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Leigos para o Desenvolvimento desafiam: ser voluntário 24 horas em Portugal

12 mar, 2018 - 09:31 • Ângela Roque

Projeto piloto em duas freguesias de Almada recebe os primeiros voluntários a tempo inteiro em abril. Vão viver na comunidade em colaboração com a paróquia local, que acreditam pode vir a ser o grande “agente de mudança”.

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Há mais de 30 anos voltados para África, os Leigos para o Desenvolvimento vão abrir a sua primeira missão de longa duração em Portugal. Vai abranger as freguesias da Caparica e do Pragal, no concelho de Almada, que são servidas pela paróquia de S. Francisco Xavier da Caparica, que já ali tem um Centro Social e um Centro Juvenil. Mas, a ideia é encontrar novas respostas para os muitos problemas que existem naqueles bairros de realojamento.

Como acontece nas missões que têm em Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe, também aqui os voluntários vão residir na própria comunidade. Os dois primeiros vão instalar-se em Abril. Depois da Páscoa começam a ser formados os próximos, que deverão substitui-los no final do ano. É por isso que esta semana o projeto vai ser apresentado nos centros universitários dos jesuítas em Lisboa e no Porto.

Em entrevista à Renascença Carmo Fernandes, diretora executiva dos Leigos para o Desenvolvimento, fala desta nova missão que terá como prioridades o apoio às mulheres e aos jovens adultos até aos 30 anos, e de como acredita que a experiência acumulada em território africano pode ser útil aqui em Portugal.

Vão abrir a primeira missão em Portugal. O que é que vos levou a tomar esta decisão?

Nós temos missões fora de Portugal há 30 anos, e foi olhar para a realidade do mundo global que nos fez há 30 anos começar nosso trabalho fora, fazendo um trabalho de cooperação para o desenvolvimento. Há cerca de cinco anos começámos a refletir se seria pertinente trazermos a nossa experiência acumulada para cá, para Portugal. Nós temos uma experiência de desenvolvimento comunitário, portanto enraizamo-nos num território e fazemos uma intervenção de longa duração, através das paróquias e das dioceses locais. Portanto, olhando um bocadinho para a realidade em Portugal, percebemos que esse trabalho cá não é muito desenvolvido, e começámos a pensar como pôr em prática esta possibilidade. O que acabou por agora se tornar possível, a partir de 2018.

Como foi escolhido o local para esta missão?

Nós temos uma relação muito próxima com a Companhia de Jesus aqui em Portugal. Desde a nossa origem eles fazem parte do nosso processo de formação. Somos autónomos dos jesuítas, mas temos uma ligação forte. Quando tomámos esta decisão de abrir uma missão em Portugal colocámo-nos à disposição deles, e foram eles que nos pediram para avançar com o projeto na margem sul, um dos sítios onde têm uma paróquia à sua responsabilidade. É a paróquia de São Francisco Xavier de Caparica, que abrange a freguesia da Caparica e a freguesia do Pragal.

Como vai funcionar esta missão?

A paróquia tem a funcionar o Centro Social Cristo Rei e também um Centro Juvenil. Nós vamos começar a partir dessas respostas que a paróquia já tem. Para isso vamos instalar voluntários na comunidade, vão viver lá, e vamos começar a fazer um trabalho de mobilização da comunidade. Nós cada vez que chegamos a um sítio, e aqui não será diferente, precisamos de um tempo de criar raízes, de nos dar a conhecer, de estabelecer relações de proximidade e confiança com as pessoas que aí vivem, com as organizações que aí têm presença, para fazermos um diagnóstico de forma participada, em que as próprias pessoas refletem sobre a sua realidade, pensam sobre as possíveis soluções e depois definem prioridades connosco nos projetos que vamos começar a delinear com elas.

Essa ligação estreita-se com os voluntários a viverem na própria comunidade?

