"Não pode haver vítimas de primeira e de segunda"

Patriarca de Lisboa pede indemnizações para todos "porque não há vítimas só na Igreja"

13 dez, 2023 - 06:30 • Ângela Roque , Aura Miguel , Marta Pedreira Mixão

Patriarca de Lisboa reafirma “tolerância zero” e disponibilidade total para continuar a encontrar-se com as vítimas de abuso. “Não me poupo a nenhum esforço para ir ao encontro de quem o deseje”, garante à Renascença. Um dia depois do Grupo Vita ter apresentado o primeiro relatório de atividade, D. Rui Valério diz esperar que o que já se conseguiu fazer, ao nível da prevenção e formação, seja alargado a outros setores da sociedade com a mesma “coragem” e “transparência”.

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"Não pode haver vítimas de primeira e de segunda", diz Patriarca
"Não pode haver vítimas de primeira e de segunda", diz Patriarca

Leia a entrevista na íntegra:


O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, diz, em entrevista à Renascença, que a Igreja está consciente do “papel pioneiro” que está a ter no combate aos abusos sexuais, e está “profundamente empenhada” com a “tolerância zero” e “a necessidade de ajudar e de ir ao encontro” de quem precisa e pede auxílio.

D. Rui Valério, que esta semana já se reuniu com mais uma vítima, diz que os encontros vão continuar. “Estou sempre disponível”, garante.

Nesta entrevista fala das indemnizações às vítimas, e comenta o primeiro relatório de atividade do Grupo Vita.

Comprometeu-se desde sempre com a 'tolerância zero', defendendo que as vítimas devem estar no centro. É isso que tem procurado fazer ao encontrar se com algumas delas? Quer aqui partilhar com quantas já se encontrou?

Antes de mais, o abuso de menores e de pessoas vulneráveis é, para mim - e para nós-, uma razão de comoção, tristeza imensa. Porque, com esta experiência de vida que tenho, eu não estou apenas a usar um tema, um enunciado, eu visualizo logo pessoas concretas, reais, que choram, têm traumas, que não conseguem dormir, que andam fugidas a elas próprias. Eu estou a falar disso. É por isso que é um realismo, são pessoas concretas que me causam uma consternação, uma tristeza e uma compaixão, mas uma compaixão no sentido de que eu quero ser mobilizado, estou disposto a mobilizar-me para ir ao seu encontro.

A tolerância zero é radical e absoluta. Não há espaço, não porque a Igreja o diz, mas porque Jesus o consagrou e anunciou: 'ai daquele que for motivo de escândalo para um destes meus irmãos mais pequeninos, melhor seria para ele atar-se a um mó de moinho e lançar-se ao mar'. Quando Jesus fala assim, é bem claro naquilo que quer dizer.

Relativamente às ações que estamos a promover, as vítimas estão sempre no centro da nossa preocupação e mobilização. Sobre o contacto que tenho vindo a travar com essas irmãs e irmãos, apenas quero dizer que não me poupo a esforços, a nenhum esforço para ir ao encontro de quem deseja partilhar uma palavra, um momento comigo. Tenho feito alguns quilómetros para me encontrar com pessoas, mulheres, homens - curiosamente mais homens - que só desejam falar um pouco da sua experiência de vida, sentindo necessidade de uma certa reparação. No fundo intuem que aquilo de que foram vítimas é tão monstruoso que vai muito para além daquilo que se passou entre dois seres humanos. E é com gratidão que aqui testemunho que a sua intenção é contribuir para uma reparação maior.

"A tolerância zero [aos abusos] é radical e absoluta. Não há espaço, não porque a Igreja o diz, mas porque Jesus o consagrou e anunciou"

E essa atenção do bispo, do pastor, é importante para as vítimas?

É importante desde logo para elas. Porque, muitas vezes, são pessoas que têm em relação a si próprias uma atitude de rejeição pelo que lhes aconteceu, aquilo faz parte da sua identidade e é uma daquelas dimensões com as quais é muito difícil a pessoa se reconciliar. É como se a pessoa, a um certo ponto, vivesse dentro de si este drama da discriminação em relação a um acontecimento marginal, que ficou ali ao lado, mas a um facto que foi de tal maneira marcante que é esse facto que preside a todos os outros e torna-se critério de avaliação para tudo o resto.

É importante, também, para anunciar e testemunhar como a Igreja, através de atos e de ações concretas - neste caso de um homem concreto, que neste momento é o Patriarca de Lisboa - que a Igreja está profundamente empenhada, envolvida, comprometida com essa tolerância zero, o fim dos abusos e a necessidade de ajudar e de ir ao encontro de quem necessita de auxílio.

E esses encontros vão continuar?

