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Entrevista

Padre Tony Neves vai assumir funções em Roma

06 set, 2018 - 17:27 • Ângela Roque

“Parto animado para mais esta missão”, diz o padre Tony Neves em entrevista à Renascença. O sacerdote português é o novo responsável mundial pelo Departamento da Justiça e Paz dos missionários espiritanos, com sede em Roma. Assume funções a 1 de outubro.

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Depois de 24 anos em Portugal, onde nos últimos seis foi o provincial dos Missionários do Espírito Santo, o padre Tony Neves foi chamado a uma nova responsabilidade na congregação, e a nível mundial. Esta quinta-feira foi formalmente nomeado coordenador do serviço Justiça, Paz e integridade da Criação dos espiritanos.

Em entrevista à Renascença fala da nova missão, que não esperava, mas que encara como um desafio estimulante, tendo em conta que a guerra, a miséria e os crimes contra a natureza continuam a marcar o dia a dia e exigem respostas, também da Igreja. Vai continuar a andar no terreno e garante que não vai deixar o jornalismo.

Prepara-se para partir de novo em missão e desta vez foi chamado para Roma. O que vai fazer?

Vou coordenar o Departamento da Justiça e Paz dos espiritanos. É uma das áreas que temos privilegiado muito, por razões de carisma, e que tem a ver com todas as situações de ponta. Tudo o que tem a ver com a guerra, a violência, a pobreza extrema, os atentados ecológicos, as perseguições e as prisões arbitrárias, portanto, tudo o que atenta contra aquilo que em termos mais laicos nós chamamos os direitos humanos, é nosso espaço privilegiado missão. Os meus confrades, e somos três mil e muitos espalhados por cerca de 70 países, muitos deles vivem em situações onde a violação dos direitos humanos é flagrante e constante. Por isso, esse também tem sido um compromisso nosso, tentar combater tudo aquilo que atenta contra a dignidade humana e os direitos humanos, e o departamento da congregação que acompanha esse tipo de situações chama-se justiça e paz.

É uma missão diferente da que está habituado, e até da que esperaria. Sei que gostava de voltar a África.

É verdade. Desde que fui eleito Provincial comecei a fazer a contagem decrescente para o meu regresso a uma linha da frente da missão e, nessa perspetiva, havia ‘desenhos’ que eu ia fazendo na cabeça. Regressar a Angola era o meu grande sonho, mas tinha outras perspetivas interessantes, até de países que acompanhei como provincial, onde temos espiritanos portugueses e onde há uma falta enorme de missionários. É o caso de Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, o Brasil todo, mas particularmente a Amazónia, e depois espaços como a Bolívia, o Paraguai, o México, áreas que eu visitei e percebi: 'aqui era muito importante ter mais um outro missionário para dar corpo à missão que aqui se faz'. Por isso, sempre alimentei esta ideia de terminar o mandato e disponibilizar-me para sair de Portugal e ir para uma linha da frente. Eu acabei por fazer 24 anos seguidos em Portugal, o que não é muito normal para um membro de um instituto missionário ad gentes.

Com esta nomeação não vai para o terreno, como gostaria, mas vai contactar com as várias missões espalhadas pelo mundo.

Não vou para o terreno em continuidade, digamos assim. O nosso departamento “Justiça e Paz” tem sede em Roma, mas depois o trabalho de quem o coordena é o de animar no terreno, por isso terei que ir muitas vezes às missões para acompanhar dos confrades que estão nessas situações mais delicadas.

Os locais de maior risco?

Exatamente, vou visitá-los. Depois vou tentar criar eventos de formação e sensibilização, e isso vai obrigar-me a sair muito. Mas, uma coisa é estar em Roma, ir e vir, outra coisa era estar numa linha da frente, a assumir uma responsabilidade pastoral direta. Mas, isso virá mais tarde, porque estes cargos também não são eternos.

Sente que é uma missão onde pode ajudar a dar resposta às necessidades do mundo de hoje?

Sim, sim, disso não tenho dúvidas. As questões de justiça e paz, direitos humanos, ecologia e desenvolvimento são questões de ponta hoje, e o futuro da humanidade passa muito por aí. São talvez as mais atuais e aquelas que exigem uma resposta mais urgente e mais radical, portanto acho que será um desafio enorme.

Um dos argumentos que o meu superior-geral utilizou para me levar para Roma foi o facto de eu ter, mesmo em termos académicos, investido muito nesta área, porque o meu doutoramento é sobre questões de justiça e paz, e ele disse 'temos que capitalizar, tiveste seis anos muito duros em Angola, portanto percebes por dentro todas as dinâmicas de uma guerra civil, e de tudo aquilo que vem atrás, academicamente valorizaste muito, essas questões foram sempre uma preocupação tua, por isso achámos que tens sensibilidade, formação e experiência para poderes liderar esse departamento'. E eu disse ‘estou disponível’.