Exatamente. Os próprios jesuítas que estão neste momento nessa paróquia também vivem lá, num apartamento. Nós vamos viver noutro, e portanto não vamos só trabalhar lá. A missão dos Leigos para o Desenvolvimento é uma missão de vida, as pessoas vão viver naquela comunidade, vão ali estar 24 horas por dia, portanto tanto têm um tempo que é de trabalho, efetivamente, como têm um tempo que é de estar e conviver, fazer parte daquela comunidade, também da dimensão pastoral. Porque nós também participamos na vida pastoral da própria comunidade.

Já têm uma ideia sobre as áreas prioritárias em que vão intervir?

2017 foi um ano para irmos fazendo o diagnóstico, ir conhecendo a realidade destas duas freguesias e dos seus bairros. Estamos a falar de uma realidade de habitações sociais, geridas tanto pela câmara municipal de Almada, como pelo IRU (Instituto de Reabilitação Urbana), há ali uma grande diversidade social e cultural. Uma das problemáticas que detetámos tem a ver com a dinâmica familiar. Há muitas mulheres que trabalham em limpezas e noutros serviços, o que as faz sair muito cedo e chegar muito tarde, estão ausentes de casa muitas horas do dia, e não conseguem acompanhar a educação dos filhos, por isso um dos grupos que vamos começar a trabalhar e a mobilizar vai ser precisamente de mulheres. Vamos também começar a trabalhar com os jovens, não com as crianças e adolescentes, porque para esses já existem alguns equipamentos e respostas nestes bairros, mas a partir dos 16, 17, 18 anos, até aos 30, precisamente aquela faixa em que muitos deles se desmotivam de estudar e não há muitas respostas adequadas ao seu perfil. Vamos aqui trabalhar mais pelas artes, pelo desporto, para tentar mobilizar e cativar estes jovens também em assembleias juvenis, para traçar com eles percursos de desenvolvimento de competências.

A ideia é esta ser uma missão a longo prazo. Pretendem permanecer e desenvolver um trabalho junto desta comunidade durante quanto tempo?

O nosso objetivo é sempre trabalhar para o desenvolvimento real da comunidade, o que significa que o que quer que nasça da nossa intervenção deve poder perdurar para além da nossa presença, portanto os processos são desde o início em parceria e capacitantes. Mas nós sabemos que estes processos são muito lentos, porque muitas vezes implicam mudanças profundas, de hábitos, de coisas muito enraizadas, muitas vezes geracionais, e isso leva muito tempo.

Normalmente ficamos 10, 15 ou 20 anos, dependendo da realidade de cada contexto. Para já estamos a preparar-nos para os primeiros dois anos, dois anos e meio, que são muito importantes para nós conhecermos a fundo a comunidade, que neste momento ainda é um conhecimento relativamente superficial, ainda somos elementos externos. A ideia é depois estruturarmos a intervenção na área da educação, da formação, do empreendedorismo, do associativismo, as áreas que percebermos que vão mais ao encontro da capacidade das pessoas também se envolverem e se tornarem agentes e não meramente beneficiários das nossas ações. Por isso é que estas missões são longas, porque os processos de mudança demoram.

Na prática quando é que esta missão vai começar a funcionar e quantos voluntários vai ter?

Já temos uma pessoa a trabalhar a tempo inteiro nos bairros, que contratámos em fevereiro para começar, e que vai coordenar este trabalho. No fundo é a figura que temos de ‘gestor do projeto’, que no caso dos projetos de África faz um acompanhamento à distância, aqui faz um acompanhamento de maior proximidade. A partir de abril teremos os primeiros voluntários. Serão dois, que neste momento estamos a mobilizar na nossa rede de ex-voluntários. Por ser um arranque de missão, e ser a primeira vez que estamos a intervir em Portugal neste formato, estamos à procura de gente já com "know-how" e experiência nos Leigos para o Desenvolvimento. Depois, a partir do final do ano, início do próximo, irá começar o ciclo de renovação dos voluntários. O nosso ciclo no terreno é de um ano, vamos começar entretanto uma formação que permitirá a qualquer pessoa que tenha interesse em se preparar para uma missão desta natureza poder fazer o percurso de formação e depois, se estiver disponível, poder ser selecionada para fazer missão a partir do final deste ano, início do próximo.

É com esse objetivo que vão apresentar o projeto esta semana?

