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Entrevista ao cardeal patriarca de Lisboa

JMJ 2023. "Inflação condiciona. Pretendemos que ninguém deixe de ir à Jornada por falta de dinheiro"

22 jul, 2022 - 06:30 • Ângela Roque , Maria Costa Lopes (vídeo)

D. Manuel Clemente admite que consequências económicas da guerra podem condicionar participação dos jovens e fazer derrapar as contas da Jornada Mundial da Juventude. “Se o dinheiro fica mais caro, é mais complicado de arranjar. Mas há de se resolver”, diz o cardeal patriarca à Renascença.

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JMJ 2023. “A Inflação condiciona. O que pretendemos é que ninguém deixe de ir à Jornada por falta de dinheiro”
JMJ 2023. “A Inflação condiciona. O que pretendemos é que ninguém deixe de ir à Jornada por falta de dinheiro”

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Daqui a um ano, Lisboa já estará em ebulição para acolher a Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Vai decorrer de 1 a 6 de agosto de 2023, mas prevê-se que na semana anterior comecem a chegar peregrinos de todo o mundo, e que a estrutura da JMJ esteja a ultimar as formações dos mais de 20 mil voluntários que irão estar envolvidos.

Em entrevista à Renascença, o cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, fala dos preparativos deste evento inédito em Portugal, elogia a colaboração e apoio das entidades oficiais, mas admite que a escalada dos preços causada pela guerra pode ter influência nas inscrições e até nos custos finais do evento.

O mundo vive ainda num contexto de pandemia e a Europa num contexto de guerra. Receia que esta situação possa, de alguma forma, condicionar a mobilização e a participação dos jovens para a Jornada Mundial da Juventude em 2023?

Recear, receio. Mas temos de nos habituar a viver com mais precaução, com menos efusão de sentimentos e expressões, com mais cautelas higiénicas. Se calhar é assim que vai ser o futuro, porque os vírus estão cá desde o princípio da humanidade e cá continuarão depois. Todos os cuidados médicos e sanitários têm de estar presentes, também nas Jornadas.

Quanto à guerra na Europa, ela permanece…

Permanece e com enormes estragos e consequências negativas, não só para aqueles países diretamente implicados, concretamente a Ucrânia, que está a ser invadida, mas também para a economia mundial, com reflexos graves.

A Jornada tem os seus custos materiais, as inscrições e as viagens têm os seus custos, tudo isso vai ser lesado pela guerra e pelas suas consequências.

Que importância pode assumir um evento destes nesta perspetiva de contribuir para a transição para um mundo diferente?

É muito interessante como o Papa tem focado esse mesmo ponto. As Jornadas Mundiais da Juventude acontecem desde os anos 80, com São João Paulo II, já são um acontecimento que marca sucessivas gerações da vida da Igreja.

Mas esta, pelas condições em que vai ser realizada, gera uma enorme expetativa, reforçada também pela pandemia que constrangeu os jovens nas suas casas, limitou os adolescentes nos seus convívios, e que agora procuram, com muita vontade, ocasiões de reencontro e de retomar caminhos que já iam fazendo, de Jornada em Jornada.

Há uma enorme expetativa, e o Papa tem frisado isso, que esta não será uma Jornada qualquer, e esperemos que seja já uma Jornada verdadeiramente pós pandémica, não só no aspeto sanitário, mas também no aspeto psicológico e social, para os adolescentes e jovens de agora e do futuro.

Pedido do Papa para a JMJ: “Quero evangelização, não quero conferências. Isso já eles têm de mais”
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O Papa lança desafios constantes aos jovens. Ainda recentemente, falou mais uma vez na "loucura da guerra", considerando legítimo que se rebelem e recusem participar. A JMJ pode ser um convite ao não conformismo dos jovens e contribuir para a paz?

A Jornada é mais do que isso. É para os jovens do mundo inteiro, e a grande preocupação da organização é que venham realmente do mundo inteiro. O facto de se encontrarem tantos durante vários dias no mesmo local, convivendo, partilhando, refletindo, rezando - tudo aquilo que uma Jornada comporta -, isso, já de si, é uma criação de um outro tipo de futuro, mais próximo, mais fraterno, mais intercultural. É o contributo que elas podem de devem dar.

Agora, tudo o mais, os alertas que o Papa tem feito sucessivamente, até com frases fortes, é exatamente para isso, para abanar as consciências, para as pessoas acordarem e para tomarem uma posição mais firme em relação ao futuro.

A inflação é outro problema que vai continuar a preocupar. Também pode condicionar de alguma forma a preparação do evento?

Tudo condiciona, porque tudo fica mais caro. Aquilo que pretendemos é que ninguém deixe de ir à Jornada por falta de dinheiro, mas para isso é preciso que o dinheiro exista e que se possa distribuir, e ninguém distribui o que não tem.

Os próprios custos do evento podem sofrer uma derrapagem?

Também. Fala-se em 50, 60 milhões, comparando com outras Jornadas. Esperemos que haja esse dinheiro, porque é dos jovens para os jovens, e de todos para todos. Mas, se o dinheiro fica mais caro, é mais complicado de arranjar. Mas, há de se resolver.