Parte animado para esta nova missão?

Parto. Aliás, parti sempre animado para todas as missões que me mandaram, e tenho tido ao longo da vida missões muito diferentes umas das outras. A primeira foi em Angola, num contexto bastante complicado, porque Angola vivia uma guerra civil, e eu estava no epicentro daquele terramoto. Depois vim para Portugal e comecei a investir muito na área da comunicação social. Gostei e gosto muito dessa área. Depois fui envolvido na pastoral juvenil, durante uma vintena de anos coordenei os Jovens sem Fronteiras, foi um tempo também muito bonito. Investi bastante na pastoral ecuménica, que é uma pastoral em que Portugal ainda não deu tudo o que podia dar.

Depois fui empurrado para áreas mais administrativas, com a pertença ao Conselho Provincial, fui primeiro Assistente Provincial, e nos últimos seis anos Provincial, um trabalho que fiz com muito gosto. Também dirigi, até ser Provincial, o Departamento de Animação Missionária do Patriarcado Lisboa, o que me permitiu orientar muitos cursos sobre a missão em vigararias, paróquias, em pólos do Centro Diocesano de Formação Cristã, que antigamente se chamava a Escola de Leigos. Essa área para a sensibilização missionária e para a formação também me marcou e foi importante na minha vida. Onde entro é a sério, e esta será mais uma missão para mim.

É um desafio enorme, claro, que passa por mudar de terra. E há um desafio linguístico duplo a que tenho também de responder, porque lá em casa, em Roma, só se fala em inglês, e fora de casa só se fala italiano, e são duas línguas que eu não domino, porque eu sempre fui da escola francófona. Vou ter que aprender.

Em Angola foi missionário e repórter de guerra, e até já editou alguns livros com as suas reportagens e as suas crónicas. Como é que vai ficar agora o jornalismo?

Vou continuar a escrever e a falar. Eu creio que este tipo de cargos até potencia mais a questão da comunicação, primeiro porque vou ter informação mais privilegiada, segundo porque vou ter que ir ao terreno e ver in loco o que se passa, e terceiro porque é mesmo importante que se amplifiquem os gritos dessas situações, porque as guerras à porta fechada são o pior que se pode ter, porque aí quem faz a guerra faz o que lhe apetece e fica completamente impune de todas as violações dos direitos humanos que pratica.

Se houver jornalistas no terreno que ergam a voz, escrevam, digam, isso vai acalmar os senhores da violência. E o que se diz da guerra diz-se de todas as situações de injustiça, das pobrezas radicais, tudo o que se vive por exemplo no contexto de uma favela na América Latina ou de um musseque em África.

Tudo isso tem a ver com questões de justiça estrutural, e não só estrutural, e passar por um por um bairro desses e a seguir mostrar ao mundo como é que as pessoas ali estão e vivem, como é que sentem a injustiça, é uma forma de apelar aos governos para que olhem e façam qualquer coisa para alterar a situação. Portanto, acho que em termos de jornalismo irei estar em condições privilegiadas para amplificar os gritos dos pobres. Essa sempre foi a minha perspetiva de fazer jornalismo.

Vai continuar a colaborar com as publicações dos espiritanos em Portugal?

Sempre. Todos os meses irei escrever na Ação Missionária, que é o jornal da Congregação que dirigi nos últimos 20 anos, e irei continuar a colaborar naquilo em que puder.

Que balanço faz dos últimos seis anos como Provincial dos Missionários Espiritanos em Portugal?

Foi um tempo muito intenso, porque o grande objetivo destes seis anos era preparar para o futuro aquilo que nós chamamos um projeto missionário global. Foi isso que no Capítulo Geral da Congregação, em 2012, foi pedido a cada circunscrição, e somos cerca de 70 no mundo - que em cada país, cada província, cada grupo, traçasse um projeto missionário global, para se avaliar com realismo a atualidade da missão que se está a fazer, e também a relação entre o que fazemos e quem somos. Porque há países, grupos, províncias que mantêm o mesmo trabalho de há 20 ou 30 anos, mas com muito menos gente ágil, e estamos claramente mais envelhecidos em boa parte do mundo. Não é o caso da Nigéria, de Angola ou do Gana, onde tem havido muitas ordenações, mas na maioria os países, sobretudo, aqui na parte mais norte do mundo, tem havido menos ordenações e embora haja injeção de pessoal missionário vindo do Sul, não há uma substituição.

