Rankings das Escolas 2022

Melhor escola pública fica em Vouzela. No interior profundo, sem TPC's e rodeada de árvores

16 jun, 2023 - 00:00 • Liliana Carona

Na quinta das Regadas, com vistas para a Serra da Freita, Serra de S. Macário e Caramulo, está a melhor escola pública do país. Sem cafés ou superfícies comerciais ao redor, os ruídos da natureza fazem parte da rotina dos cerca de 400 estudantes da Escola Secundária de Vouzela. Dos 35 alunos que frequentavam o 12.º ano em 2022, 80% entraram no ensino superior.

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A Escola Secundária de Vouzela, que faz parte do Agrupamento das Escolas de Vouzela e Campia, foi a melhor escola pública no Ranking das Escolas de 2022, obtendo a melhor média do país. Fica em 33.º lugar da tabela – realizou 126 provas com uma média de 13,5 valores. No Ranking de 2021 tinha ficado em 73.º (subiu 40 lugares).

É a melhor posição de uma escola pública no Ranking das Escolas dos últimos cinco anos e a quarta escola que subiu mais a média em relação ao ano passado (+1,23 valores), sendo que no ano transato a melhor escola pública tinha ficado no 35.º lugar.

Neste estabelecimento escolar, a média da taxa de conclusão do 12.º ano ronda os 94%, as habilitações médias das mães correspondem ao 10.º ano e a dos pais ao 8.º ano. Outro dado a salientar é que 73% dos professores deste agrupamento estão nos quadros.

Numa aula de educação física, enquanto driblam uma bola de basquetebol no exterior, debaixo de 24 graus, com castanheiros à volta, estudantes da Escola Secundária de Vouzela adivinham a presença da comunicação social.

“Esta é a melhor escola, porque se proporcionam boas atividades, boa educação”, atira um dos alunos, interrompido por outra estudante que diz que a escola “tem bons campos e boa comida, está perto de casa, os professores ajudam no que é preciso, há bons professores e são brincalhões, e tem muitos apoios para os alunos com mais dificuldades”.

Alunas de 2019 regressam à escola. É "um choque"

Têm na ponta da língua os motivos que fazem a Escola Secundária de Vouzela ser a melhor escola pública do país. Garante quem lá estuda e também quem lá estudou.

Anabela Pinto, 51 anos, encarregada dos assistentes operacionais, reconhece as duas alunas que se aproximam. “Estão mulheres feitas e com outra mentalidade. Não fico admirada, temos um corpo docente muito bom e os assistentes operacionais acolhem muito bem, o que é meio caminho andado para terem boas notas. O segredo é [tratá-los] como se fossem nossos filhos. Tratamo-los bem, chamamos a atenção e eles acatam muito bem”, salienta Anabela, que se cruzou com as duas ex-alunas no Centro de Saúde de Vouzela.

Bárbara Almeida e Patrícia Almeida, ambas de 21 anos, partilham o apelido e uma amizade que se arrasta desde o secundário. A futura enfermeira e futura médica, respetivamente, estão a estagiar no Centro de Saúde de Vouzela.

Para trás o reconhecimento dos seis anos passados na Escola Secundária de Vouzela. “Dávamos muitas voltas à escola, que é um espaço muito aberto, recordo os professores e a relação com eles. Havia muita natureza, havia as árvores com castanhas que comíamos. Entrei na minha primeira opção - enfermagem em Viseu - e termino este ano. Senti que fui bem preparada. É uma escola pequena, onde todos se conhecem. Senti falta de professores e auxiliares”, sublinha Bárbara, comovida, sem deixar de se surpreender com o ranking.

“Surpreende-me sempre um bocadinho, porque é uma escola num meio mais fechado. É um orgulho ter feito parte desta escola que está novamente nos rankings”, nota.

Também Patrícia Almeida, 21 anos, natural da localidade de Ventosa, concelho de Vouzela, admite as saudades. “Passava bastante tempo na biblioteca, no 12.º ano. Tínhamos disciplinas que podíamos escolher e até escolhi uma a mais que foi Biologia. Estudava quase sempre ao ar livre. Eles esticaram a biblioteca”, observa ainda a estudante de Medicina da Universidade de Lisboa.

Bárbara também está surpreendida com a nova aparência da escola. “Mudou muita coisa. O campo é azul agora, muita coisa diferente, faz impressão, o espaço está mais aberto. Eu vim cá há dias fazer saúde escolar e foi um choque. Parecemos idosos a falar, mas a escola mudou bastante de 2019 para agora”, conclui.

Pandemia foi tempo de obras

São várias as alterações ocorridas desde 2019. As diferenças resultam de obras que aconteceram durante a pandemia, explica José Alberto Pereira, 57 anos, professor de informática desde 1991, e diretor do Agrupamento de Escolas de Vouzela e Campia há 10 anos. “Desde 1986 que existe este espaço e, em 2019, decidimos começar as obras que se prolongaram no contexto de pandemia. Tivemos de nos reorganizar. Tivemos de ter aulas diferenciadas, concentradas no período da manhã ou da tarde, o que não foi benéfico para os nossos alunos, mas com as questões de saúde e com obras em simultâneo foi a melhor solução", descreve.

