Bispos pedem o fim da "idolatria do lucro"

13 dez, 2011 • Filipe d'Avillez

Nota da Conferência Episcopal enuncia a dignidade, bem comum, subsidiariedade e solidariedade como receita para lidar com a crise.

Os bispos portugueses publicaram hoje uma nota pastoral sobre a crise que o país atravessa, na qual apelam ao fim da “idolatria do lucro” e convidam a uma mudança de vida e de valores para melhorar a situação do país.

O Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) agradece ainda publicamente às instituições de solidariedade social pelo trabalho que desenvolvem de socorro aos mais necessitados e sublinha que “os cristãos são aliados naturais dos débeis e pobres e estão ao seu lado como seus defensores, amigos e servidores”.

Para melhor poder lidar com a actual crise, que, segundo os bispos, “sendo económica e social, não deixa de ser cultural e de convicções”, a CEP recomenda quatro princípios fundamentais, contidos na Doutrina Social da Igreja.

Dignidade, bem comum, subsidiariedade e solidariedade são, segundo os bispos, a receita para lidar com o actual estado do país.

A dignidade de cada pessoa é, lê-se na nota, “o princípio e também o fim duma sociedade propriamente dita” e é nela, tendo sobretudo em atenção os mais pobres e fracos, que se devem centrar todas as medidas e todas as políticas.

Em segundo lugar, acrescenta a CEP, deve estar sempre a avaliação daquilo que serve o bem comum. Para o determinar, devem-se colocar, antes da tomada de decisões, um conjunto de questões.

“Temos ou previsivelmente teremos maiores possibilidades de viver física e psiquicamente bem, de constituir e manter estavelmente as famílias e a renovação geracional, de acompanhar idosos e doentes, de proporcionar escolaridade e formação permanente, de desenvolver a economia, acrescentar o emprego e garantir a ecologia, de avançar cientifica e tecnologicamente, de alargar a cultura e o espírito?”

Se a actual conjuntura obriga a sacrifícios nalguns campos, noutros, como no caso do direito ao emprego, a CEP refere que é urgente agir, “mesmo exigindo mais criatividade e solidariedade prática para chegar a todos”.

Subsidiariedade e solidariedade
No que toca ao princípio da subsidiariedade, é indicado que os diferentes níveis da sociedade, desde o Estado aos indivíduos, passando pelas instituições de solidariedade e as famílias, tem um papel a desenvolver e não devem fazer nem mais nem menos do que aquilo que lhes compete.

“Não há mobilização democrática sem pedagogia subsidiária; não há dinamização social sem respeito e estímulo pelo que cada corpo social intermédio pode e deve fazer. Destaque-se em particular, pelas provas já dadas na presente conjuntura, a importância dos apoios familiares e das instituições particulares de solidariedade social, tão esclarecedoras do que uma sociedade pode resolver dinamicamente e tanto mais quanto for respeitado e reforçado o princípio da subsidiariedade, do topo em relação às bases do edifício social”, escrevem os bispos.

Por fim, a CEP enuncia a solidariedade como factor essencial para ultrapassar as dificuldades sociais. “O que alguns detêm em vez dos outros é o que precisamente têm para os outros, pois toda a propriedade tem dimensão social. Nada obtemos inteiramente sós, de nada fruímos legitimamente sós.”

Os bispos terminam a nota com uma série de pedidos e de recomendações, entre os quais agradecem às instituições que trabalham no terreno e apelam à conversão da “idolatria do lucro, ostentação e despesismo, em estilos de vida sóbria, em que a partilha seja regra de vida e não uma excepção reservado a generosos”.

Com esta nota pastoral, a CEP quer que os portugueses reflictam sobre o momento presente e mudem de comportamento, disse no final da reunião o porta-voz, Padre Manuel Morujão.

Para ajudar, a Conferência Episcopal elenca os princípios da Doutrina Social da Igreja, que devem pautar a política e as atitudes de cada cidadão, como a diginidade do ser humano e a solidariedade, refere o Padre Manuel Morujão.

O porta-voz da CEP salienta que é fundamental a colaboração de todos, também na criação de emprego, nomeadamente através da iniciativa privada.  

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