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“É uma pedrada autêntica". Mãos de Luís dão vida nova a pedras da Serra da Estrela

06 nov, 2018 - 09:00 • Liliana Carona

Luís Cabral, que encontrou refúgio no meio das pedras, olha-as e imagina diferentes formas e feitios que se traduzem em peças de arte. Já são 400 as esculturas feitas pelas suas próprias mãos. Nunca as expôs ou vendeu. Oferece a quem gosta.
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O gatinho, que ironicamente pesa mais de 10 quilos, é cuidadosamente embrulhado em papel, por Luís Cabral. Mais um que está pronto para oferecer.

Aos 62 anos, o artesão residente em Castelo Branco, mas natural de S. Paio, confessa uma paixão para a qual despertou há três anos. “Vi um dia exposto um gato mesmo mal feito, e disse para a minha mulher que eu conseguia fazer melhor. Vi uma pedra dentro do lago, tirei a pedra e fiz um gato”, relembra sobre a primeira peça, que acabou por oferecer à mulher.

Hoje tem mais de 400 peças de arte e já ofereceu mais de 100, todas elas em pedra, algumas pesam dezenas de quilos, como a primeira que fez dedicada ao amor da sua vida. A esposa, Helena Almeida, diz ter ficado rendida à habilidade do homem com quem está casada há quase 40 anos. “Foi uma oferta muito grande, quando vi o gatinho com 20 quilos de peso, gostei muito”, admite.

É trabalhoso? Luís desmistifica, enquanto embrulha outra obra de arte para oferecer. “Não. Faço logo seis ou sete quando tenho tempo, à noite e ao fim de semana”, conta sobre o ofício que partilha com a sua profissão, na montagem de piscinas. No entanto, admite que a arte lhe está no sangue e numa vida que perdeu. “Somos todos um bocado artistas. O meu filho que já cá não está, morreu num acidente há mais de 10 anos, mas ele tinha muito jeito, mais que eu”, não esconde a emoção.

Entre as esculturas em pedra, há gatos, cães, peixes, tartarugas, centopeias e formigas, feitas a partir do granito, xisto, recolhido em zonas como Belmonte ou Manteigas, “pedras que já são trabalhadas pelos próprios rios”, esclarece Luís, acrescentando que por onde passa apanha pedras e leva para casa. Quando vai ao Alentejo, a Castelo de Vide, não regressa sem uma pedra no bolso ou na carrinha, conforme o tamanho.

Os amigos olham com curiosidade para este passatempo de Luís. “Os outros não ligam às pedras, mas depois admiram-se com o resultado. Vejo logo o formato das pedras. Quanto mais faço mais quero fazer. Um é o gato, outro é o cão e escolho logo as pedras no terreno”, sorri, interrompido pela esposa. “É uma pedrada autêntica. Sempre que vê uma pedra, pensa numa forma”, conta Helena.

Só trabalha com a rebarbadora, berbequim e silicone para fazer a colagem das peças, que nunca foram expostas. “Muita gente me diz para fazer uma exposição. Já há uns exemplares no Museu de S. Paio, mas nunca fiz uma exposição”, salienta.

Luís diz que todos os trabalhos são um desafio e com o apoio da mulher, garante que já não consegue largar o bichinho da arte. “A brincadeira cada vez vai avançando mais e cada vez gosto mais de fazer isto”, refere Luís.

Por enquanto, o artesão que já ofereceu mais de 100 peças e fez mais de 400, não tem valores definidos para os trabalhos, oferece a quem gosta…

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