Entrevista a D. Rui Valério

Patriarca de Lisboa diz que crise na saúde "é um retrocesso civilizacional"

13 dez, 2023 - 06:15 • Ângela Roque , Aura Miguel , Marta Pedreira Mixão

Patriarca de Lisboa lamenta que as pessoas tenham deixado de ser “prioridade” e considera que o caos na saúde é um “voltar atrás”. Sobre as eleições, diz que a abstenção não é sinónimo de imaturidade democrática, mas de “desencanto”, e deve ter uma leitura. E aconselha os políticos a serem mais próximos e a cumprirem o que prometem. D. Rui Valério fala, ainda, da Igreja no pós JMJ Lisboa, do Sínodo e da nomeação de bispos, avançando que o Patriarcado terá novos auxiliares em breve.

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D. Rui Valério em entrevista à Renascença. Veja na íntegra
D. Rui Valério em entrevista à Renascença. Veja na íntegra

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Está para breve a nomeação de novos bispos auxiliares para Lisboa. O processo “está a andar à velocidade de cruzeiro”, garante D. Rui Valério, em entrevista à Renascença. Atualmente tem apenas um bispo auxiliar, D. Joaquim Mendes, quando o habitual é serem três, e continua a ter a seu cargo a diocese das Forças Armadas e de Segurança, de onde transitou para Lisboa, mas ainda não foi substituído.

O Patriarca de Lisboa comenta, ainda, a crise social e política no país, comparando a situação nos hospitais à que viveu em criança, quando esteve internado, em 1972, e havia bons profissionais, mas sem condições.

É Patriarca de Lisboa há apenas três meses, e o arranque desta missão coincide com um momento bastante difícil no país, em termos políticos e sociais, com uma acentuada quebra do poder de compra, falta de professores nas escolas, um sistema de saúde em falência, a habitação cada vez mais inacessível para o bolso dos portugueses. Como é que acompanha esta situação? O que é que o preocupa mais?

Aquilo que mais me preocupa, neste momento, é o facto de nos aproximarmos de uma data tão importante como é o Natal - festa de luzes, de alegria, de esperança - e sermos confrontados com uma situação bastante exigente e, uma vez mais, essa exigência recair sobre os muitos meninos Jesus e as muitas famílias de Nazaré, que, a exemplo daquela original, também lhes falta tantas condições básicas para viver.

Preocupam-me as dificuldades que as nossas populações padecem, nomeadamente os mais fragilizados, os que sofrem de vulnerabilidade mais acentuada, seja ela social ou económica, sobretudo nessa faixa da sociedade onde as maiores complicações se fazem mais sentir. Portanto, não é necessário contemplar apenas o presépio que construímos nesta época do Advento e do Natal, para evocar aquele mistério grande de Deus que vem ao encontro do ser humano na sua vulnerabilidade, pois também a nossa sociedade nos vai apresentando configurações sociológicas e culturais que têm muito do presépio. Basta pensar nos que sofrem dificuldades no âmbito da educação, da assistência de saúde e noutras.

As instituições sociais e caritativas da Igreja tentam dar resposta a essas várias situações. A Igreja tem alertado para o risco de agravamento das dificuldades do setor social. A atual crise política também pode vir a fazer acentuar esse agravamento. No Patriarcado de Lisboa há instituições em dificuldade?

O Patriarcado de Lisboa vive e respira o mesmo ar que neste momento se respira nas instituições de solidariedade social coordenadas pela Igreja ao nível de todo o país. Aquilo que estamos a constatar - e que é uma confrontação - são dois dados mais do que evidentes: por um lado, o acentuar de pessoas que procuram apoio e auxílio nas nossas instituições, em todas as áreas, e, por outro lado, os fundos e apoios que tardam em vir e que, quando vêm, nunca são suficientes para os nossos compromissos e as nossas envolvências…

As comparticipações do Estado?

Sim, as comparticipações do Estado. É por isso que a maior parte das nossas paróquias e centros sociais paroquiais, promovem, por iniciativa própria, ações de solidariedade onde solicitam às comunidades cristãs, das paróquias e das áreas onde residem, uma cooperação e colaboração.

Respondendo diretamente à sua pergunta: penso que, tal como em outras áreas do país, em termos de instituições organizadas, em termos profissionais e de voluntariado, temos uma realidade muito marcante, muito presente e exaustiva em Lisboa. E com a particularidade de estarem presentes onde, por vezes, nenhuma outra instituição existe. Mas a Igreja está lá, exatamente, para responder às necessidades e às interpelações das pessoas.

