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Substituíveis, precários, maltratados. Greve dos guionistas em Portugal seria “muito difícil”

13 jun, 2023 - 06:30 • Maria Costa Lopes

Mercado de menor dimensão e ausência de leis laborais separam os argumentistas portugueses dos americanos, mas há um problema em comum: a “precariedade no trabalho”.

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Joana Marques é uma mulher de muitos ofícios: humorista, radialista, autora e, claro, guionista. A voz do "Extremamente Desagradável", na Renascença, já não se dedica exclusivamente à atividade de argumentista “há alguns anos”, mas ainda se recorda o tempo em que vivia “de projeto a projeto”.

Numa altura em que os guionistas estão em greve nos Estados Unidos, a Renascença foi ouvir argumentistas portugueses para perceber como é a realidade do setor no nosso país.

Joana Marques considera-se “sortuda” por ter trabalhado como guionista nas Produções Fictícias - um coletivo de argumentistas de humor, responsável por programas como “Os Contemporâneos” e “Gato Fedorento”.

“Acabava por ter mais força por ser uma empresa e uma marca muito conhecida na altura”, explica.

Anos mais tarde, Joana criou e apresentou o programa "Altos e Baixos", no Canal Q, o canal por cabo das Produções Fictícias, juntamente com Daniel Leitão, e notou “uma grande diferença”.

“O valor é sempre muito mais inflacionado para quem diz o texto do que para quem escreve o texto”, continua.

A humorista portuguesa considera que a profissão de guionista em Portugal não é tão valorizada como nos Estados Unidos. "Os argumentistas americanos têm bastante mais poder”, diz.

Susana Romana também começou como autora associada das Produções Fictícias, em 2005. A guionista disse que “seria ótimo” poder haver uma greve dos guionistas em Portugal, como a que está a acontecer nos Estados Unidos, mas considera que a forma como o meio português está estruturado tonaria isso “muito difícil”, uma vez que colocaria em causa “a sobrevivência dos próprios guionistas”.

"Somos muito encarados como substituíveis”, diz Susana.

A guionista do programa "5 para a Meia-Noite" explica à Renascença que não consegue viver somente da profissão de guionista. “Não há segurança nenhuma”, diz. "Grande parte dos artistas em Portugal trabalha com muitas coisas ao mesmo tempo”, acrescenta.

“Sinto que a profissão é cada vez mais desvalorizada”, desabafa Romana, sublinhando que há canais a pagar hoje o mesmo que pagavam há dez anos.

A fundadora do Canal Q recorda a sua experiência anterior a trabalhar para num pequeno canal de cabo ligado ao desporto. “Disseram-me que, afinal, não precisavam de uma guionista, mas de uma produtora com ideias”, diz.

“Há muita gente que não sabe para que serve um guionista. Somos muito encarados como substituíveis.”

Por esse motivo, Susana juntou-se à Associação Portuguesa dos Argumentistas e Dramaturgos (APAD). Para a guionista, neste momento, está cada um por si e é preciso começar a juntar esforços para mudar isso.

“Vai ser um caminho tortuoso, não tenho ilusões de achar que isto muda de um dia para o outro”, remata.

Argumentistas "com a corda na garganta”

Artur Ribeiro, diretor da Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos (APAD), diz que o sistema português não permitiria que houvesse greve, porque os guionistas não estão organizados num sindicato como o Writers Guild of America. “Não é um direito protegido por lei”, esclarece.

Artur Ribeiro explica que o sistema que vigora em Portugal é “completamente diferente” do que o que se verifica nos EUA em matéria de direitos. Nos Estados Unidos, os direitos de autor ficam “propriedade dos produtores dos canais” e os argumentistas são “funcionários”, ou seja, regem-se por leis do trabalho.

Já em Portugal, os contratos são de “cedência de direitos de autor”, com os produtores a ficarem autorizados a comercializar, produzir e distribuir o conteúdo.

Isto significa que, na maioria dos casos, o trabalho dos guionistas portugueses é feito por projeto. Portanto, uma grave “apenas atrasa o trabalho” e deixa os guionistas em “incumprimento de contrato”.

