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Igreja teme retaliação cristã na Nigéria

24 set, 2012 • Filipe d’Avillez

Padre Michael Umoh explica que a violência inter-religiosa e interétnica pode levar mesmo à divisão do país.  

Igreja teme retaliação cristã na Nigéria
A situação na Nigéria, onde ontem se registou mais um ataque a uma igreja cristã, matando uma mulher e uma criança, está a atingir limites muito perigosos e é um sinal externo de tensão tribal que ameaça a unidade do país.

A análise é do padre Michael Umoh, do departamento de comunicação da diocese de Lagos. Neste momento já existe uma guerra mas, para bem do país, uma das partes está a recusar deixar-se arrastar pela lógica da violência.

“Tem havido muito, muito poucos ataques de retaliação por parte dos cristãos. Mas a conferência episcopal já avisou o Governo que estamos a chegar a um ponto muito perigoso. Por mais que o Cristianismo pregue o amor, e os bispos continuem a encorajar os cristãos a abraçar o diálogo e a paz, de um ponto de vista humano eles começam a estar apreensivos e não sabem até que ponto conseguirão controlar os cristãos no futuro”, explica o sacerdote, em entrevista à Renascença.

Os ataques contra comunidades cristãs têm sido perpetrados pelo grupo armado islâmico Boko Haram, que actua sobretudo no Norte do País e que conta com apoio externo, garante o padre: “A julgar pelos estragos que causaram e os recursos que têm à disposição, podemos concluir que têm muito apoio interno e, certamente, do exterior também”.

Este é também um problema étnico, explica Michael Umoh, entre os hausas, de maioria islâmica, e os igbos, de maioria cristã, o que o torna ainda mais perigoso.

“A maioria dos cristãos atacados, mortos ou expulsos do Norte são igbos. Há um bom número de hausas no leste do país, a terra dos igbos, e no ocidente também há bastantes igbos. Poderemos assistir a um ataque concertado aos hausas, retaliatório em todo o oeste e leste do país se não agirmos a tempo. Se isso acontecer, e rezamos para que não aconteça, significa guerra. Aliás, já existe guerra, mas uma das partes tem-se recusado a deixá-la escalar”, explica.

A situação é tão grave que o padre Michael não descarta sequer a possibilidade de se dividir o país: “Essa é a questão fundamental. A única forma de explicar a violência do Boko Haram é uma relação geralmente má entre as tribos nigerianas. A Nigéria é um casamento de nações que não têm muito em comum. Na altura da formação do país dava para gerir, mas agora já não”.

Para fazer face a este problema tem havido apelos para uma revisão constitucional, que regule as relações entre as tribos e a divisão dos recursos: “A maioria dos recursos vêm do delta do Niger, e todos beneficiam, mas essa região quase não tem sido desenvolvida. A Nigéria só sobrevive se nos sentarmos e redefinirmos as coisas, porque actualmente é um barril de pólvora. Os únicos que não querem essa conversa são os que estão a beneficiar do projecto nigeriano, que é um mau projecto, uma má extensão do colonialismo”.

Tribalismo é um mal na igreja
Não é só de desafios externos que vive a Igreja na Nigéria. As divisões tribais também afectam os católicos, lamenta o padre Michael. O problema é sobretudo de conversão, acredita o sacerdote: “O tribalismo é um problema sério na vida nacional e da Igreja. É doloroso ver que há cristãos, mesmo em altas posições da igreja, que ainda precisam de ser convertidos. É um problema que deriva de falta de conversão. É um mal terrível”, considera o padre Michael.