24.º Congresso do PS

Diferenças entre António Costa e Pedro Nuno? Socialistas preferem responder "continuidade"

06 jan, 2024 - 08:00 • João Carlos Malta (texto) , Catarina Santos (vídeo)

Ainda assim, o ministro do Ambiente, Duarte Cordeiro, diz que "Pedro Nuno Santos sabe a dificuldade que há em executar e tem usado a expressão de ‘não arrastar a perna’, já António Costa com mais experiência, um passado maior, tinha mais paciência".

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Diferenças entre Costa e Pedro Nuno? Socialistas sublinham "continuidade"
Diferenças entre Costa e Pedro Nuno? Socialistas sublinham "continuidade"

Os socialistas esperam que o futuro reserve mais semelhanças do que diferenças entre António Costa e Pedro Nuno Santos. À pergunta sobre o que esperam que mude ou distinga os dois, a resposta que mais vezes se repete é “continuidade, continuidade, continuidade”. No 24.º Congresso do PS, que decorre em Lisboa, notáveis e militantes de base estão unidos nesta ideia, não querendo abrir eventuais brechas entre o passado e o futuro.

Se a imagem pública de António Costa e Pedro Nuno Santos foi ao longo dos anos marcando diferenças notórias, e se após a saída do executivo e a passagem a comentador televisivo, o atual secretário-geral do PS criticou algumas das medidas do então governo de Costa, a verdade é que agora que se aproxima uma batalha eleitoral, os militantes ouvidos pela Renascença preferem valorizar mais o que os une do que os separa.

A deputada Isabel Moreira começa por sinalizar que António Costa foi “um excelente primeiro-ministro” e que “não é tão importante estar a vincar as diferenças entre um e o outro”.

A mesma fala ainda da necessidade de “guardar e conservar com muita força o melhor que foram as conquistas de António Costa e do governo António Costa”.

Também o ex-ministro da Economia e do Trabalho José Vieira da Silva alinha pelo mesmo discurso, mesmo considerando que são “duas personalidades muito diferentes”.

"Não é importante estar a vincar as diferenças entre um e o outro", Isabel Moreira, deputada do PS.

Vieira da Silva, à pergunta sobre quais as diferenças que o país pode esperar, responde que o “melhor é começar pelas parecenças, porque nós estamos no Partido Socialista, é um partido com uma história longa, como a história da nossa democracia”.

“É seguramente o partido com maior implantação em todo o território e, portanto, quem faz parte do Partido Socialista faz parte do mesmo conjunto”, resumiu.

Vieira da Silva considera que existem entre Pedro Nuno Santos e António Costa “nuances políticas e ideológicas” e diferentes “tipos de comportamento e de forma de exercer o poder”.

O histórico socialista revelou, ainda, a dificuldade em comparar “um líder que foi dos que mais anos esteve à frente do PS” e alguém que está agora a chegar.

Já o ministro do Ambiente, Duarte Cordeiro, que conhece muito bem tanto António Costa como Pedro Nuno Santos, considera que quando PS renova a liderança “espera a capacidade de revisitar o que foi feito, quer mais ambição, mais energia”.

"É melhor é começar pelas parecenças, porque nós estamos no Partido Socialista", José Vieira da Silva.

Cordeiro pensa que a “continuidade” será a marca de água dos próximos anos, com diferenças em setores como a educação e a saúde, onde Pedro Nuno já assumiu que irá reavaliar as carreiras de professores e médicos.

Mas mesmo que possam ser apenas de pormenor, Duarte Cordeiro aponta diferenças entre os dois. “Pedro Nuno Santos sabe a dificuldade que há em executar e tem usado a expressão de ‘não arrastar a perna’, já António Costa com mais experiência, um passado maior, tinha mais paciência”.

Por isso, espera da nova liderança “uma nova energia”.

Já Maria Teresa Santos, que veio de Gondomar, e é militante do PS desde 1999, apoiante “ferrenha” de António Costa, passa a ser agora “ferrenha” de Pedro Nuno Santos.