O diretor acrescenta que continuam "a ter obras, agora no pavilhão, mas, em conjunto com a autarquia, as dificuldades têm sido ultrapassadas”, ressalva o responsável, que aponta outros motivos que contribuem para a qualidade do ensino. “É um privilégio trabalhar neste contexto ambiental, fica à parte do centro da vila de Vouzela. Normalmente vemos as escolas no centro. Não temos superfícies comerciais e, por isso, procuramos criar um conjunto de opções que possam dar resposta aos anseios dos nossos alunos".

"O trabalho de proximidade que é desenvolvido, a ligação que temos com os alunos, com total disponibilidade e sempre a privilegiar a ligação da escola com a família. Um conjunto de medidas que temos vindo a adotar, nas disciplinas mais nucleares com oficinas, de forma que o terceiro ciclo venha bem consolidado, com tutorias, salas de apoio”, enumera o diretor do Agrupamento, sem deixar de assumir que a escola, sem cafés ou outros atrativos comerciais ao redor, pode não ser a escolha número um para muitos alunos.

Não há trabalhos para casa e exposições culturais são constantes

O espaço B+ é um espaço que tem sempre professores ao final do dia para dar apoio a diversas disciplinas e os alunos “levam as coisas mais ou menos resolvidas para casa com resolução de fichas, preparações para apresentações orais, dúvidas". "A ideia é que o aluno enquanto está na escola dê resposta às solicitações escolares. Temos também no caso de físico-química, uma forma de fazer um teste intermédio para prepararmos um contexto real de exame”, expõe o diretor José Alberto Pereira, acrescentando que o objetivo “é que os estudantes possam ter tempo com a família”.

A cheirar a novo, depois da requalificação, o estabelecimento escolar tem outras características que o tornam único. Os alunos e alunas do secundário não levam trabalhos para casa, revela Tiago Gonçalves, a frequentar o 12.º ano, com média de 16, que quer ser professor.

“Sempre foi algo que considerei, eu sempre gostei de aprender e gostava de ensinar, porque enquanto ensinamos também aprendemos. Nós não temos trabalhos de casa desde o 9.º ano. Não temos trabalhos de casa, trabalhamos de forma mais autónoma, estudamos e sabemos o que temos de fazer. A mais-valia é que não é uma escola muito grande e temos uma relação muito próxima com os professores, o que facilita o ambiente das aulas”, declara o estudante da área de Humanidades.

Mas há outras dinâmicas nesta escola de Vouzela, aponta João Santos, também no 12.º ano, com o sonho de ser advogado e média de 19. “Não estranho que seja esta a escola número um. A ligação que temos com os professores, mesmo entre nós colegas, o ambiente em si, temos muito apoio. Eles estão sempre prontos para ajudar fora do contexto da disciplina e somos trabalhadores, queremos ser melhores, é um efeito de vivermos no interior, queremos emancipar-nos. Esta escola também se empenha muito a ensinar os alunos fora de aulas, com atividades que podem parecer simples, mas ensinam. Por exemplo, no dia das línguas tínhamos cartazes espalhados pela escola com 'QR codes' que tinham várias informações sobre português e poesia, e o aluno se tiver curiosidade, descobriu alguma coisa”, conta, ao mesmo tempo que observa a exposição patente no corredor, dedicada ao tema: “Mulheres na Ciência”.

Professores são mesmo exigentes e chegam apenas as aulas

Quem está do lado de fora da escola vê um grau de exigência elevado. A mãe e encarregada de educação Teresa Figueiredo, 52 anos, consultora de seguros, com o 12.º ano de escolaridade, tem três filhos com percursos diferentes na escola de Vouzela.

“A Bárbara que tem 21 anos passou por esta escola. Depois tenho o Rodrigo que está no 12.º ano, no curso de Desporto e o meu André, 15 anos, que está no 10.º. Este meu mais novo não pega num livro. Diz que o que ouve lhe chega”, sorri.

A proximidade com os professores é realçada por Teresa Figueiredo. “Na rua abordamos os professores, o que acaba por nos tornar mais próximos. Eles são muito exigentes. É uma escola pequenina, como se fosse uma família. E os pais, de facto, não têm grande grau de escolaridade. Se calhar o mérito é da escola, não? Eles têm um quadro de docentes bom e fixo e são muito exigentes. Os testes que fazem são todos baseados em exames nacionais”, relata.

A exigência é confirmada pela professora de português, Noelma Viegas, 56 anos, há 32 anos professora de português. “Estou há quatro anos nesta escola, mas estou nos quadros desde que saí da universidade. Naquele tempo era fácil, na década de 90, e tenho feito a minha vida profissional ao sabor das minhas decisões pessoais, se mudo de escola é porque quero”, começa por destacar.

Sobre os resultados no ranking, Noelma fala numa identidade comum. “Eu acho que este é o contributo para a identidade de uma escola, distingue-se de outras e depende da equipa de professores que está aqui há muitos anos e que constrói essa identidade. Vejo um clima favorável à aprendizagem, trabalho com alunos que dizem 'bom dia' e 'até amanhã, professora'. Consigo ter conversas com eles fora dos conteúdos. Tenho experiências de outras escolas e havia alturas em que não era possível, em que os alunos se envolviam em conflitos e isso aqui não acontece. Há condições para dar aulas. São jovens e também usam redes sociais, mas há sempre envolvimento com a escola. Os professores envolvem-se porque os alunos estão interessados e vice-versa, há um clima de reciprocidade”, assegura.

O clima, a paisagem, os alunos, os professores, os auxiliares, a Escola Secundária de Vouzela parece estar bem localizada.

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