Há custos que são repartidos entre a Igreja, o Estado e as autarquias?

O Estado e as autarquias, desde o primeiro momento - e nem a Jornada teria avançado sem isso, foi a indicação que tive de Roma e nos contactos que fiz ao longo de 2017 - se mostraram muito interessados, porque reconheceram que este não é um evento marginal, acessório, secundário ou confinado à Igreja portuguesa, traz a atenção do mundo, sobretudo juvenil, durante uma semana para Portugal, para Lisboa, para o país inteiro.

E isso interessa à marca Portugal, interessa à juventude e à sociedade portuguesas. Isso foi reconhecido pelo Estado e pelas autarquias desde o primeiro momento, por isso disseram: 'contem connosco naquilo que nos disser respeito, lá estaremos’. E estão, em tudo aquilo que são infraestruturas, que não são obviamente de competência da Igreja, mas da competência do Estado.

Portanto, houve noção da real dimensão deste evento?

E creio que cada vez vão ter mais, porque em Portugal não temos nenhuma experiência disto, quer na Igreja, quer na sociedade. Nunca houve nada disto em Portugal.

Estamos cá há quase mil anos como país e nunca tivemos nada que se assemelhe, portanto, é natural que a pouco e pouco é que se vão dando conta da dimensão disto em que nos metemos, em boa hora, quer como sociedade quer como Igreja.


Resignação. “Lisboa vai precisar de um bispo a condizer com a juventude. Eu começo a ser de outro tempo”
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Pelo que diz, a colaboração do Governo e das autarquias tem correspondido às expectativas?

Tem correspondido, tal e qual, àquilo que foi prometido e comprometido. E, como digo, por indicação de Roma - tive de fazer esses contactos, e sei -, não é apenas a permissão: sem o apoio destas entidades, as Jornadas não teriam avançado, nem podiam avançar.

Repito: trata-se de ter neste espaço, e concretamente aqui à volta de Lisboa, durante uma semana, um décimo a mais da população. Isso é uma coisa imensa! Não se pode fazer sem a coincidência da Jornada com o interesse da sociedade.

Tem ido espreitar as obras?

Sim, tanto quanto (posso), até porque da janela da minha torre vejo um bocadinho das obras e das terraplanagens.

Conhece o projeto. Já imagina aquilo a funcionar?

O projeto é muito bonito, agora vamos ver a prática. Está a avançar e bem, está a avançar depressa. Depressa não digo, mas bem.

Daqui a um ano o país já vai estar em ebulição com a Jornada Mundial da Juventude. A esta distância como é que perspetiva o evento?

Bem, a ebulição já começou, porque estamos a preparar a Jornada praticamente desde que ela foi anunciada. Foi em janeiro de 2019, estamos em julho de 2022 e a Jornada estava para ser agora mesmo. Depois veio a pandemia e foi tudo adiado um ano, para 2023, como acontecerá, querendo Deus, aqui em Lisboa.

De há um ano e tal para cá, com a chegada dos símbolos da JMJ e com a sua peregrinação pelas várias dioceses, tem havido uma enorme movimentação. Há um alvoroço pró Jornada nas várias dioceses, grupos, movimentos, porque os símbolos vão a muitos lados, sítios de Igreja e de fora de Igreja, escolas. Há uma expectativa muito grande que também é incentivada por essa peregrinação dos símbolos.

Por outro lado, na sede onde está o Comité Organizador Local (COL) - que centraliza toda a preparação da Jornada e que funciona no Beato, na antiga manutenção militar - a atividade é permanente há já largos meses.

Já aí estão a trabalhar algumas centenas de pessoas…

E nos variadíssimos setores: a parte dos eventos pastorais, a parte logística, as inscrições, as relações internacionais. Não há nada que não esteja já em andamento, tem mesmo de ser, além daquilo que depois compete ao Estado e às autarquias de Lisboa e Loures, uma vez que tanto o Estado como as autarquias, desde o princípio, não só permitiram como estiveram coniventes com esta iniciativa, que foi reconhecida como muito benéfica para a cidade e para o país e por isso também entram com a sua quota parte.

Quer deixar algum convite, sobretudo aos jovens, tendo como horizonte a JMJ?

Os jovens nem precisarão, mas a todos, porque sendo uma Jornada Mundial da Juventude diz respeito a toda a gente, porque esses jovens têm pais, têm mães, e toda a família acabará por ser envolvida. Até no acolhimento aqui em Lisboa e arredores, e até nas chamadas pré Jornadas, que se realizam na semana anterior nas várias dioceses, à medida que eles vão chegando.

O que digo é: aproveitem, porque uma ocasião destas não terão facilmente de novo, porque uma Jornada que vai correndo todo o mundo, continente a continente, não é vulgar que chegue proximamente a Portugal depois desta. Aproveitem bem, porque isto é uma ótima ocasião de rejuvenescimento geral e para cada um.

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Ouça (na íntegra) a entrevista a D. Manuel Clemente
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  • Ivo Pestana
    25 jul, 2022 Funchal 20:49
    Que saiam vocações dessas jornadas, que Deus ilumine as jovens cabeças, porque de festas andamos cheios.

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