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Entrevista

Natal pode ser uma altura de "grande sofrimento". Gestos simples ajudam a combater solidão

23 dez, 2023 - 11:26 • Ana Catarina André

Escrever um poema ou uma carta de agradecimento são algumas das estratégias sugeridas pela psicóloga e professora Maria Luísa Lima para minimizar a tristeza de quem está só nesta quadra.

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Maria Luísa Lima, psicóloga social e autora do livro "Nós e os outros: O poder dos laços sociais", publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), lembra que o Natal, apesar de ser “um momento incrível de sincronização das famílias”, gera também “um sentimento de grande fracasso” e “de grande sofrimento” nas pessoas que estão ou se sentem sozinhas. Uma conversa profunda ou um uma carta podem ser algumas formas de minimizar o impacto destas situações, diz a professora do ISCTE.

O Natal é uma época por natureza de convívio social. Há, no entanto, muitas pessoas que se sentem sós nesta altura. Enquanto psicóloga social, como olha para esta realidade?

O Natal pode ser um período muito triste para muita gente que não tem família. Mesmo que não sejam pessoas que se sintam particularmente sozinhas durante o ano inteiro, se vivem sozinhas e se todas as pessoas [que conhecem] vão para as suas famílias e não têm família para onde se ir, é uma altura de grande sofrimento.

Aquilo que vemos apregoado na televisão, nos anúncios, nos cinemas, nos cartazes são grupos perfeitos de pessoas juntas a comerem coisas fantásticas à volta da mesa. É um momento incrível de sincronização das famílias, que ritualmente se encontram e esquecem um bocado as diferenças que têm noutras alturas do ano, e isso também é um exercício muito importante. Mais do que isso, enquanto país, sincronizamo-nos todos no Natal a fazer uma coisa muito parecida: quase todos comemos bacalhau na noite de Natal. É uma coisa que sabemos que está a acontecer.

Há uma espécie de comunhão coletiva.

Exato, da qual há uma série de pessoas que estão excluídas. Para começar, estão [excluídas] as pessoas que estão em situação de sem-abrigo, as que não têm essa família, nem têm essa casa, nem esse bacalhau para comer. Depois, temos os que tendo casa, e se calhar, o bacalhau para comer, o vão comer na frente da televisão, vendo os outros enquadrados pelas suas famílias.

Isso é um sentimento de grande fracasso naquilo que é este momento, que acaba por ser um momento de reflexão sobre a nossa própria vida, porque estamos a chegar ao fim do ano e estamos a fazer balanços. Essa situação para muita gente é de grande sofrimento

Há também quem se sinta só na noite de Natal, mesmo estando no meio de muitas pessoas.

Sim, essa é outra solidão. Isso acontece, muitas vezes, nas situações em que está muita gente e não há uma conversa profunda. Salta-se de pessoa para pessoa, começam-se conversas que não se acabam, e chega-se ao fim de um dia ou de uma refeição e tem-se a sensação de que ninguém olhou verdadeiramente para nós. Esse acaba por ser um desafio também para as famílias: o de transformarem isso nalguma coisa que valha a pena. Há exemplos de maneiras de fazer isso.

Como por exemplo?

Quando as famílias optam por não dar prendas a toda a gente, mas oferecer só a uma pessoa, para que se obrigue alguém a pensar especificamente naquela pessoa, ou quando se combina entre a família ou entre amigos, que as prendas não sejam coisas de dinheiro e não passem pelo consumismo em que esta época se transformou: um poema ou uma conversa mais profunda. Há famílias que fazem isso, que encontram nas trocas de prendas algum sentido, alguma dimensão de altruísmo, colocando as pessoas no centro.

Que outras estratégias podem ser usadas para que combater a solidão nesta quadra?

Ao nível mais individual e mais interpessoal, a investigação tem mostrado que a gratidão e a expressão de gratidão é um mecanismo muito importante para quebrar alguma dessas solidões. [Trata-se de] mostrar, lembrar e agradecer momentos em que essas pessoas nos ajudaram, ou em que foram importantes para nós. É uma prenda bonita, é um reconhecimento do seu valor, e é uma ajuda para que possam sair desses momentos tristes.

Há várias técnicas da psicologia positiva associadas à gratidão, como, por exemplo, escrever uma carta a uma pessoa que sabemos que está mais só, agradecendo-lhe aquilo que fez por nós e o papel que teve na nossa vida. Mais do que uns bombons, é uma prenda de Natal que calculo que uma pessoa que esteja sozinha, gostasse de receber.

Há exemplos internacionais ao nível das políticas públicas que pudessem ser replicados por cá?

O Japão e Inglaterra criaram o Ministério da Solidão. Não é um ministério como o nosso Ministério do Trabalho. Por exemplo, em Inglaterra, o que faziam era tentar perceber, para as medidas que se tomasse, se teriam impacto negativo ou positivo na solidão. Criar espaços para as pessoas se sentirem seguras e passarem tempo com outras, quer seja nas organizações, nos bairros, é muito importante para que estejam umas com as outras, outra vez, mais do que online.
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