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Christopher Hitchens

Morreu o “novo ateu” que criticou Madre Teresa

16 dez, 2011 • Filipe d'Avillez

Durante a sua carreira jornalística fez a cobertura do 25 de Abril, em Portugal.

Morreu o “novo ateu” que criticou Madre Teresa
Morreu ontem o polémico jornalista e autor Christopher Hitchens.

Nascido no Reino Unido, mas com cidadania norte-americana, Hitchens tornou-se especialmente conhecido nos últimos anos por associação ao movimento dos Novos Ateus de que era, juntamente com o também britânico Richard Dawkins, uma das figuras proeminentes.

Nesta matéria Hitchens escreveu o livro “Deus não é Grande”, no qual procurou denunciar os aspectos negativos das religiões organizadas. Alguns anos antes o autor já se tinha colocado claramente no campo da oposição à religião quando levou a cabo uma campanha contra a Madre Teresa de Calcutá, tendo chegado a dizer que “a mulher era uma fanática, fundamentalista e uma fraude e milhões de pessoas vivem pior por causa dela. É pena que não exista um inferno onde a vaca possa ir”. Chegou mesmo a testemunhar contra a futura santa no seu processo de beatificação, no Vaticano.

A facilidade com que Hitchens recorria à ofensa e a uma linguagem mais cáustica nas suas discussões e debates mereceu-lhe muitos críticos e inimigos. Contudo, reagiu com um misto de surpresa e gratidão cautelosa quando soube que muitos cristãos rezavam pela sua recuperação, e conversão, quando foi anunciado que tinha cancro do esófago, em 2010.

Os seus amigos e defensores, contudo, recordam um homem bem-disposto, divertido e de uma inteligência extraordinária com uma carreira jornalística de grande qualidade, tendo feito a cobertura de alguns dos incidentes mais importantes das últimas décadas.

A vida de Hitchens trouxe-o ainda a Portugal, enquanto jornalista, para cobrir os eventos pós-25 de Abril. Chegou como trotskista, mas aquilo que testemunhou fê-lo mudar de ideais. O caso República, quando a extrema-esquerda expulsou os socialistas moderados da redacção do jornal, foi o golpe final que o levou a abandonar as convicções políticas: “Havia muita gente que dizia que não era censura, eram só os trabalhadores a tomar conta do seu jornal. Mas para mim foi o teste: aquela gente só estava interessada na liberdade de imprensa se a pudesse controlar”, afirmou em entrevista ao "Diário de Notícias", em Maio de 2004.

Para evitar confusões declarou que qualquer notícia que pudesse eventualmente surgir sobre a sua conversão às portas da morte seria fruto de demência e não deveria ser levado a sério. O caso não se chegou a pôr, morreu de pneumonia, uma complicação do cancro, num hospício em Houston, tendo abdicado de tratamento médico.