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“Estive preso e visitaste-me…”

09 nov, 2012 • Filipe d’Avillez

Há centenas de milhares de voluntários que se dedicam a ajudar os mais desprezados da sociedade, os reclusos. A Prison Fellowship é a organização que os representa mundialmente.  

Estiveram recentemente em Portugal dois dos representantes internacionais da Prison Fellowship International, uma organização cristã que congrega centenas de associações de voluntários que trabalham nas prisões, visitando e ajudando reclusos.

A sociedade muitas vezes não compreende porque é que, com tanta gente a precisar de ajuda, se hão-de preocupar com os criminosos, mas Timothy Khoo, da Singapura, e vice-presidente da PFI, explica que o trabalho que desenvolvem é do maior interesse para a sociedade.

“A vasta maioria dos reclusos vai acabar por sair em liberdade. Se não houver uma intervenção enquanto estiverem presos, que os leve a ver a vida de outra perspectiva, o que acontece muitas vezes é que eles entram com alguns conhecimentos criminosos e saem com conhecimentos novos. Se não houver intervenção vão sair de lá piores e isso deve preocupar a sociedade. Nesse sentido, o nosso trabalho é crítico”, afirma.

Para além do trabalho desenvolvido com os presos a organização também se preocupa com as famílias dos reclusos, sobretudo com os filhos, explica Dominique Alexandre, responsável pela Europa Ocidental: “As crianças são um alvo muito importante. Os peritos dizem que uma criança cujo pai ou mãe está detido tem cinco vezes maior probabilidade de ir preso um dia. Por isso trata-se de prevenção e é uma forma de evitar que estas crianças sejam estigmatizadas”.

Há muitas organizações a trabalhar com reclusos, mas a Prison Fellowship é cristã o que, segundo o vice-presidente, pode fazer toda a diferença: “A palavra-chave é transformação. A maioria dos programas procuram reabilitar e mudar as pessoas. Mas quando estamos a falar de uma subcultura totalmente diferente, a noção de reabilitação é gradual na melhor das hipóteses. Mas quando a pessoa tem um encontro com Deus, essa transformação, essa relação pessoal com Deus, é o estímulo necessário para mudar.”

Em Portugal a PFI é representada pela organização Confiar, liderada por José Sousa Mendes. A grande dificuldade, explica, é conseguir convencer as autoridades a apostar na reabilitação: “Não tem sido fácil influir numa mudança de mentalidade. Pensar que mesmo de um ponto de vista estritamente egoísta e económico do Estado, é evidente que se o sistema pudesse mudar teria grandes vantagens para o orçamento, ajudaria a preencher o défice, porque são despesas enormes sobre os quais não falamos porque estamos muito influenciados pela vertente da segurança.”

Um exemplo do Brasil
No seu percurso pelo voluntariado prisional, José Sousa Mendes foi até ao Brasil onde se fez detido durante uma semana numa prisão Associação de Protecção e Assistência aos Condenados: “Quem é que faz a gestão das prisões é um conselho de presos que se chama Conselho de Solidariedade e Sinceridade. Esta sinceridade é fundamental. As pessoas estão num ambiente em que os valores já são outros. São prisões pequenas, os da APAC, cento e tal reclusos, no máximo. Tanto lá pode estar um sujeito condenado por homicídio como outro que roubou uma coisita qualquer. O que interessa é que ele, à entrada, se responsabilize por cumprir os regulamentos da prisão, que é um regulamento muito humano mas muito exigente.”

Os números falam por si. Enquanto o grau de reincidência para prisioneiros é, em média, 80% ao longo de três anos, para os presos que passam pela APPAC não passa dos 12%.

Mas este tipo de iniciativa não pode depender só do Estado, defende José Sousa Mendes: “Há uma coisa que o Estado devia perceber desde logo. É que esta área é da responsabilidade da Sociedade Civil. Do Estado também, claro, mas o Estado está demasiado embrenhado na questão da segurança, e portanto, como tem poucos recursos, não sai dessa visão, nomeadamente agora numa altura de grande crise, não quer fazer ondas”, conclui.