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Livro coloca BCP na origem do resgate ao país

29 mai, 2014 • Sandra Afonso

“Jogos de Poder” desmonta os negócios de bastidores na banca que antecederam o pedido de resgate e que explica como foi criada a dívida que trouxe a "troika" a Portugal.

Livro coloca BCP na origem do resgate ao país
Livro coloca BCP na origem do resgate ao país

BPN e BPP concentraram, Nos últimos anoS,todas as atenções, mas foi o BCP que determinou as decisões políticas que conduziram o país até ao resgate internacional.

A tese está exposta no livro “Jogos de Poder”, do jornalista paulo Pena, que explica como a banca acumulou lucros alimentados pelo endividamento das famílias e do país, à sombra do imobiliário e dos negócios garantidos pelo Estado. O desfecho da história é conhecido: três anos de austeridade e a maior crise que o país já viveu.

“A versão que nos venderam é que andámos a viver acima das nossas possibilidades”, defende o autor, para quem a “crise é muito mais complexa e resulta, sobretudo, do evidente resgate à banca do centro da Europa.”

Os bancos portugueses tinham pedido muito dinheiro emprestado aos congéneres alemães e franceses e os investidores internacionais estavam atentos às contas públicas para saberem se o Estado “tinha condições para acomodar a banca, caso viesse a falir”.

Não foi apenas o BPN ou o BPP. Todos os bancos contribuíram, segundo Paulo Pena, mas há um que se destaca: o BCP. O maior banco privado vivia a sua própria crise quando surge o “subprime” e o “crash” de Wall Street, em 2008. Na administração do BCP, assistia-se a uma dança de cadeiras, entre Jardim Gonçalves, Paulo Teixeira Pinto e Filipe Pinhal.

Paulo Pena lembra que “o BCP representava 10% do PIB português, era e é o maior banco, para todos os efeitos, e aquele que mais pânico causava no poder, muita gente ligada ao Governo e ao Banco de Portugal na altura disse-me que a principal preocupação era sempre o BCP”. O autor acrescenta ainda que “o BPN era uma ‘banqueta’, segundo descreve um banqueiro no livro”.

Além dos jogos de bastidores na banca e nas maiores empresas portuguesas, ao estilo de Hollywood, Pena descreve como passaram incólumes pelos pingos da chuva a maioria dos responsáveis pela situação da banca.

Falar dos negócios da banca nos últimos anos passa também por descrever as parcerias público-privadas (PPP), onde o Estado surge como presa fácil, porque “no sector financeiro estão os grandes cérebros, os grandes especialistas em finanças e direito, que trabalham com os maiores escritórios de advogados”. Por outro lado, “tudo passava por um jogo muito confuso e pouco transparente”, com as famílias no limite do endividamento “o Estado era o cliente seguinte, se o Governo não podia fazer um hospital por constrangimentos orçamentais ditados por Bruxelas, recorria a PPP”.

Os contractos especulativos “swap” são outro instrumento usado pela banca. Apesar de serem considerados lícitos aos olhos da lei, Paulo Pena lembra que há contratos “swap” com características difíceis de entender. “Um dos três ‘swap’ assinados pela ministra das Finanças [Maria Luís Albuquerque] quando estava na Refer era uma espécie de lotaria em que se a coroa sueca se desvalorizasse a empresa passava a pagar mais ao banco”. “Há instrumentos financeiros anexados ao clima no Alasca”, condições absurdas que, segundo o autor do livro “Jogos de Poder”, o público tem o direito de conhecer.