Isso quer dizer que têm de se redimensionar.

Claro, não podemos continuar a manter a mesma missão com as pessoas que temos, tem de se fazer uma avaliação muito rigorosa daquilo que estamos a fazer para vermos o que é que é mais urgente, mais atual, o que é que corresponde mais ou menos ao nosso carisma, para depois tomarmos decisões de futuro com coragem e discernimento.

Foi isso que, como Provincial, tentei fazer. E conseguimos, porque o Capítulo que em julho elegeu o padre Pedro Fernandes como meu sucessor fez dos documentos capitulares um projeto missionário global para a Província. Portanto, foram seis anos de intenso trabalho, de muitas reuniões, buscámos muita ajuda exterior, de sociólogos, de membros de outros institutos religiosos, padres diocesanos, leigos comprometidos, tentámos muita ajuda para que o discernimento fosse o mais profundo e o mais sério possível, e estou muito contente com o resultado final, porque acho que estes documentos capitulares abrem janelas ao futuro, e não têm nada de deprimente. Nós achamos que estamos bem e que a nossa missão continua muito atual, também aqui em Portugal e a partir de Portugal, agora há ajustes a fazer e esses estão previstos no projeto. Cabe agora ao novo Provincial e ao seu novo Conselho de levar por diante agora a aplicação desse projeto.


Lamenta ter deixado alguma coisa por fazer?

Ai, ficou muito por fazer. Nestas dinâmicas de missão há sempre tanto a fazer que nunca temos braços suficientes.

Os Missionários Espiritanos são quantos neste momento em Portugal?

Somos 112, embora haja 30 que estão fora, e um grupo muito significativo tem mais de 75 anos, destes que estão aqui em Portugal, pelo que há um grupo muito grande de confrades que estão a precisar de muito apoio, alguns deles estão em cuidados mais ou menos continuados. Nós temos uma casa, um grande seminário em Fraião, Braga, que acolhe uma quinzena de confrades que estão muito débeis e têm cuidados continuados 24 sobre 24 horas. E praticamente em todas as comunidades temos confrades que, embora relativamente ágeis, têm idades acima dos 80.


E novas vocações?

Estes dois últimos anos foram claramente anos de graça, porque tivemos duas ordenações no ano passado e duas ordenações este ano, mas não foi assim nos anos anteriores, e não vai ser assim nos próximos anos. Portanto, vamos continuar a ter que investir muito na Pastoral vocacional, porque não é fácil convencer os jovens de que ser missionário a tempo inteiro, e a vida inteira é um grande projeto de vida. Não é uma mensagem fácil de passar às novas gerações.


Isso não é atrativo para os jovens?

Curiosamente o que eu sinto da minha passagem por muitos espaços, incluindo espaços laicos, como escolas e outros ambientes, é que as pessoas, regra geral, ficam positivamente admiradas com o trabalho que os missionários fazem, e há muita gente que quer fazer um bocadinho de missão, ou seja, ir um mês, ir um ano, temos muita gente com essas perfectivas. Mas dedicar toda a vida a isso é diferente.

Mas, o voluntariado missionário tem crescido entre os jovens...

Sim, é um fenómeno relativamente recente e que tem muito potencial. É uma área onde temos que continuar a investir, porque as vocações que permitem fazer experiência de missão no terreno podem potenciar a descoberta de uma vocação de consagração para a vida toda. Temos que trabalhar um bocadinho mais aí, porque estamos num tempo em que ninguém toma decisões assim em folhinha branca. Os jovens querem ter certeza de que é aquilo que Deus espera deles, e que é aquilo que os vai realizar em termos humanos e em termos pessoais. Por isso, perguntar a alguém 'tu queres ser padre ou queres ser irmã?' faz pouco sentido, porque alguém só vai querer ser padre ou irmã se conseguir previamente fazer uma experiência por antecipação do que é que isso possa vir a ser.

No caso missionário todos aqueles que ultimamente têm sido ordenados padres tiveram experiências missionárias antes de tomar a decisão de querer ser ordenados padres. Portanto, temos que proporcionar experiências para que os jovens vejam se é aquilo que querem para a vida toda, ou se é apenas uma experiência pontual que marca a sua vida, mas que depois querem continuar a ter uma vida de leigos, que é obviamente também uma vocação muito importante.

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  • Gonlçalves Sambei
    08 mai, 2019 Lobito 15:43
    fico muito feli por ti, padre Tony. aguardamos por ti com muita expectativa na Paróquia de São João Baptista _Lobito.