Há umas semanas, manifestou apreensão com o atual retrato da saúde nacional. A propósito do atual o drama nas urgências, e das carências no serviço de obstetrícia, afirmou que estes factos ensombram as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Quer explicar melhor?

Eu explico: ensombram as comemorações do 25 de Abril e ensombram as comemorações da efeméride da Declaração Universal dos Direitos Humanos (10 de dezembro). Sou, como muitos de vós, oriundos de uma infância onde era dificílimo ter acesso a respostas de saúde condignas. Eu poderia falar do meu caso pessoal quando, em 1972, ainda menino e com uma enfermidade na perna esquerda, fruto de uma queimadura na escola, durante o intervalo, fui cair, literalmente, num antigo hospital de uma cidade do centro, onde então se confrontavam com uma realidade que me parece continuar a estar muito presente. Por um lado, havia um corpo médico altamente habilitado e competente, mas, por outro lado, faltava toda uma logística, um apoio e um conjunto de condições indispensáveis para a execução e prática da saúde. Já naquela altura não havia espaço nas enfermarias para uma criança de sete anos e eu próprio andei de enfermaria para enfermaria, quase parecia Cristo na sua paixão de Sexta feira Santa, de Caifás para Pilatos, de Pilatos para Herodes e assim sucessivamente...

"O que me preocupa, além deste andar para trás, é o retrocesso civilizacional que eu intuo nestes e noutros movimentos da história atual"

Está a dizer que agora ainda é pior?

Não, estou apenas a evocar esses tempos do antes. Volvidos 50 anos daquilo que foi uma festa e uma aventura do povo - naquela altura eu era um rapazito, mas como habitante do distrito de Santarém, vi como muitos jovens que estavam então na tropa, no Regimento de Cavalaria de Santarém, participaram e conseguiram contagiar-nos com um entusiasmo e uma força que ficámos convencidos de que aquele é que era o caminho para responder àquilo que todo o português necessita, desde o das franjas mais rudimentares e dos desempregados, aos do salário mínimo... Aquilo que havia na altura, se bem se recordam, era uma esperança e uma expectativa a favor dos pobres.

E agora?

E agora, volvidos 50 anos, o que é que deparamos? É com sofrimento e tristeza que eu digo: vemos um cenário muito parecido ao de 1972, quando cheguei ao tal hospital velhinho com uma massa humana de médicos, enfermeiros, profissionais, assistentes, colaboradores e voluntários altamente qualificados, mas sem condições de caráter logístico ou circunstancial, indispensáveis.

Por outro lado, o que me preocupa, além deste andar para trás, é o retrocesso civilizacional que eu intuo nestes e noutros movimentos da história atual. Eu não desligo estes fenómenos daquilo que se passa, um pouco pelo mundo fora, onde o ser humano, uma vez mais - como noutras fases negras da história da humanidade – deixou, aparentemente, de ser um valor supremo, uma prioridade inegociável.

E apesar da famosa declaração do Emanuel Kant (em que o ser humano nunca é um meio, é sempre um fim), volvidos não sei quantos anos dessa declaração, que alimentou e sustentou movimentações e até revoluções, confrontamo-nos aqui - como eu agora ouvi no último noticiário - com mais uma maternidade que está a fechar e já não atende grávidas. Eu incluo isto no contexto mais amplo da relativização do valor supremo que o ser humano, em qualquer circunstância, em todos os momentos e lugares, deve ter e deve ser reconhecido.

Dentro de três meses haverá eleições e, em Portugal, os níveis de abstenção são preocupantes. A que atribui esta espécie de apatia política? Podemos considerar que é consequência do que se tem passado nas últimas décadas?

Creio que existem diversas razões e motivos que explicam este aparente afastamento dos cidadãos, particularmente os jovens. Desde logo, a mobilização para ir votar. Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, votar é um ato muito concreto e realista, tem a sua dose de ideal, de sonho e nós desaprendemos de acreditar nos sonhos. Talvez por isso o Papa Francisco, quando cá veio, tenha insistido tanto na necessidade de sermos empreendedores de sonhos e de acreditar num ideal…

E isso também é culpa dos políticos e das suas ações?

Não. Há uma movimentação de cariz universal que tem as suas bases em movimentos e passos culturais, de pensamento e ideias que, porventura, mobiliza um pouco isso. Reparem no que se passou nos finais dos anos 60. De repente, uma juventude conseguiu mobilizar populações inteiras para a rua, mas começou a constatar que todo aquele seu ideário estava a definhar e não se realizou, foi-se adiando.

