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"Quem espera que o Papa mude a doutrina ficará desiludido"

13 mar, 2014 • Filipe d'Avillez

Gestos do Papa Francisco "dizem respeito a toda a gente" e não apenas aos católicos, afirma o escritor Pedro Mexia.

"Quem espera que o Papa mude a doutrina ficará desiludido"
"Quem espera que o Papa mude a doutrina ficará desiludido"
Em entrevista à Renascença, Pedro Mexia - poeta, crítico e católico - salienta que o Papa Francisco consegue atrair as atenções de muitos não crentes, não porque tenha uma atitude "inédita" na Igreja, mas pela sua "capacidade humana que os seus antecessores não tinham". O poeta espera que Francisco mude na Igreja o que pode ser mudado - a reforma da Cúria, a questão dos abusos e do acolhimento a quem sofre -, mas avisa os que esperam o "impossível": "esses, fatalmente, irão ficar desiludidos".

O escritor e crítico literário Pedro Mexia confessa que o Papa Francisco, eleito há um ano, o tem "impressionado bastante". "O Papa tem ganho um capital de simpatia que os Papas anteriores não tinham", diz. 

Que balanço faz deste ano de pontificado?
O balanço de uma grande expectativa e esperança que ele tem causado, não só no mundo católico, o que seria mais evidente, mas no mundo em geral. Há uma genuína boa vontade – um conceito muito importante para um cristão – por parte de pessoas que quando apareciam os papas anteriores mudavam de canal e agora põem mais alto. Agora, em termos do fenómeno, que não é apenas mediático, mas é eclesial, ecuménico e transversal, tem-me impressionado bastante.

Mexe-se no meio cultural, onde muitas pessoas são habitualmente indiferentes, ou mesmo hostis, ao Papa e à religião. Como tem sido a reacção desse sector?
Tenho visto pessoas em quem o Papa tem ganho um capital de simpatia que os Papas anteriores não tinham – João Paulo II porque era visto como uma figura política, muito ligada à queda do Bloco de Leste e Bento XVI porque era visto como um guardião da ortodoxia. Em relação a este Papa, as suas palavras veementes, embora antigas em termos da doutrina social da Igreja, sobre a exclusão social, a injustiça social, o drama dos imigrantes e daquelas pessoas que morrem a tentar chegar à Europa, esses gestos dizem respeito a toda a gente, enquanto uma discussão meramente religiosa vai sempre alienar os menos crentes, porque consideram que isso não lhes diz respeito. 

Este Papa tem uma política de proximidade nos temas, na abordagem. A questão de ele tocar, de telefonar às pessoas… São pequenos gestos, alguns com uma dimensão simbólica, mas não devemos subvalorizar o símbolo nestas matérias.

Qual foi, para si, o momento do pontificado?
A visita a Lampedusa foi muito importante. É uma situação que diz respeito a países do terceiro mundo e que diz respeito ao que é a Europa, o que são as fronteiras, qual é o conceito humanitário que temos: como vemos pessoas aos magotes a morrer numa travessia precária e mudamos de canal.  

Era uma coisa óbvia, não era um assunto novo, toda a gente conhecia aquela situação. O facto de o Papa ter uma autoridade moral própria para chamar aquilo para o centro da discussão pública foi muito importante. Este Papa tem este capital de ser um pastor terra-a-terra, tem essa experiência da paróquia. O facto de vir do hemisfério sul, onde há muita pobreza, dá-lhe uma sensibilidade especial para essa matéria.  

Daqui a um ou dois anos, o Papa continuará a ter estes índices de popularidade entre os "media"?
Todas as pessoas sobre as quais se gera uma esperança desmesurada tendem a desiludir. Para quem espera que o Papa faça coisas que um Papa nunca pode fazer, que renegue o que nunca pode renegar, vai ficar decepcionado. Quem espera que ele vai mudar doutrinas inalteráveis vai ficar desiludido. Mas é mais grave os que possam ficar desiludidos, e espero que isso não aconteça, se ele não vier a mudar aquilo que ele pode realmente mudar: [fazer] a reforma da Cúria, a questão dos abusos, o acolhimento a quem sofre. Muitas destas coisas a Igreja já faz, já denunciou ou combateu, mas há trabalho a fazer. E o Papa tem dado alguns sinais.