Rankings das Escolas 2022

​Escolas desfavorecidas. “Teach for Portugal” combate o insucesso a quatro mãos

16 jun, 2023 - 00:00 • Cristina Nascimento

Dentro da sala da aula, com o professor da disciplina, está um mentor desta ONG. Ajudam com a matéria, criam ligação aos alunos, ensinam a estudar. Por vezes basta explicar uma palavra que o professor disse, mas que o aluno não entendeu.

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O ano letivo está no fim, mas ainda há tempo para uma visita de estudo. Autocarro parado à porta da escola, os alunos vão subindo um a um, depois de ouvirem o seu nome.

Vão de visita com a escola, algo que muitas vezes não podem fazer com os pais ou outros familiares.

"São alunos que estão inseridos em famílias com muitas dificuldades e muitas vezes sozinhos no processo de aprendizagem", diz à Renascença Fátima Domingues, mentora da "Teach for Portugal", que, no ano passado, quando veio para esta escola, ficou chocada. “Não imaginamos que ainda há escolas assim”, admite.

Estamos na Escola Básica do Alto do Lumiar, em Lisboa. No Ranking das Escolas 2022, no ano em que voltaram a ser listadas as escolas do 9.º ano, esta é a que fica no fundo da tabela, com uma média negativa de 18,7%.

Esta é uma das 31 escolas do país, todas inseridas em contextos desfavorecidos, em que a “Teach for Portugal” marca presença. Esta organização não governamental (ONG) está em Portugal há apenas quatro anos, mas para alunas como Ana ou Carolina já é indispensável.

“Eu senti muito a diferença. Agora que está a professora de ajuda [mentora da Teach], ela ensina melhor, quando o professor fala palavras diferentes e temos dúvidas, ela vem até nós e explica-nos com palavras que a gente entende e fica mais fácil de perceber”, descreve Carolina, 12 anos, aluna do 6.º ano. Ao seu lado, Ana corrobora.

“Quando o ‘stor’ está a explicar e às vezes as pessoas têm dúvidas, para não interromper a aula, perguntamos à ‘stora’ [mentora da Teach] e a ‘stora’ até explica de uma maneira mais fácil.”

Dois adultos na sala de aula, um professor e um mentor

É assim que esta ONG trabalha: na escola, na sala de aula, em colaboração com os professores.

Fátima Domingues, mentora na Escola Básica do Alto do Lumiar, está pelo segundo ano letivo nesta escola e assegura que foram “muitíssimo bem recebidos”.

“É uma escola que, por norma, já está muito aberta à realização de projetos e a todas as medidas que têm como finalidade melhorar as aulas e o percurso dos alunos”, descreve, assegurando que a maioria dos professores “são colaborativos connosco, recebem-nos e estão motivados”. Até já há alguns que sugerem a presença dos mentores dentro das suas salas de aula.

Fátima Domingues anda pela escola e é abordada com alegria pelos alunos. Comentam os mais recentes feitos escolares e a mentora não poupa nas palavras de incentivo, até porque muitas vezes não as recebem em casa.

“Os contextos familiares dos alunos nem sempre são os melhores, muitas vezes famílias monoparentais, ausência dos pais porque estão a trabalhar sem poderem prestar o devido acompanhamento escolar aos alunos, e temos uma taxa de absentismo muito grande.”

Em muitos casos falta também o essencial. “São contextos socioeconómicos complicados, muito nível de desemprego, os pais têm baixa escolaridade”.

“Isso tudo condiciona de facto a vida destes alunos, a maior parte tem apoio escolar [ação social escolar]. Muitas vezes sentimos que aquilo que falta em casa, a pobreza, condiciona o percurso e o sucesso destes alunos.”

Fátima Domingues é uma das 46 mentoras da “Teach for Portugal”, número que no próximo ano letivo deverá quase redobrar, para cerca de 70. Assim o explica Maria Azevedo, co-fundadora em Portugal desta organização, que nasceu há mais de 30 anos nos Estados Unidos da América.

“Oportunidade e sucesso” sem interferência do código postal

À Renascença, Maria Azevedo conta que, com Pedro Almeida, co-fundador da “Teach for Portugal”, houve a oportunidade de conhecer o trabalho desta organização lá fora, no Reino Unido e em Espanha. Quando voltaram, decidiram pôr mãos à obra.

“Sentimos a necessidade de devolver à sociedade a sorte que tínhamos tido, o privilégio e as oportunidades que fomos tendo.”

Maria Azevedo explica que a “’Teach for Portugal’ tem uma visão ambiciosa de que é possível que cada criança tenha uma vida de oportunidade e de escolha, independentemente do local onde nasceu, da realidade do código postal”.

No terreno contam com a ajuda dos mentores que, entenda-se, não são voluntários. “Trabalham a tempo inteiro, metade do tempo em contexto letivo, metade do tempo em outros projetos que aproximem a comunidade da escola.”

Pelo trabalho desenvolvido recebem um salário mensal de 850 euros, valor que no próximo ano letivo deverá subir para perto de mil euros. E de onde vem esse dinheiro?

“O nosso financiamento é público e privado. Temos parcerias com municípios e comunidades intermunicipais que têm interesse em implementar o nosso programa nas suas escolas e depois temos um conjunto de outros parceiros do setor privado que querem ser parte desta mudança”, para além “do financiamento europeu, neste caso, do Portugal 2030”.

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