Autoridades portuguesas já contactaram o TikTok. Os números da rede social

Desconhece-se o porquê destes contactos. A nível mundial, o TikTok removeu mais de 100 milhões de vídeos no primeiro trimestre do ano.

12 set, 2022 - 06:50 • Daniela Espírito Santo



 

Esta é a terceira de cinco partes do especial "Nos bastidores do TikTok. O trabalho traumático dos moderadores". Clique para ver todos os artigos.


As autoridades portuguesas contactaram o TikTok nos últimos meses com pedidos de informação, adianta a empresa. Desconhece-se o porquê destes contactos.

Segundo o TikTok, Portugal terá entrado em contacto com aquela rede social pelo menos em dois períodos diferentes: entre julho e dezembro do ano passado e nos primeiros seis meses de 2020. Neste último, foram feitos três pedidos de informação relativos a duas contas. Não receberam resposta: a “percentagem de solicitações em que a informação foi produzida” foi de 0%.

Já no segundo semestre do ano passado as autoridades portuguesas contactaram o TikTok quatro vezes, três vezes com questões legais, uma com caráter de emergência. Em causa, dados referentes a cinco contas. Receberam informações sobre um dos casos.

Não se sabe os motivos que levaram as autoridades portuguesas a entrar em contacto com a empresa chinesa. A Renascença contactou a Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica (UNC3T), mas não obteve resposta em tempo útil. Já a Procuradoria-Geral da República explicou à Renascença que “mesmo as denúncias que chegam diretamente ao Gabinete Cibercrime” da PGR “são sempre encaminhadas para os competentes departamentos do Ministério Público” e é "no âmbito das concretas investigações que se realizam diligências, como os pedidos de informação”.

No entanto, a PGR não consegue identificar a que processos dizem respeito os pedidos de informação. "A identificação desses inquéritos e do local onde correm termos encontra-se prejudicada, uma vez que, sendo os inquéritos registados por tipo de crime, o sistema informático não permite pesquisas que tenham como critérios as entidades às quais foi solicitada informação", explica a PGR.


Gráficos TikTok Portugal Autoria: Rodrigo Machado/RR
Gráficos TikTok Portugal Autoria: Rodrigo Machado/RR

Piores casos são encaminhados para as autoridades nacionais

A rede social também entra em contacto com as autoridades nacionais dos países em que opera. O alerta é dado pelos moderadores sempre que encontram conteúdos que possam constituir crime. Para além de serem retirados da rede, os conteúdos eliminados são também alvo de uma avaliação interna. Segundo o moderador de conteúdos que a Renascença entrevistou, os vídeos reportados são "encaminhados internamente”, até para perceber se foram mesmo filmados em Portugal ou se são uma “importação”.

A data em que foram captados também é fundamental para saber como agir: “o vídeo pode estar agora na plataforma, mas já ter cinco ou seis anos”.

Depois de percebidos estes dois elementos, é acionada uma “equipa de emergência”, especializada neste tipo de casos, que “contacta as autoridades”. Manuel garante que, apesar de ver muito conteúdo chocante, não teve de acionar a equipa de emergência muitas vezes: em dois anos, fê-lo “talvez umas 15 vezes”.

“Obviamente que o ótimo era serem zero, mas não foram muitas porque a maior parte do conteúdo que apanhamos não é feito em Portugal”.


Número de vídeos removidos aumenta em 2022

O número de vídeos removidos pelo TikTok nos primeiros meses de 2022 ultrapassou os cem milhões. Os dados do mais recente “Relatório de aplicação das diretrizes da comunidade”, disponibilizado pela rede social em junho, mostram que a plataforma passou de 62 milhões de vídeos apagados no primeiro trimestre de 2021 para 102 milhões nos primeiros três meses deste ano.

A rede social está cada vez mais a usar a automação para eliminar conteúdo que viola as suas regras, mas a grande maioria dos vídeos removidos são-no por mão humana: dos 102 milhões eliminados no primeiro trimestre do ano, cerca de 67 milhões não foram removidos automaticamente, representando 65% do total.


A percentagem de vídeos removidos por moderadores de conteúdos representa a maioria, mas os números estão a decrescer: entre janeiro e março de 2021 apenas 14% dos vídeos removidos o foram por automatismos, enquanto que, neste primeiro trimestre do ano, as “máquinas” já trataram de remover da plataforma 33% do “bolo” total de vídeos eliminados.

Desconhecem-se os números totais do TikTok, mas a rede assegura que os vídeos removidos representam um total de 1% dos vídeos publicados na rede social naquele trimestre.

Controlo cada vez mais apertado

Em relação ao conteúdo propriamente dito, o Tiktok garante ter melhorado os seus resultados no que diz respeito à remoção de conteúdo nefasto antes deste receber um único clique.


"Segurança de menores" é a categoria em que que o TikTok mostra ser mais célere a filtrar conteúdo, seguida de "atividades ilegais e bens regulamentados" e "conteúdo violento e gráfico".


De janeiro a março de 2022, 41,7% dos vídeos removidos foram-no para garantir “segurança de menores”, 21,8% devido a atividades ilegais, 11,3% por causa de nudez (de adultos) e atividades sexuais e 9,6% por incluir conteúdo “gráfico e violento”. 6% dos vídeos eliminados continham episódios de assédio ou bullying, 6,7% incluiam “atos perigosos, suicídio e auto-mutilação. Os restantes vídeos continham conteúdo de ódio (1,6%), “extremismo violento” (0,7%) e vídeos que apresentavam problemas com “integridade e autenticidade” (0,6%).



Milhões de contas suspensas pertencem a menores

O número de contas eliminadas aumentou exponencialmente nos últimos tempos, mas um denominador permaneceu constante até 2021: a maioria das contas que o Tiktok suspendia eram suspeitas de pertencerem a crianças com menos de 13 anos - só entre outubro de dezembro de 2021 o TikTok baniu mais de 15 milhões de contas assim. No primeiro trimestre de 2022 o número superou os 20 milhões e, pela primeira vez, foi ultrapassado pelo número de contas falsas eliminadas, embora a diferença seja pouca.


Números do TikTok em Portugal

Por cá, não temos números oficiais do TikTok há algum tempo. Contactamos a responsável pela comunicação da plataforma para o mercado português, italiano e grego, Adela Leka, que não nos facultou números atualizados.

Socorremo-nos, então, dos números que foram fornecidos em 2020 numa conferência onde esteve presente a empresa que geria, na altura, a publicidade da plataforma no nosso país. Nesse ano, a rede social tinha 1,8 milhões de utilizadores em Portugal. Em maio de 2019 tinha apenas 800 mil - o boom aconteceu durante a pandemia.

Na altura, foi assegurado que os portugueses passavam, em média, 50 minutos na rede social e abriam a aplicação sete vezes por dia. Era utilizada maioritariamente por mulheres (65%) e a faixa etária entre os 19 e os 24 anos representava 36% dos utilizadores, seguida de perto pela faixa etária dos 14 aos 18 - 32%.

Segundo o jornal ECO, um ano depois, em 2021, a rede já tinha acrescentado mais um milhão de pessoas, fixando-se o total em 2,8 milhões de utilizadores.


Nos bastidores do TikTok. O trabalho traumático dos moderadores

São a parte escondida do trabalho em redes sociais e estão expostos diariamente ao "pior da Humanidade". Conversamos com um moderador de conteúdos do TikTok, sob anonimato. Um testemunho raro de quem arrisca a saúde mental para garantir que o pior da Internet fica de fora dos nossos ecrãs Nota: alguns dos relatos podem chocar os mais sensíveis


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