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Ranking das Escolas 2022

Um ranking para as Artes Visuais: e se contarmos três provas que os rankings costumam ignorar?

16 jun, 2023 - 00:00 • Salomé Esteves

Num ranking que só olha para os exames nacionais de Geometria Descritiva, Desenho e História da Cultura e das Artes, é a Escola Secundária Alves Martins, em Viseu, que lidera a tabela das Artes Visuais. E as privadas? Quase nem vê-las.

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As três provas centrais dos cursos de Artes Visuais quase nunca ajudam a fazer as contas para as melhores escolas do país, o que leva os rankings a inclinarem-se para as Ciências e Humanidades. Mas este ano, a Renascença produziu, pela primeira vez, um ranking exclusivo para os cursos científco-humanísticos de Artes Visuais.

A Renascença considerou escolas em que tivessem decorrido um mínimo de 50 provas, no conjunto de Geometria Descritiva, História da Cultura e das Artes e Desenho A, e em que as três provas tivessem decorrido.

Foram 75 as escolas que cumpriram os dois critérios e a melhor foi a Escola Secundária Alves Martins, em Viseu. No ano passado, a Renascença apurou que esta foi a melhor escola pública do país, no ranking geral das escolas secundárias.

No 2.º lugar do ranking das Artes Visuais, segue-se a Escola Secundária Francisco Franco, no Funchal, com menos três décimas e mais sete provas no total. Fecha o pódio a Escola Secundária do Restelo, em Lisboa.

Para Adelino Azevedo Pinto, diretor da E.S. Alves Martins, “é um orgulho muito grande” que a escola se tenha salientado nas provas de Artes Visuais. Com duas ou três turmas de artes por ano, no secundário, a escola investe na parte artística como “uma componente essencial dos dias de hoje para os jovens”.

O desempenho dos alunos do curso de Artes Visuais nos exames nacionais, defende o professor, “é sinónimo de que o espírito artístico, aqui no Interior, também está presente”.

Ambas as escolas secundárias artísticas portuguesas especializadas nas artes visuais ficaram entre os 20 primeiros lugares no ranking das Artes Visuais. A António Arroio, em Lisboa, ocupa a 5.ª posição, e a Soares dos Reis, no Porto, surge na 13.ª.

Para Rui Madeira, diretor da Escola Secundária António Arroio, a execução de exames nacionais para o acesso ao Ensino Superior é um “modelo esgotado” e “não está de acordo com as premissas do século XXI”, em que as instituições de Ensino Superior se demitem da seleção dos alunos que ingressam nos seus cursos.

Interessa-me que os alunos consigam tornar-se pessoas conhecedoras das áreas por que passaram na escola e que cheguem ao Ensino Superior, se assim o quiserem, com uma maior compreensão daquilo que é um curso de três anos, praticamente, a tempo inteiro.”

Numa escola em que, para um aluno, o dia tem sete horas e a semana 40, o “percurso não pode ser reduzido” a “uma hora e meia ou duas horas e meia em que se tenta demonstrar aquilo que se é, quando, na verdade, é-se muito mais do que aquilo que se demonstra”.

Nestas duas escolas artísticas, os alunos têm de concluir dois grandes momentos de avaliação: a Formação em Contexto de Trabalho e a Prova de Aptidão Artística. Rui Madeira realça que, ao contrário do que acontece no Ensino Superior público português, esta prova é muitas vezes usada, em portefólio, para o ingresso em universidades no estrangeiro.


Artes visuais: um ranking onde o privilégio não conta

Por não terem em consideração as mesmas provas, a posição de uma escola no ranking geral não tem relação com a sua colocação no ranking das Artes Visuais. Outras tendências usuais, como a predominância de Lisboa e do Porto e das escolas privadas nos primeiros lugares da tabela, não se verificam quando considerados os exames de Geometria Descritiva, de Desenho e de História da Cultura e das Artes.

Das 75 escolas neste ranking, apenas três são privadas e, nos primeiros dez lugares, todas as escolas são públicas. No espectro das primeiras 20 posições, estão representadas escolas do Norte, do Centro, do Sul e das Ilhas, do Litoral e do Interior, de centros urbanos, das periferias e de zonas rurais.

Enquanto o contexto socio-económico de uma escola tende a influenciar os resultados dos seus alunos nos exames nacionais e, portanto, a sua posição no ranking geral, nas três provas específicas de Artes Visuais esta distinção de privilégio não é tão vincada.

Por exemplo, com apenas mais uma prova, a Escola Secundária de Caldas das Taipas, em Guimarães, que está em 246.º no ranking geral, ficou 8 lugares à frente dos Salesianos de Lisboa, que ocupa o 7.º lugar da lista geral e que esteve sete vezes entre as dez melhores escolas do país, nos últimos 12 anos.

Na E.S. de Caldas das Taipas, quase um terço dos alunos do 12.º ano recebem apoio escolar. Ainda assim, o sucesso destes alunos nas três disciplinas centrais de Artes Visuais é equiparado aos alunos da escola privada no centro de Lisboa. A primeira teve uma média de 12,88 valores nas três provas e a segunda de 12,61.


