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Estrangeiros combatem Estado Islâmico. Surfista deixa mar e pega em armas

16 jan, 2015 • Carla Caixinha, com agência Reuters

Por que o fazem e quem são? Preocupados com a forma como os meios de comunicação os vão retratar, esclarecem que são voluntários, não mercenários. Queriam "fazer algo bom", lutar por "razões humanitárias", "ajudar pessoas inocentes".

Estrangeiros combatem Estado Islâmico. Surfista deixa mar e pega em armas
Não existem números precisos sobre quantos "combatentes da liberdade" existem, mas cerca de uma dúzia de ocidentais uniram-se aos combatentes curdos que lutam contra o Estado Islâmico no norte da Síria, incluindo americanos, canadianos, alemães e britânicos.

O norte-americano Dean Parker, de 49 anos, juntou-se à luta depois de ver os vídeos relativos a Sinjar, no noroeste do Iraque em Agosto, quando militantes do Estado Islâmico mataram ou capturaram milhares de yazidis, uma minoria étnica e religiosa.

"Eu vi o medo e terror nos olhos de uma criança que estava a olhar-me directamente através da câmara. Nunca senti nada assim na minha vida", disse por e-mail à Reuters. Este homem largou uma vida idílica a dar aulas de surf, na Costa Rica, para se juntar aos curdos e combater o Estado Islâmico.

Ao atravessar ilegalmente a fronteira do Iraque para a Síria, o canadiano Peter Douglas estava convicto de que na base desta incursão estavam razões humanitárias: ajudar o povo sírio. Faz parte de número crescente de estrangeiros que escapa ao controlo das autoridades para se juntar à luta contra os militantes do Estado Islâmico que mataram milhares de pessoas e conquistaram vastas partes do Iraque e da Síria, declarando um califado no território.

Muitos destes combatentes dizem estar lá por razões humanitárias, mas temem que a sua decisão de pegar em armas para lutar pelo povo sírio seja vista de outra forma por alguns.

"Quero lutar contra o Estado islâmico, embora possa ser a última coisa que faço", disse Douglas, de 66 anos, à Reuters a partir de Vancouver, quando se preparava para embarcar num barco. "Sei que tenho dez anos de vida antes de começar a desenvolver demência ou ter um derrame, por isso queria fazer algo bom", acrescenta. Reconhece que pegar em armas era algo novo na lista de empregos e ocupações que tinha tido.

Até agora, cerca de uma dúzia de ocidentais uniram-se aos combatentes curdos que lutam contra o Estado Islâmico no norte da Síria, incluindo americanos, canadianos, alemães, britânicos e holandeses.

A facção armada curda-síria conhecida como YPG não divulga números sobre quantos "combatentes da liberdade" existem e os especialistas dizem ser difícil chegar a um número concreto. Mas qualquer estimativa esbate-se em comparação com uma estimativa de 16 mil combatentes de cerca de 90 países que se juntaram às fileiras do Estado Islâmico desde 2012, de acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos.

As Nações Unidas alertaram para o facto de grupos extremistas na Síria e no Iraque estarem a recrutar estrangeiros numa "escala sem precedentes", o que poderia "formar o núcleo de uma nova diáspora", transformando-se numa ameaça para os próximos anos.

Lutar por uma causa?
Os governos ocidentais estão a monitorizar os combatentes estrangeiros, mas as autoridades policiais estão a agir de forma diferente em relação aqueles que se juntam ao Estado islâmico ou se ligam à resistência curda.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, deixou claro que há uma diferença fundamental. A lei estipula que lutar numa guerra externa não é automaticamente um crime e depende das circunstâncias.

Dois veteranos militares britânicos, Jamie Leia e James Hughes, regressaram a Inglaterra no mês passado depois de vários meses com o YPG, dizendo que estiveram a lutar por "razões humanitárias", e não foram alvo de qualquer acção judicial. Aderiram à facção armada curda-síria depois de ficaram indignados por uma série de vídeos chocantes que mostravam os assassinatos de dois jornalistas norte-americanos e de três trabalhadores humanitários (um americano e dois britânicos) e o sofrimento de milhões de sírios presos entre Estado islâmico e as forças do Governo. 

O Observatório Sírio dos Direitos Humanos, com sede em Londres, estima que em seis meses o grupo sunita radical já matou cerca de 1.878 pessoas na Síria fora do campo de batalha, a maioria civis.

"Nós fomos lá para ajudar pessoas inocentes e para documentar a luta do YPG contra o Estado Islâmico", disse Hughes à Reuters. O homem de 26 anos beneficiava de experiência militar, tendo passado cinco anos no exército britânico.

"Tivemos uma recepção calorosa ao voltar a casa. Todos nos viram como heróis. Estavam orgulhosos. Também recebi centenas de mensagens de pessoas que querem aderir ao YPG", disse o antigo soldado, acrescentando que planeia voltar à Síria nos próximos meses.

Mas muitos combatentes estrangeiros do YPG estão preocupados com as repercussões legais quando voltarem para casa e assim procuram ficar no anonimato. "Podemos ter problemas com os nossos governos", diz um veterano norte-americano que se assegurou que todos os seus assuntos financeiros e jurídicos estavam em ordem antes de ir para Rojava, a área controlada pelo YPG na Síria. 

Voluntários, não mercenários
Estão preocupados com a forma como os meios de comunicação os vão retratar em casa e aproveitam para esclarecer que são voluntários, não mercenários. Dizem que não são pagos, mas estão lá por acreditarem na causa.

Muitos têm alguma experiência militar e inscreveram-se para lutar através de contactos no Facebook.

Lorenzo Vidino, analista do Instituto para os Estudos de Política Internacional na Itália, diz que os combatentes estrangeiros podem argumentar que estão juntar-se à batalha contra o Estado Islâmico para o bem, mas acrescenta que os curdos têm sido menos eficazes no rectutamento. "Os ocidentais que aderiram ao YPG são um fenómeno muito pequeno, especialmente se comparado ao Estado Islâmico. A máquina de recrutamento dos jihadistas funciona melhor e a melhor prova disto são os números", diz, em declarações à Reuters.

A israelita-canadiana Gill Rosenberg, de 31 anos, disse numa entrevista à Rádio Israel que ela decidiu se juntar ao YPG por razões humanitárias e ideológicas. Mas nem todos os combatentes estrangeiros são motivados pela mesma causa. Jordan Matson, de 28 anos, um veterano americano do exército de Winconsin, que se juntou ao YPG há cerca de quatro meses, diz que o fez porque estava a fugir de uma vida "civil", algo que não aprecia.

"Aqui, tudo faz sentido", desabafou à Reuters a partir de uma base YPG perto de Derik, uma cidade no nordeste da região curda da Síria.

Filhos pródigos
Se muitos dos combatentes estrangeiros não têm qualquer ligação aos curdos e membros de outros grupos religiosos ou étnicos que foram defender, há também casos de cidadãos de países ocidentais que descendem desses povos e sentem por isso outra obrigação. É o caso dos motards do grupo "Median Empire", que são quase todos filhos de curdos, nascidos na Alemanha.

Recentemente uma rádio sueca entrevistou Daniel, filho de imigrantes assírios, a minoria cristã oriunda da zona da Planície de Nínive, no Iraque, que tem sido duramente perseguida pelos jihadistas do Estado Islâmico. Daniel é um de muitos que regressou à terra dos seus pais, abandonando uma vida confortável na Suécia, por sentir que tinha a obrigação de defender o seu povo.