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Papa diz a presos: "Diante de vós está um homem perdoado"

10 jul, 2015 • Aura Miguel, na Bolívia, e Filipe d'Avillez

Francisco encorajou os detidos a darem a volta à sua vida, mas também recordou aos guardas e dirigentes que a sua missão é de "dignificar e não humilhar, de animar e não acabrunhar". 

Papa diz a presos: "Diante de vós está um homem perdoado"
Papa diz a presos: "Diante de vós está um homem perdoado"
O Papa Francisco esteve esta sexta-feira num centro reeducativo na Bolívia, dentro da maior prisão do país. Francisco, que antes de começar a discursar andou pelo meio dos reclusos a cumprimentá-los, disse que não podia deixar a Bolívia sem os ir ver e apresentou-se como "um homem perdoado".
O Papa Francisco esteve esta sexta-feira num centro reeducativo na Bolívia, onde se encontrou com reclusos.

Francisco, que antes de começar a discursar andou pelo meio dos reclusos a cumprimentá-los, disse que não podia deixar a Bolívia sem os ir ver e apresentou-se como "um homem perdoado".

"Quem está diante de vós? Gostaria de responder-lhes à pergunta com uma certeza da minha vida, com uma certeza que me marcou para sempre. Aquele que está diante de vós é um homem perdoado. Um homem que foi e está salvo de seus muitos pecados. E é assim como me apresento."

"Não tenho muito mais para lhes dar ou oferecer, mas o que tenho e amo quero dar-vo-lo, quero partilhá-lo: Jesus Cristo, a misericórdia do Pai", disse o Papa.

Os detidos ouviram ainda Francisco dizer-lhes que este Jesus, que lhe mudou a vida, "veio para nos mostrar, fazer visível o amor que Deus tem por nós. Por vós, por mim. Um amor activo, real. Um amor que levou a sério a realidade dos seus. Um amor que cura, perdoa, levanta, cuida. Um amor que se aproxima e devolve a dignidade. Uma dignidade, que podemos perder de muitas maneiras e formas. Mas, nisto, Jesus é um obstinado: deu a sua vida por isto, para nos devolver a identidade perdida."

A visita do Papa ao Centro de Reeducação Santa Cruz-Palmasola, que tem mais de cinco mil reclusos, foi marcada por fortes medidas de segurança. Os jornalistas e o séquito que o acompanhou tiveram de passar por várias barreiras e qualquer utilização de meios de comunicação estava vedada no interior do edifício.

"Reclusão não é o mesmo que exclusão"
Francisco, que tem falado várias vezes contra a ideia da exclusão, teve o cuidado de sublinhar que a situação destes detidos é diferente, sem esconder a existência de dificuldades. "Reclusão não é o mesmo que exclusão, porque a reclusão faz parte dum processo de reinserção na sociedade. Há muitos elementos – bem o sei – que jogam contra este lugar: a superlotação, a morosidade da justiça, a falta de terapias ocupacionais e de políticas de reabilitação, a violência. Tudo isso torna necessário uma pronta e eficaz aliança interinstitucional para se encontrar respostas."

Francisco encorajou os reclusos a resistir a tentações de conflitos. "O sofrimento e a privação podem tornar o nosso coração egoísta e levar a confrontos, mas também temos a capacidade de os transformar em ocasião de autêntica fraternidade. Ajudai-vos mutuamente. Não tenhais medo de vos ajudar entre vós. O diabo procura a rivalidade, a divisão, os bandos. Não entrem no seu jogo, lutem para seguirem em frente, unidos.”

Por fim, Francisco dirigiu ainda uma palavra aos dirigentes e funcionários do centro de reclusão, lembrando-lhes da importância da sua missão. "Desempenham uma tarefa importante neste processo de reinserção; tarefa de levantar e não rebaixar, de dignificar e não humilhar, de animar e não acabrunhar. É um processo que requer deixar a lógica de bons e maus para passar a uma lógica centrada na ajuda à pessoa. Gerará melhores condições para todos, porque um processo assim vivido dignifica-nos, anima-nos e levanta-nos a todos."

Antes de finalizar o seu encontro, o Papa solicitou um momento de oração em silêncio, convidando cada um a rezar à sua maneira e despediu-se, recordando que "também eu tenho os meus erros e devo fazer penitência".

Antes do seu discurso, o Papa tinha já ouvido o testemunho de três reclusos, incluindo uma mulher, que falaram abertamente do seu passado e dos seus crimes mas também pediram a Francisco que intercedesse por eles junto das autoridades para melhorar as condições de encarceramento.

Francisco encontra-se na Bolívia como parte da sua viagem de dez dias à América Latina. A visita começou no Equador e termina no Paraguai, para onde Francisco parte ainda esta sexta-feira à tarde, depois de um encontro privado com os bispos bolivianos.

A Renascença V+ transmite em directo os principais momentos da visita do Papa à América Latina, até domingo. Veja em detalhe o programa das transmissões