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Cirurgião que recita orações com os seus doentes galardoado pela ONU

08 out, 2018 - 11:16

O doutor Evan Atar Adaha tão depressa salva vidas numa marquesa como muda lâmpadas no hospital que dirige e onde é o único cirurgião. “A fé contribui muito para o meu trabalho”, diz.
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Evan Atar Adaha é católico praticante, mas isso não o impede de recitar o Alcorão com os seus doentes muçulmanos antes de os anestesiar, no hospital que dirige, em Maban, no Sudão do Sul.

Num ambiente onde a religião é muito importante, Adaha diz que a fé também contribui muito para o seu trabalho. “Sou inspirado pela crença de que vimos todos do mesmo Deus. Quando trabalhamos eu digo aos meus colegas que somos todos uma família, e temos de salvar vidas”, diz, em entrevista à Religion News Service. Antes de operar alguém pergunta qual é a sua religião, recita versículos do respetivo livro sagrado com o doente e depois rezam em conjunto.

Enquanto único cirurgião neste hospital, que serve um universo de cerca de 200 mil pessoas, o médico tem as mãos cheias, mas os seus colegas dizem que tão depressa pode ser visto a rezar com os seus doentes como a operar, a brincar com um recém-nascido ou a mudar lâmpadas.

Ao contrário da maioria dos seus compatriotas que conseguem tirar o curso de medicina, Evan Adaha optou por permanecer no Sudão do Sul para ajudar a população. A sua dedicação a uma comunidade composta em larga medida por refugiados das longas guerras que atingem a região do Sudão e do Sudão do Sul, valeu-lhe o reconhecimento do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

“O trabalho do Dr. Atar, durante décadas de guerra civil e de conflito, é um exemplo de profunda humanidade e altruísmo”, disse, na apresentação do prémio, o Alto Comissário Filippo Grandi.

O prémio é acompanhado de um cheque no valor de cerca de 130 mil euros, que o médico espera poder usar para melhorar as condições de trabalho do hospital. “Sinto-me muito humilde por ter recebido este prémio. Vem com recursos, que vamos usar para ultrapassar os nossos próximos desafios”, disse o laureado.

Formado em Cartum, Atar operava uma clínica no Sudão do Sul mas foi forçado a mudar-se para Maban quando o Governo sudanês intensificou os bombardeamentos, durante a guerra que antecedeu a independência do Sul em relação ao Sudão.

“Começámos sem nada”, diz o médico, “tive de deitar abaixo uma porta para usar como marquesa”, recorda.

Atualmente o hospital de Maban tem uma maternidade com trinta camas, pelo que frequentemente as pacientes têm de dormir no chão. O médico espera poder duplicar esse número, mas admite: “Ainda temos muitos desafios pela frente”.

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