Vou continuar a fazê-los e estou sempre disponível para os realizar. Um ou outro têm sido através da mediação do Grupo Vita, ou da mediação da nossa comissão diocesana, e alguns no contacto direto comigo, porque os meus contactos estão ao alcance de todos e todas.

D. Rui Valério em entrevista à Renascença. Veja na íntegra
D. Rui Valério em entrevista à Renascença. Veja na íntegra

Com a ressalva de que falamos antes de ser conhecido o relatório que o Grupo Vita vai apresentar esta terça- feira, mas sabendo que já teve acesso a esse relatório, o que é que destaca?

Não sei se é o que deve ser destacado, mas o que destaco é o relatório ter sido elaborado por um grupo que foi iniciativa da própria Igreja. Ou seja, é um relatório que é fruto de uma atitude que a Igreja em Portugal assume, mantém, cultiva, que é a de verdadeiramente estar comprometida com esta luta que temos de travar. Portanto, o relatório é ele próprio o fruto de uma decisão que a Igreja de Portugal assumiu ao ter criado o Grupo Vita, que elaborou este relatório depois de meses de trabalho no terreno, e que agora nos dá aqui os primeiros resultados. Para mim tem esta positividade, porque é uma forma de colocar à disposição de quem o desejar um ouvido, uma recetividade, um acolhimento, uma proximidade.

O relatório indica que têm sido recebidos mais casos recentes e de pessoas mais novas, e que já há mais de 800 pessoas ligadas a instituições da Igreja que estão a receber formação. São dados importantes nesta fase?

São dados importantes, começando pelo segundo ponto e um exemplo concreto: aqui no Patriarcado de Lisboa estamos altamente comprometidos com a formação, para todos os níveis e para todos os setores...

Estamos a falar de formação de catequistas...

De catequistas, escuteiros, de pessoas que trabalham nas nossas instituições de solidariedade - como, por exemplo, os centros sociais paroquiais -, de ministros extraordinários da comunhão, de acólitos. Todos aqueles cuja missão é o contacto com pessoas estão a ter uma formação muito rigorosa.

Relativamente ao outro dado (casos mais recentes e de pessoas mais novas), na leitura que o próprio Grupo Vita fez, significa que em termos de denúncia se está a chegar aos casos dos últimos anos e isso é positivo.

"deveríamos ambicionar a que não houvesse vítimas de primeira e de segunda"

Neste caso, a Igreja está a fazer um trabalho pioneiro. Acha que isto se devia alargar ao âmbito do país, os restantes setores da sociedade deviam olhar para o vosso exemplo?

A Igreja está consciente de que tem um papel pioneiro a desenvolver na sociedade. Afinal de contas, Jesus não brincou e quis que fôssemos 'luz do mundo e sal da terra', não é? A Igreja, naquilo que vai realizando e promovendo, não é para que os outros depois a imitem nos seus passos, mas é para que as organizações e instituições, setores e franjas da sociedade que também têm uma preponderância de menores e de pessoas vulneráveis entre os seus assistidos, olhando o trabalho da Igreja e o benéfico que tem sido, para purificarmos a memória...

Porque aquilo que desejamos é que a palavra Igreja, quando escutada, encontre uma ressonância de sorriso, de esperança, de alegria no coração das pessoas, e que as outras instâncias, sabendo isso, procedam do mesmo modo, com igual transparência, com igual afinco e, diria aqui, com esta coragem que por vezes nos remete para situações de estarmos a ser crucificados. Mas, tudo em nome de um bem superior, um bem maior, que são as próprias vítimas.

O Manual de Prevenção, que também vai ser apresentado, pode servir para as outras áreas da sociedade?

Eu acho que vai servir, até porque nós próprios, quando elaboramos os nossos preceitos de ação e orientação, nos vamos inspirando em experiência feita. Este manual é fruto de uma experiência, de ciência, saber e conhecimento, mas é sobretudo fruto de todo um fazer que já foi posto em prática no terreno, que deu e está a dar resultados. O relatório do Grupo Vita é testemunha disso mesmo, e aquilo que sugere e propõe pode servir para outros ângulos e dimensões da vida da sociedade.

Sobre as indemnizações às vítimas. A Igreja deve adotar uma estratégia comum para todas as dioceses?

Tem de ser assim. Todas as dioceses, mas eu até era mais ambicioso....

Então?

A todas as vítimas. Porque não há vítimas só da Igreja, não é? Há vítimas, de família, há vítimas... não vou aqui concretizar, mas deveríamos ambicionar a que não houvesse vítimas de primeira e de segunda. E com esta insistência e este enfoque nas vítimas da Igreja, mas que as outras não fossem esquecidas, porque sofrem tanto quanto estas, e portanto deveria ser transversal essa dinâmica e essa decisão a tomar. Deveria ser global e nacional.

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