Ora, eu receio que, em Portugal, a grande palavra triste e infeliz que tem conduzido um pouco a nossa sociedade é a palavra adiar. Temos vindo a adiar projetos, decisões, iniciativas, e de adiamento em adiamento, as próprias pessoas sentem-se uma espécie de instrumentos deste adiamento. Por isso, não votar, não participar num ato cívico que custou o esforço, e até o sacrifício, de tantos, é adiar a sua condição de cidadão, é um ato que adia a liberdade, que adia a democracia. E somos hoje confrontados com um país com tantos projetos, ideias e intenções, mas todos estão ali por realizar…

Falta-nos também maturidade democrática?

Não creio. Porque a maturidade democrática não se assume com o passar do tempo. A maturidade democrática é uma questão que assenta na história e na identidade de um povo. E eu acredito que, já em 1974, tínhamos uma maturidade impressionante. Eu nunca me esqueço, e nem aceito que ninguém se esqueça, que em 1973-74 colocávamos uma arma letal nas mãos de um jovem e mandávamo-lo ir combater. Ora, isto é um ato de confiança na capacidade de discernimento dessa pessoa. Portanto, se nesses anos tratávamos como adulto um jovem de 18, 19, 20 anos que estava no serviço militar, então ele não tem maturidade suficiente para saber qual o caminho justo e certo que deve ser percorrido para si e para os outros?

Creio que o povo português, até graças à sua história e, sobretudo, pelo caráter existencial e experiencial que os nossos cidadãos ao longo da história viveram, é um povo maduro, com um nível de maturidade muito elevado.

Mas anda meio adormecido, ou não?

Eu não sei se este fenómeno de abstenção será sintoma de um povo adormecido, ou se será um ato de dizer ‘não’ àquilo que existe. Um ato que quase se entende como uma não aceitação do ‘status quo’, de como as coisas estão. Porque, por vezes, o povo português é obrigado a escolher entre o “sim” e o “não”, mas fica-se pelo “nim".

Longe de mim estar aqui a justificar ou a redimir uma situação que me entristece, os níveis de abstenção, a mim, criam-me tristeza. É uma impressão até, do ponto de vista de cidadania, que eu não compreendo.

Vamos agora entrar numa fase de campanha eleitoral, para as eleições daqui a três meses. Tendo em conta o que acaba de dizer, que conselho é que daria aos partidos e aos políticos que vão fazer campanha?

Eu só dou este conselho a alguém porque o dou a mim próprio: o meu conselho é estar presente, estar próximo, estar pronto para intervir com projetos, não apenas com promessas.

Não lhe parece que também, dentro da própria Igreja - e fazemos agora uma passagem para a realidade dos cristãos em Portugal - às vezes se desiste de pensar pela sua cabeça e que o frenesim da vida, as dificuldades quotidianas e a rotina levam a pessoa a demitir-se de ajuizar, numa espécie de iliteracia” social, sem saber para onde ir e vai-se para onde todos vão, onde todos se queixam e lamentam? Mas os pontos positivos são mais difíceis de identificar. A Igreja aí pode ter um papel?

Primeiro, o afastamento dos cristãos católicos das ocupações e das responsabilidades da coisa pública, é uma constatação que não é de hoje e já tem algumas décadas. Recordo-me que já D. José Policarpo tinha como sonho mobilizar os recursos e os católicos altamente competentes, especializados e preparados para se envolverem, com as mãos na massa, e pensarem a cidade, a política e a sociedade. Agora, de facto, há um afastamento que nos deve preocupar e que é quase um desdém, salvo, obviamente, raras e muito aplaudidas excepções.

Quanto ao núcleo da pergunta, acho que não é um problema da Igreja, é um problema da nossa sociedade. Questiono-me, tantas vezes, sobre o que é feito hoje em dia daquela inquietação, que era tão nossa e tão própria dos jovens? Onde é que ela está? Essa inquietação, essa insatisfação profunda, positiva, de quem não se acomoda à realidade, nem se resigna? Onde é que está a resiliência, essa capacidade de enfrentar, de dar a cara, de lutar por aquilo em que se acredita?

Trata-se de um problema social e cultural?

Sim, mas há uma outra razão para qual não existem culpados. É que ainda não entendemos plenamente e estamos agora a dar os primeiros passos para compreender as consequências do que uma sociedade, com uma mentalidade altamente assente na técnica, pode influenciar a o pensamento próprio. Ainda não fizemos essa avaliação. Aquilo que sabemos é que a própria mentalidade da técnica tem um procedimento que vale não só para a máquina, para a tecnologia e para os instrumentos, mas que está a ser assimilado e assumido pela pessoa. Uma máquina está programada para executar mediante os impulsos e o programa que lhe foi feito. E meu receio é que, ao nível do ser humano, alguma coisa deste mecanismo esteja a acontecer. Ou seja, a pessoa executa, mas não decide. A decisão é sempre de um outro. Haverá sempre alguém que está a tomar essa decisão, porque a dinâmica é um mecanismo da própria sociedade, da mentalidade técnica.

