao limite.

"É o caso da Zara ou da Primark, que têm preços semelhantes ou até mais baixos", reconhece Yang Huang.

Mas, mesmo que os consumidores prefiram os centros comerciais, estes chineses não desistem de viver do trabalho e para o trabalho. Não conhecem outra vida. E muitos residem onde trabalham, "principalmente o pessoal do vestuário", revela Binglei Wang.

"Não são casas equipadas. São pequenas instalações que dão para uma ou duas pessoas", na parte de trás do armazém.

Hábitos que geram desconfiança a quem é estranho a este dia a dia de poucas folgas e que criam a perceção pública de uma comunidade fechada.

Binglei Wang lamenta, mas reconhece que não há propriamente injustiça nesta avaliação. "Há famílias com maior abertura do que outras". Mas "a culpa desta perceção é mais da comunidade chinesa do que dos portugueses".

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