A “pequena escala” e “falta de estrutura” do mercado português ainda não lhes permite criar um sindicato, explica Ribeiro. Neste momento, a associação sem fins lucrativos serve de “interlocutor dos argumentistas” em discussões com os produtores dos canais.

"Somos muito maltratados", diz Artur Ribeiro.

A APAD já propôs “uma espécie de tabelas mínimas de remuneração”, que acabaram por não avançar por não haver acordo entre todos os intervenientes, mas, para Artur, essa conversa “já ajudou a estabelecer uma relação mental entre todos para um determinado valor por guião”.

“Um argumentista devia receber no mínimo dois a três por cento do orçamento de um filme ou de uma série” defende o dirigente da APAD, considerando "inaceitável que ainda haja projetos em que o orçamento destinado para o guião chega a ser 1%”.

"Somos muito maltratados nesse sentido, sobretudo no cinema", diz o argumentista, realizador e, às vezes, produtor.

Inês Gomes, coautora de "Glória", a primeira série portuguesa na Netflix, diz que as negociações “nunca são muito vantajosas para quem escreve e realiza”.

A argumentista da SP Televisão considera-se “sortuda” por ser “uma das poucas argumentistas em Portugal com contrato há bastantes anos”. Mas sabe que "a insegurança é muita” e que a maioria dos seus colegas não consegue viver apenas de escrever argumentos.

“Vivem com a corda na garganta”, diz Inês. "A indústria está a crescer, mas as dificuldades dos argumentistas também”, remata.

A “grande semelhança” com os Estados Unidos

“Substituíveis”, “precários”, “maltratados”, são algumas das palavras usadas poor Inês, Artur e Susana para descrever a condição dos argumentistas em Portugal. Mas não é só em Portugal que estas palavras se fazem ouvir.

Do outro lado do Atlântico, os guionistas estão em greve há mais de um mês por melhores condições de trabalho, mais estabilidade e ordenados que garantam a sobrevivência numa indústria em ascensão.

“É um problema estrutural” e a “precariedade acontece nos dois lados”, explica Artur Ribeiro.

“Um argumentista pode escrever um filme num ano e até ser muito bem pago, mas nada garante que vai ter trabalho nos anos seguintes”, diz, com tristeza.

Artur Ribeiro estranha ver colegas seus nos EUA que escrevem para séries de grandes estúdios "a terem os mesmos problemas que nós”.

“A greve dos [guionistas] americanos está a ajudar, a nível mundial, a dar uma perceção da importância do trabalho”, aponta o diretor da APAD.

"Streamming" impõe novas regras

Ed McCarthy, argumentista nos EUA há mais de dez anos, também refere alguns dos problemas mencionados pelos argumentistas portugueses, como o dos salários baixos.

“Está a ser pedido aos argumentistas que trabalhem o mesmo por uma compensação menor”, diz, explicando que a ascensão do streamming trouxe novas regras de produção que dificultam o trabalho dos guionistas.

“O tempo de produção de uma série está mais longo”, mas as equipas e temporadas estão mais pequenas, o que obriga os guionistas a “saltar de trabalho em trabalho”, impedido a progressão na carreira.

“Para fazer uma série de 15 episódios, trabalho durante 15 semanas, e, depois, pode demorar um ano e meio até ser chamado novamente para escrever”, explica Ed McCarthy à Renascença.

“Durante esse tempo, tive de encontrar outro trabalho e posso já não estar disponível para voltar”, desabafa o argumentista norte-americano.

Com a greve dos guionistas sem fim à vista, as repercussões mais imediatas da já se fazem sentir. Os talk shows de humor diários, por exemplo, saíram quase todos do ar. O Saturday Night Live também. As próximas a sair do ar serão as telenovelas.

A nível de séries é mais difícil de prever, porque depende de onde estão a nível de produção. Mas há séries, como Abbott Elementary, o novo Daredevil, Yellowjackets, Severance ou a quinta e última temporada de Stranger Things, que já estão paradas.

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