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Professores deslocados partilham boleias para aliviar orçamento. “Há dias em que fazer esta viagem é um martírio”

02 out, 2023 - 08:00 • Miguel Marques Ribeiro

Nos últimos anos, as redes sociais ajudaram a criar um fenómeno de partilha de carros entre professores deslocados. Uma forma de dividir despesas e de tentar esticar o orçamento, perante a falta de apoios do Estado para transporte e alojamento. A Renascença acompanhou a viagem de três destes profissionais, entre Viseu e Lisboa.

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Professores deslocados partilham boleias para aliviar orçamento
Oiça o filme sonoro de uma boleia de professores entre Viseu e Lisboa.

Já passava das 20h de domingo quando Ricardo Fernandes estacionou o carro junto ao prédio de João Batista. Não teve que esperar muito pelo colega. Avisado momentos antes por mensagem, João despediu-se da família e começou a descer as escadas.

Ao ombro trouxe o estritamente necessário para a semana que vai passar longe de casa: uma mochila com as mudas de roupa, um almoço para o dia seguinte e a viola, para “dar música à pequenada durante a semana”, nas aulas de educação pré-escolar.

À mesma hora, a apenas alguns quilómetros de distância, Helena Batista ultimava os preparativos para também não falhar a hora combinada.

Os três formaram um grupo de boleias que partilha o carro para se deslocar de Viseu para a região de Lisboa, onde foram colocados para o novo ano lectivo. São professores que já estão vinculados ao Estado, mas não têm vaga na sua zona de residência.

O polegar em riste agora mostra-se no Facebook

Depois de apanhar Helena em Abraveses, o grupo arrancou em direção a sul. A professora primária teve conhecimento de que havia uma vaga disponível no carro através do Facebook. “O João falou-me do ‘Boleia de professores’ e depois respondi a um "post" do Ricardo sem saber que o João já tinha falado com o Ricardo”, explica Helena, que achou graça à coincidência. “Foi através das redes sociais que me apercebi mais das dinâmicas das boleias”.

Os domingos são sempre dias de despedidas para João, Ricardo e Helena. Foto: Miguel Marques Ribeiro
Os domingos são sempre dias de despedidas para João, Ricardo e Helena. Foto: Miguel Marques Ribeiro
A viagem de 300 Km entre Viseu e Lisboa faz-se pelo IP3, para poupar custos, e depois pela A1. Foto: Miguel Marques Ribeiro
A viagem de 300 Km entre Viseu e Lisboa faz-se pelo IP3, para poupar custos, e depois pela A1. Foto: Miguel Marques Ribeiro

Um interesse que veio mesmo a calhar para o Ricardo e o João, que estão neste sistema de partilha do carro há mais tempo e que decidiram continuar juntos este ano, depois de uma experiência bem sucedida em 2022/23. “O João já teve largas dezenas de companheiros de viagem e eu também”, refere Ricardo.

O mês de setembro é um período em que os professores deslocados reorganizam os grupos. Quando o novo ano letivo se inicia há sempre alguns elementos que é necessário substituir — normalmente por boas razões, quando significa que conseguiram a tão almejada vaga perto de casa.

"É um buraco que eu deixo vazio aos domingos à noite”

Para todos os outros, resta-lhes procurar a melhor forma de se deslocar. No caso de optarem pelas boleias, então as redes sociais desempenham um papel importante. É como se o braço esticado com o polegar em riste, sinal de pedido de boleia na berma da estrada, fosse literalmente substituído pelo “like” do Facebook.

“Há vários grupos [na rede social]. Nós temos este de Viseu, que é mesmo o 'Boleias Viseu-Lisboa', e depois os próprios professores também têm um que é o “Boleias de professores”, onde vão fazendo os 'posts' e colocando o dia, o local de saída, o horário e o número de lugares disponíveis”, explica João.

À saída da cidade, ao passar em frente ao quartel do exército, o educador aponta um grupo de carros estacionados na berma da estrada: “É tudo pessoal a trocar boleias. Este lugar é um ponto de encontro”. São quatro ou cinco veículos com os quatro piscas ligados — uma ínfima parte de todos os professores que se deslocam aos fins-de-semana pelo país, tanto de carro como de autocarro.