Quer dar um exemplo?

Vou contar um pequeno caso. Quando perguntaram ao piloto da aeronave Enola Gay, que lançou sobre Hiroshima aquela malfadada bomba, perguntaram-lhe o que é que ele sentiu ao largar a bomba. Inicialmente, ele não compreendeu a pergunta. E como o jornalista insistiu tanto, ele respondeu: “Não senti coisa nenhuma. Eu tinha um plano de voo que era ir tantas milhas para aqui, tantas milhas para acolá e, ao chegar, tinha que lançar e carregar num botão. Eu fiz isso, fui competente. Por isso, não me venham pedir contas, nem se eu tenho noção das consequências”. É com alguma apreensão que o digo, mas esta é a realidade.

"Não pode haver vítimas de primeira e de segunda", diz Patriarca
"Não pode haver vítimas de primeira e de segunda", diz Patriarca

Mas esta é também a realidade onde vive a Igreja. Portanto, a Igreja também terá, neste contexto, uma palavra a dizer… qual é? É despertar a nostalgia?

Ai da Igreja no dia em que abdicar ou desistir de o despertar! Significaria faltar a uma das suas principais funções e Missões, que é a de ser profeta. E a voz de ser profeta não é só para denunciar a injustiça, nem para denunciar o mal. A voz profética tem a ver também com o despertar do ser humano, para as suas funções e missões mais importantes: amar o próximo como a si próprio, segundo o modelo de Jesus.

Vimos, há poucos meses, com a JMJ, como os jovens têm à flor da pele essa inquietação que nos deixou a todos estupefactos. Falava-se em secularização, que isto aqui era um inverno da fé… mas, afinal o potencial existe. É isso que quer também para todas as idades? O que é que falta ?

O que está a fazer falta é que haja a força, a vontade e a capacidade de concretizar a fé. No princípio era o verbo, mas o verbo é o mistério que estamos agora a celebrar. Fez-se carne, tornou-se realidade, tornou se concreto e voltamos a bater no mesmo ponto… Ou seja, há intenções, planos, projetos e palavras, mas depois não chegam ao momento da concretização.

Fica tudo teórico e isso não responde à vida, não é?

É uma coisa impressionante. No caso concreto da JMJ, estamos de acordo em apelidá-la de “maravilhosas, um Pentecostes, um festival do entusiasmo”…

E agora?

E agora, estamos dedicados e empenhados em realizar, fazer e concretizar. Mas reconhecemos que já não é assim tão fácil, porque nos embatemos com as circunstâncias da história e com as circunstâncias antropológicas vigentes. E quando é assim, caímos na tentação de desistir e cair na resignação.

Como Patriarca de Lisboa, os jovens são uma prioridade? Acaba de regressar de um fim de semana intenso com eles em Fátima…

Isso é clarinho e transparente, como água límpida, que os jovens são uma prioridade para toda a Igreja. Claro que é prioridade na Igreja de Lisboa, fundamentalmente, porque estamos a perceber e a pressentir que só mediante uma sustentada pastoral juvenil é possível proceder-se a um renovamento da pastoral no seu todo.

E como é que os jovens dão esse dinamismo ao resto da pastoral?

É que os jovens possuem, pela sua condição juvenil, um manancial de valores (não no sentido ético, mas de proposições e de disposições) que fazem da pastoral um verdadeiro caminho de santidade. E é com isso que queremos contagiar toda a Igreja. Portanto, a renovação da pastoral, em todos os seus âmbitos, do sócio-caritativo, familiar, catequético ao litúrgico, passa por aquilo que o jovem é capaz de transmitir. Tem a ver um pouco com esta necessidade de conhecermos melhor os jovens, o que é que eles são e do que é que são capazes. E não rotulá-los em três ou quatro chavões e fica tudo por ali e não se vai a lado nenhum.

Há uma certa frescura que também se identifica até noutros mais idosos, a começar por exemplo pelo próprio Papa Francisco. Entretanto, vimos que esteve recentemente em Roma e conversou uns minutos valentes com o Santo Padre. Podemos saber do que falaram?