“Espero juventude e irreverência, mas precisamos agora de ponderação não atacando de forma irracional a direita”, diz.

Pedro Nuno tem capacidade para continuar o trabalho de António Costa”, acrescenta a militante. E o que é preciso fazer diferente? “Continuar a fazer o que foi feito”, responde.

Já Bruno Costa, de 37 anos, militante da Costa da Caparica, também não antevê “diferenças notórias, o que se espera é que haja uma continuidade”.

“Haverá diferenças de estilo de governação e espero que haja espaço para a incorporação de novas ideias e a vinda de uma nova geração com a inclusão de temáticas como as alterações climáticas”, afirma Bruno Costa, para depois corrigir o tiro considerando que o essencial é manter a política de “contas certas”.

Nem sempre foram tudo rosas

Se durante os anos de Governo do PS, o primeiro-ministro, António Costa, e Pedro Nuno Santos, como ministro Adjunto e depois como ministro das Infraestruturas, tiveram vários choques que se tornaram públicos, a verdade é que desde que Marcelo Rebelo de Sousa dissolveu a Assembleia da República na sequência da Operação Influencer e se tornou real a hipótese de Pedro Nuno assumir a liderança, a troca de mimos tem sido uma constante.

O novo secretário-geral do PS já disse que António Costa “é o melhor político português. Deu um grande contributo a Portugal nos últimos oito anos. Espero que possa ter oportunidade para continuar a servir o país, seja cá ou fora de Portugal”.

Depois de ser conhecido o resultado da disputa interna do PS, em que Pedro Nuno Santos bateu José Luís Carneiro, António Costa disse que não vai “assombrar ninguém". "Pedro Nuno Santos tem mais meio palmo do que eu, não farei sombra a ninguém", respondeu.

Mas ainda há poucos meses a história não era bem a mesma, quando o agora secretário-geral do PS saiu do Governo e depois de uma ausência prolongada do Parlamento regressou à vida política, também no papel de comentador televisivo.

Nessa altura, nem tudo foram rosas. Pedro Nuno, que à época não esperava vir a ocupar a liderança do PS em tão pouco tempo, começou um caminho de distanciamento em relação a algumas políticas do Governo.

Um dos casos de divergência surgiu quando Costa disse que “se o hub de Lisboa não estiver garantido e não estiver garantida a função estratégica da TAP, não haverá privatização”.

À noite, na SIC-Notícias, Pedro Nuno Santos discordou de tudo e disse que o hub “é uma falsa questão” e que não há pacto social que “salve” a influência do Estado na TAP se a maioria do seu capital for vendido.

A descida do IRS foi outro ponto de choque. O ex-ministro das Infraestruturas e da Habitação afirmou que a baixa do IRS “está a favorecer os de cima”.

“O meu apelo é que as reduções do IRS sejam feitas com cautela. Temos de ter consciência de quem paga IRS e quem beneficia”, afirmou na SIC-Noticias.

Por fim, apesar de defender as medidas do Governo para aliviar as pessoas que contrataram créditos à habitação, deixou uma crítica: “Podíamos ter ido mais longe.” Afinal, os bancos estão a lucrar com a “medida administrativa do BCE [Banco Central Europeu]” de subir os juros. “Os lucros da banca portuguesa advêm exclusivamente das decisões administrativas do BCE” e “era justo que se utilizasse essa margem para travar as prestações das famílias”.

António Costa sai de cena, e entra Pedro Nuno Santos. O novo líder do PS faz este sábado o seu primeiro discurso no 24.º Congresso do PS, rumo às eleições legislativas de 10 de março.

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  • Sara
    06 jan, 2024 Lisboa 10:44
    Não há diferenças entre os dois, os portugueses sabem que a melhor escolha era o Sr Carneiro, pessoa talvez mais idónea, mas o srs socialistas tiveram medo de eventual mudança e renovação do PS, ou seja, perder tachos, e decidiram continuar na mesma linha, grande erro

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