Só no grupo “Boleias de professores”, que é de acesso aberto, existem mais de 3200 utilizadores, integrando docentes de diversas áreas letivas e origens geográficas. Outros grupos de boleias têm um processo de triagem e é necessário preencher um questionário de admissão, que seleciona quem deve efetivamente entrar.

Um sistema com regras de conduta

Para chegar ao destino, em Lisboa, é preciso percorrer 300km, durante 2h30. “Isto já vai em piloto automático. Não há problema nenhum”, esclarece Ricardo, a quem coube levar o carro e conduzir. A maior parte do trajeto passa pela A1, mas o primeiro terço faz-se pelo IP3. Um “traçado mais perigoso”, reconhece João, a quem cabe normalmente o papel de copiloto, mas que permite “poupar algum dinheiro” em portagens.

Daí também a importância de sair cedo: “A vontade de ir é sempre muito pouca”, explica João entre risos, “mas já que temos de ir, ao menos que cheguemos a horas para podermos descansar, que amanhã é dia de trabalho”.

Esta é uma das regras que estão inscritas, de forma tácita, no manual de etiqueta de quem apanha boleias. Mas existem outras. Em primeiro lugar, é necessário assegurar o conforto dos passageiros, mesmo que isso signifique pagar um pouco mais. Um carro utilitário deve transportar no máximo quatro pessoas. Cinco já pode ser demais.

João, Ricardo e Helena partilham custos e desabafos nas 2h30 de viagem. Foto: Miguel Marques Ribeiro
João, Ricardo e Helena partilham custos e desabafos nas 2h30 de viagem. Foto: Miguel Marques Ribeiro
João, Ricardo e Helena partilham custos e desabafos nas 2h30 de viagem. Foto: Miguel Marques Ribeiro
João, Ricardo e Helena partilham custos e desabafos nas 2h30 de viagem. Foto: Miguel Marques Ribeiro

A pontualidade também é importante para não deixar ninguém à espera, sobretudo quando o inverno começa a bater à porta. Outra norma a respeitar é a bagageira ser distribuída de forma equitativa entre todos. Em princípio, cada pessoa deve levar consigo uma mochila e um saco de comida. Com algumas excepções, não há espaço para mais.

Manter a palavra dada também é fundamental, sob pena de não haver uma segunda oportunidade para fazer a viagem de uma forma mais económica. Um lugar vazio devido a desistências de última hora é sempre um prejuízo que vai penalizar o resto do grupo. Quem quiser fazer parte de uma boleia deve estar preparado também para entrar na reveza do carro, única forma de distribuir o desgaste do veículo entre todos.

Vinculados, mas longe de casa

O caminho é longo, a estrada pouco convidativa, mas o mais difícil para estes profissionais é mesmo deixar a família para trás.

Aos 45 anos, Ricardo Fernandes dá aulas ao primeiro ciclo numa escola do Lumiar, em Lisboa. Está vinculado há três anos, mas ainda espera uma colocação perto de casa. Enquanto isso não acontece, concorre em Lisboa, onde tem disponível a casa de um familiar.

São anos “a fazer esta estrada todos os fins de semana”, desabafa. A ausência de casa só é possível porque há uma “super mãe que toma conta das miúdas” e porque os pais, reformados, são o seu “braço direito”. Eles compensam “o buraco que eu deixo vazio aos domingos à noite”, afirma.

A história de João Batista tem curvas e contracurvas em tudo semelhantes ao percurso do colega. Com 41 anos, conseguiu vincular no ano passado, na zona de Lisboa. O próximo passo é conseguir uma vaga perto de Viseu.

“Estas pessoas que vêm connosco no carro, são elas que nos seguram também”

Com um filho de 11 anos, os domingos são vividos em família “até ao limite". Ao aproximar-se o fim do dia, começa a azáfama de preparar a viagem para sul. Essa é a parte do “acomodar as coisas que são necessárias para levar”, mas depois é preciso também acomodar a “parte mais difícil, que é o sentimento” do filho Duarte. O início do ano letivo é sempre mais complicado para o contexto familiar dos professores. “É o voltar a esta rotina. Deixar a casa, deixar tudo e ir embora”, explica.