Sim, vamos fazer duas sessões, uma no Porto, outra em Lisboa, para apresentar esta missão em Portugal. Porque estamos precisamente na fase de mobilizar pessoas para serem voluntárias no final deste ano. A formação vai começar a seguir à Páscoa. As sessões vão decorrer dia 15, às 21 horas, no CREU, o centro universitário dos jesuítas do Porto, e dia 16, à mesma hora, no CUPAV, o centro universitário dos jesuítas em Lisboa.

Trabalham sempre numa base de voluntariado? Ninguém é remunerado?

Não, os voluntários não. É a mesma coisa que acontece com o envio dos voluntários para fora, para África. Também é uma experiência nova aqui em Portugal, ter voluntariado de longa duração, enraizado nos contextos onde as pessoas estão a trabalhar. No fundo, as pessoas são enviadas da mesma maneira que são enviadas para Angola, Moçambique ou São Tomé, só que aqui vão para muito mais perto, mas para realidades que também chamam por nós, porque aqui também há um conjunto de desafios e problemáticas. Em todos os locais onde intervimos, por muitas dificuldades que tenham, há pontos de luz, e é a partir deles que nós mobilizamos as pessoas para a mudança. Normalmente quando as pessoas só veem o lado negativo não têm força para reagir, porque tornam-se quase externos ao problema, achando que alguém de fora vem resolver. Nós queremos dar visibilidade a muitas coisas que as pessoas têm de bom, e mostrar-lhes que isso as ajuda também elas próprias a fazer mudança.

Esta vai ser uma experiência piloto em Portugal. Se correr bem pode vir a replicar-se?

Estamos abertos a essa possibilidade, tanto a própria Companhia de Jesus tem interesse em perceber e em fazer a aprendizagem deste processo, na eventualidade de poder alargar para outras zonas onde está, mas também a própria diocese de Setúbal. Para nós vai ser também um processo de aprendizagem. Faz sentido uma missão deste género cá em Portugal? Em que moldes? Partindo do princípio que nós faremos uma avaliação positiva, havemos de equacionar um alargamento e uma disseminação para outras zonas de Portugal. Nós vemos muito sentido nisso, até pela experiência de África. Sabemos que a presença da Igreja em Portugal, nomeadamente as paróquias, na maior parte das situações ainda não são vistas como um ator de desenvolvimento do seu próprio território, mas o que temos visto lá fora é que há uma força que pode nascer de uma paróquia que se torna agente de desenvolvimento da sua comunidade, e por isso acreditamos que aqui, correndo bem, há muitas paróquias por onde poder fazer esse trabalho e fazê-las repensar o seu papel como agentes na transformação das comunidades.

África vai continuar a ser uma grande aposta vossa. Onde é que estão neste momento, e com quantos voluntários?

Temos 14 voluntários em três países, Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe, mas gostamos sempre de sublinhar que estes 14 voluntários são apenas pequeninas peças do puzzle, porque a partir do trabalho de cada voluntário há um conjunto de outros colaboradores, muitos voluntário locais e alguns remunerados, porque também procuramos que a nossa intervenção crie oportunidades de emprego para estas comunidades. Na verdade, no todo mobilizamos 500 colaboradores, entre contratados localmente e voluntários, que são a maior parte, não só os nossos voluntários missionários, que são enviados, mas depois toda a rede de voluntários locais que também são testemunho deste processo de mudança em que eles são atores. Aqui imaginamos que vá ser uma coisa do género.

Ao longo destes 31 anos quantos voluntários já participaram nas vossas missões?

Já foram mais 400, e para aí uns 40% desses acabaram por estar no terreno dois ou mais anos. É uma missão que não acaba. Eu própria também fui voluntária no terreno, há muitos anos atrás. Nós costumamos dizer que há um antes e um depois desse tempo de missão, no fundo aprendemos a viver em missão, e muitos continuam a ser elementos ativos na vida da organização. As nossas equipas de formação, as equipas de divulgação, de acolhimento, são todas constituídas por estes ex-voluntários que continuam de forma voluntária a colaborar, para que outros, todos os anos, possam partir também.

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