Sim, falámos de muita coisa e de um projeto concreto em que o Papa Francisco está particularmente envolvido, na República Centro-Africana, mais concretamente ali em Bangui…

Que o senhor conhece bem…

Que conheço bem e onde temos algumas iniciativas e ele está muito por dentro do assunto, e muito por dentro do apoio que o nosso povo, a nossa gente e os nossos militares, têm dado. E depois falámos concretamente de Lisboa, cuja realidade ele também conhece muito bem, nomeadamente aquela faceta jovem. Para ele, Lisboa é juventude. Juventude e Luz, é maravilhoso!

Está neste momento em Lisboa apenas com um bispo auxiliar. Também falou disso com o Papa? Como é que está o processo de nomeação dos novos bispos?

O processo de proposição está a andar à velocidade de cruzeiro.

E espera ter a equipa constituída em 2024?

Certamente, porque o bispo auxiliar não é só um auxiliar na função, é também um apoio para a afirmação da estrutura identitária do próprio Patriarca. Porque o Patriarca de Lisboa não pode ser uma pessoa isolada, sozinha, tem de ter este carisma numa lógica de sinodalidade e de complementaridade. Portanto, é meu desejo que muito proximamente venhamos a conhecer já um bispo auxiliar. E depois, passado uns dias, virão os restantes.

O senhor defende com entusiasmo o processo sinodal. O que é que espera que aconteça no próximo ano? O que é que poderá efetivamente mudar?

Antes de pensarmos e falarmos do que é que se espera, somos convidados a olhar para o que já existe. E o que existe é uma consciência viva de que a Igreja, enquanto tal, é, por sua natureza, uma Igreja sinodal. E esta sinodalidade inclui algumas realidades maravilhosas que já estão a acontecer. Desde logo, uma maior proximidade e sentido de comunhão de todas as igrejas para com outras igrejas.

Por outro lado, há uma necessidade de envolver, nas decisões e nos projetos, pessoas diferentes, desde os leigos, religiosos consagrados, enfim, homens, mulheres, todos são chamados a pronunciarem-se em ordem à partilha daquilo que o Espírito Santo dirigiu e colocou no coração de cada um. Portanto, a sinodalidade é impossível não acontecer.

E quais são as suas expectativas para os resultados deste Sínodo? O que é que pode, de facto, mudar na Igreja?

O sonho que eu tenho é que o anúncio e a notícia sejam a de que o amor de Deus é para todo o ser humano. E é um amor que não é apenas um sentimento, uma mera teoria, mas é de doação e de entrega. Que esse anúncio, que essa mensagem chegue a todos, a todos.

"eu receio que, em Portugal, a grande palavra triste e infeliz que tem conduzido um pouco a nossa sociedade é a palavra adiar"

A “todos, todos, todos”, diz o Papa, o que às vezes gera alguma confusão, por isso, há quem diga que o “todos, todos, todos” não é tudo, tudo, tudo…

Eu creio que esse “todos, todos, todos", é um bonito refrão, mas não é um todos numa linha da quantidade, mas da qualidade. O “todos, todos, todos” significa que se está a falar só de uma pessoa, mas na integralidade da sua condição, da sua história, daquilo que é sua parábola existencial. E isto é necessário para cada um de nós, porque, por vezes, somos peritos em discriminar. Não só os outros, mas, porventura, quando nós próprios, em relação ao nosso âmbito de existência, à nossa parábola de história, discriminamos tantas coisas que não aceitamos, que não compreendemos e, por isso, descartamos.

Para mim, falar em “todos, todos, todos” é falar de uma só pessoa para afirmar a integralidade do seu ser.

Para concluir, temos aqui um grupo de perguntas para as quais pedimos respostas rápidas. Aproximamo-nos do Natal, quais são as suas memórias de infância?

Alegria.

Qual é o seu ideal de férias?

Correr.

Correr?

(risos) Ginástica. Desporto. Visitar montes e vales.

E o que é que mais valoriza nos amigos?

Disponibilidade para servir

E gosta de futebol? Tem algum clube no seu coração, uma preferência?

Gosto de futebol. Tenho um clube. Não sei se é do coração ou não… mas, a minha inclinação vai ali para os lados da luz.

Em pleno advento, que mensagem deixa para quem nos ouve neste Natal?

A esperança é contar sempre com a força de Deus e com a sua capacidade para fazer milagres e realizar os impossíveis. Esperança é confiar e olhar mais para Cristo do que para nós próprios.

E, já agora, aproveito para desejar a todas e a todos não só a continuação de uma caminhada de Advento na santidade e no auxílio aos mais necessitados, como votos de um Santo e Feliz Natal.

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