A experiência de Helena Baptista, de 53 anos, tem sido, à imagem dos seus colegas, a de gerir uma vida profissional longe de casa e da família. Dá aulas desde 2001, à exceção de um intervalo de cinco anos que fez depois de o marido falecer.

Há quatro anos, estando as duas filhas já mais crescidas (hoje têm 17 e 20 anos), a professora do primeiro ciclo voltou à estrada. “Tomei a decisão de ir para o Alentejo para tentar vincular e vinculei este ano”, no agrupamento de Queluz. Ficou colocada numa turma do 2º ano, do primeiro ciclo.

Está em casa de uma prima e contribui para as despesas. O apoio da família tem sido fundamental. “É difícil deixar as duas [filhas] sozinhas em casa, mas acaba por ser um crescimento também para elas. Cá dentro isto vai moendo. É a distância e deixá-las a tomarem conta uma da outra”, afirma.

Concorrer "à volta da A1" para facilitar boleias

A poupança no orçamento mensal com as boleias pode ser significativa, de tal forma que muitos professores determinam as suas escolhas nos concursos em função da proximidade com os principais eixos viários. Muitos deslocados tentam concorrer “à volta da A1”, para depois “ser mais fácil combinar boleias”, explica João. “Quando se é colocado em Sintra ou numa das pontas de Lisboa já mais é complicado. Saindo à mesma hora, o ponto de encontro terá que ser uma hora ou hora e meia depois, o que inviabiliza muitas vezes poder partilhar boleias”, refere.

No entanto, o impacto vai muito além do aspeto financeiro. Há dias em que fazer a viagem é “efetivamente um martírio”, assegura Ricardo Rodrigues. Em alturas em que os problemas do quotidiano e as saudades da família se agudizam, a camaradagem do grupo de boleias acaba por fazer a diferença: “Estas pessoas que vêm connosco no carro, são elas que nos seguram também”, diz o professor primário.

“Acabamos por fazer uma viagem mais agradável”, confirma João Batista e “tornar isto mais leve, já que nos custa ir ao domingo”. Helena Batista também concorda: “Mentalmente, desgastam-nos bastante estas viagens, quando não temos ninguém para conversar, para partilhar um bocadinho do dia-a-dia”.

Nos últimos tempos, as escolas têm passado por um período de convulsão. As discussões sobre a atualidade da classe dos professores não vão parar à bagageira deste grupo de boleias. Pelo contrário. “No ano passado, quando se falava de um determinado tema, já se instalava logo o pânico”, lembra João Batista, entre risos.

As greves e as manifestações “têm um porquê", sublinha. "Nós não nos consideramos nem de perto nem de longe diferentes de qualquer outro profissional, mas gostaríamos de ver alguns direitos garantidos”, defende João.

Entre as reivindicações está a atribuição de um subsídio de deslocação, que compense a vida de “mala às costas” que caracteriza o quotidiano de muitos professores. Uma opinião secundada por Helena: “Ficar sem trabalhar não é uma opção. Há contas para pagar. Estar longe de casa e pagar duas despesas iguais, com o ordenado que temos, não é comportável”. Tudo isto “quando vemos pessoas do norte colocadas no sul e pessoas do sul colocadas no norte. Neste momento andamos todos ao contrário”, resume a docente.

Num ápice chegou-se a Alverca, para a primeira paragem, onde ficam o João e a Maria Helena, e pouco depois a Lisboa, destino do Ricardo. Vai começar mais uma semana de trabalho — e mais uma contagem decrescente até ao dia de regressar a casa.

Nos próximos dias hão de combinar a boleia de sexta-feira, eventualmente acrescentando um quarto elemento. Se possível, mantendo o mesmo grupo no domingo. E assim sucessivamente durante o resto do ano letivo.

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  • Luiz
    02 out, 2023 SANTO ANTÓNIO DOS CAVALEIROS 11:07
    Coitadinhos, nada que não superem com uma boa ração de bolota!

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