Alunos preferem Geometria, mesmo que média vá aos negativos

Em 60 das 75 escolas deste ranking, a prova de Geometria Descritiva foi a mais concorrida. Mas a nota média foi negativa, inferior a 9,5 pontos, em 27. A escola que garantiu a média mais alta neste exame nacional, de 14,04 valores, é também aquela que ficou em primeiro lugar, a Escola Secundária Alves Martins, em Viseu.

Adelino Pinto, diretor da escola, atribui o sucesso na prova de geometria ao empenho dos alunos e à exclência dos professores. E acrescenta:

“Trabalho, trabalho, trabalho. Sem trabalho, os resultados não aparecem.”

Seis escolas tiveram mais inscritos no exame de História da Cultura e das Artes. Nesta prova, a média mais alta coube à Escola Secundária Pedro Nunes, em Lisboa, com 15,36 valores. Em duas escolas, a nota média foi negativa.

Já Desenho é a menos concorrida das três provas, sendo preferida pelos alunos em apenas cinco das 75 escolas, incluindo as duas artísticas, a António Arroio em Lisboa e a Soares dos Reis no Porto. A nota média mais alta desta prova, 17,34 valores, foi alcançada por uma das três privadas da lista, os Salesianos de Lisboa. Só uma escola, também a pior deste ranking, teve média negativa a Desenho.

À semelhança da prova que garantiu à Escola Secundária Pedro Nunes a nota mais alta a História da Cultura e das Artes, realizada por cinco alunos, vários exames decorreram com grupos pequenos. No total, 12 escolas realizaram uma prova com dez alunos ou menos.

Por outro lado, das 75 escolas neste ranking, apenas 11 têm mais de 100 provas. Destas, só a António Arroio e a Soares dos Reis alcançam as várias centenas, a primeira, com um total de 598 e a segunda com 406.

Dos três exames, é a prova de História da Cultura e das Artes que dá acesso a mais licenciaturas e mestrados integrados, com um total de 134, nas áreas da História, das Artes, da Conservação e Retauro, Design e até Música.

As provas de Geometria e de Desenho podem ser utilizadas no ingresso a, respetivamente, 130 e 111 licenciaturas e mestrados integrados, principalmente nas áreas da Arquitetura, do Design e da Moda.


Breve história de desamor entre os rankings

Desde 2019, o ranking da Renascença considera as oito provas mais concorridas em escolas que somam 100 destes exames. Este ano, estas provas são Biologia e Geologia, Economia A, Filosofia, Física e Química A, Geografia A, Inglês, Matemática A e Português.

Nos últimos quatro anos, o ranking da Renascença não considerou nenhum exame de Artes Visuais, por estes nunca estarem entre as oito provas mais concorridas. O mesmo acontece com o ranking do jornal Público, que segue o mesmo critério.

Em orgãos de comunicação que consideram as dez provas mais concorridas, como o Observador e o Jornal de Notícias, a prova de Geometria Descritiva chegou a figurar nos rankings. Mas esta foi, em 2021, substituída pela prova de Inglês, que nesse ano somou mais inscritos. Desenho A e História da Cultura e das Artes não chegaram a ser incluídas.

Nos rankings em que a metodologia é mais alargada, como no da Agência Lusa, que considera 14 das 24 provas, ou o do Expresso, que tem em conta todas as provas, os três exames das Artes Visuais têm implicação na posição final de uma escola.

Nas três metodologias distintas, as posições das escolas com cursos de Artes Visuais e, em especial, as escolas artísticas António Arroio, em Lisboa, e Soares dos Reis, no Porto, variam drasticamente no ranking.

Quando os exames de Geometria Descritiva, História da Cultura e das Artes e Desenho A não são contabilizados na metodologia, as escolas que oferecem cursos de Artes Visuais são avaliadas pelas disciplinas de outras modalidades, ao passo que as escolas artísticas estão dependentes de notas de exames que não se alinham com a sua área de ensino.

No ranking de 2021, a Escola Artística António Arroio foi classificada como 31.ª escola no ranking e melhor escola pública (Lusa), 34.ª escola e segunda melhor escola pública (Expresso); figurou no 114.º lugar (Renascença) e no 141.º lugar (Público); e, finalmente, resvalou para a 610.ª posição (Jornal de Notícias/Diário de Notícias) e até para fora do ranking (Observador).

Por outro lado, no ranking de 2021 da Renascença, tanto a António Arroio como a Soares dos Reis estiveram entre as três escolas cuja média mais subiu desde o ano anterior.

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  • paulo serra
    23 jun, 2023 almeirim 15:51
    a situação da avaliação das artes visuais , nomeadamente Desenho A com um mínimo de 50 provas exclui inúmeras outras escolas onde os resultados foram excelentes. J´é injusto estas disciplinas não constarem para os rankings. Fazer exclusão dentro do próprio departamento ainda é mais injusto. Ficam valorizadas as escolas nos grandes circulos urbanos.
  • Alexandra Baptista
    22 jun, 2023 Ponta Delgada 19:36
    Esta estatística devia de expor o nº de alunos, por escola, que foi submetido a exame (se são internos, se são externos..... Esse aspeto também é relevante.
  • Alexandra Baptista
    22 jun, 2023 Ponta Delgada 19:35
    Esta estatística devia de expor o nº de alunos, por escola, que foi submetido a exame (se são internos, se são externos..... Esse aspeto também é relevante.
  • António Costa
    17 jun, 2023 Porto 18:11
    Bom trabalho! Parabéns.

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