Siga-nos no Whatsapp

Há quartos para arrendar por mais de 2 mil euros em Lisboa. "Mercado é informal e tem pouca transparência"

24 mar, 2023 - 07:30 • João Carlos Malta (texto), Salomé Esteves (gráficos e imagem)

No dia em que termina a consulta pública do programa "Mais Habitação", que decorreu no último mês, a Renascença olha para o mercado de arrendamento de quartos. Os preços médios no ano passado rondavam os 450 euros, mas agora uma pesquisa nos principais agregadores de ofertas tornam difícil encontrar um quarto por menos de 600/700 euros.

A+ / A-

Há quem esteja a pedir 2 mil euros por mês pelo arrendamento de um quarto. Mais precisamente 2.057 euros, em Alcântara, Lisboa. Podia ser apenas um caso não representativo da realidade, mas uma pesquisa nos principais agregadores de ofertas deste mercado permite encontrar muitos anúncios com preços muito altos, que começam nos 600 euros mas que podem atingir valores de 1.000 ou 1.500 euros.

O especialista em mercado imobiliário e CEO da Century 21, Ricardo Sousa, explica estes preços com “uma oferta bastante limitada nas soluções de casas partilhadas”, “que causa uma enorme pressão da procura”.

“O que temos em Portugal são soluções inferiores ao co-living, modelo que tem serviços associados, o que torna os preços pedidos ainda mais caros”, diz à Renascença.

A jurista Mariana Almeida, especialista da DECO em imobiliário, adianta que os valores pedidos pelos quartos se enquadram num mercado que “todo ele está inflacionado”.

A mesma jurista também afirma que a “grande procura e pouca oferta faz com que haja naturalmente esse tipo de práticas”. No entanto, argumenta que não se pode ficar de braços cruzados. “Tem de haver naturalmente alguma regulação e muito orientada. Estamos a tentar sensibilizar o Governo para este facto”, afiança.

O site Idealista, no tratamento que faz dos anúncios ali publicados, e que contempla apenas alguns distritos do país, encontra uma redução de oferta, entre julho de 2022 e julho de 2021, que vai de menos 39% em Coimbra até menos 84% no Porto. Em Lisboa, a variação é também negativa: menos 77%.

Segundo a mesma fonte, os valores médios pedidos pelos quartos subiram 18% na capital e 20% no Porto.

Sobre estes números, o CEO da Century 21 em Portugal e Espanha refere que, com a informalidade deste mercado e a falta de estatística fiáveis com séries históricas que possam ser trabalhadas e analisadas, “é muito difícil percebermos as tendências e o que as justifica”, e adverte que não há informação sobre se os valores que são publicitados são os que são contratados no final.

Ainda assim, o que se sabe permite dizer que se “praticam valores extremamente altos para aquilo que é o poder de compra, o rendimento disponível dos jovens, que são os que maioritariamente recorrem a estas soluções de habitação, quando vão estudar, quando estão a trabalhar ou quando estão numa fase de transição, porque o que é evidente hoje em Portugal é que estar numa casa sozinho é praticamente inviável”.

Os valores praticados em muitos dos anúncios de quartos superam em muito aquilo que uma família em Portugal pode despender no arrendamento de quartos.

Silêncio absoluto por 1.500 euros por mês

Voltando aos anúncios que se podem encontrar em sites como “OLX”, “Idealista” ou “Imovirtual”, na oferta que pede mais de 2 mil euros podemos ver que o quarto de 35 m2 tem casa de banho privativa, televisão, e a utilização de espaços comuns como um terraço e a cozinha.

O promotor do anúncio diz que a escolha dispensa visita e que tudo é tratado online, porque alega dispor de uma equipa que salvaguarda a qualidade dos imóveis e negoceia tudo com os senhorios.

Numa outra oferta também em Lisboa, no Largo da Graça, há um quarto num sótão a arrendar por 1.500 euros. Aquele espaço tem dois quartos, o que faz com que o sótão renda potencialmente 3 mil euros ao senhorio. No final do anúncio está escrito que se procura alguém com idades entre os 31 e os 45 anos e que “não é permitido receber visitas”. A partir das 22h00, adverte-se ainda, “o silêncio terá de ser absoluto”.

Se antes o mercado dos quartos estava largamente ligado aos estudantes universitários, a subida galopante de outras soluções para encontrar uma habitação obriga a que cada vez mais jovens em início de carreira, se não mesmo em fases adiantadas da vida profissional, sejam obrigados a procurar espaços mais pequenos por incapacidade monetária.

A juntar a isto há também a realidade dos imigrantes que chegam a Portugal, alguns indocumentados, que encontram neste mercado informal dos quartos a única solução para terem uma cama.

Um outro anúncio que foi alvo de muitas críticas nas redes sociais é o de um sótão em Lisboa, no Beato, com oito camas, cada uma com um custo de 200€/mês, afiançando o promotor da oferta que o gel de banho, o detergente e o amaciador para a roupa e os lençóis para a cama e cobertores são gratuitos. No fim, pede caução de um mês.

OuvirPausa
"É um mercado informal com pouca regulamentação existente, o que torna difícil para os jovens terem de forma transparente acesso às ofertas disponíveis e aos preços", Ricardo Sousa, CEO da Century 21 Portugal e Espanha.

Há quem reaja a este anúncio negativamente, afirmando: “Como fazer 1600€/mês com o desespero de outros não tendo um pingo de noção ou bom senso. Prémio do dia para mais um tesouro deprimente!”. Contudo, há também quem contraponha: "Há muita gente rica por aqui. Ainda bem, já que acham esta oferta um absurdo! Há muita gente que daria tudo para ter um espaço assim!”

Ricardo Sousa afirma que os jovens são os que mais recorrem a este tipo de solução de habitação e acabam por ter de se deparar com a pouca transparência da oferta disponível, o que os deixa vulneráveis a situações de abuso.

“Em muitos dos anúncios que são publicados não são conhecidas as fontes e há vários casos de algum abuso e corrupção. Há anúncios falsos que levam pessoas a entregar dinheiro ou depósito para algo que, na realidade, depois não existe.

O especialista alerta ainda que a maior parte da promoção do arrendamento dos quartos se faz nas redes sociais e nos “marketplaces” dessas redes, o que leva “a uma grande exposição ao risco".

OuvirPausa
"Não nos podemos esquecer do contexto em que os preços estão inflacionados e da falta de oferta se soma ao aumento da procura", Mariana Almeida, jurista da Deco.

A falta de fiscalização é outro problema para quem quer encontrar um quarto. É isso que alerta a DECO, que se diz cada vez mais preocupada com a realidade atual.

“O que decorre dos estatutos do IHRU é a necessidade de fiscalizar o mercado de arrendamento. Agora como é que é operacionalizada, como é feita, como é realizada − por exemplo em relação aos estudantes universitários − não sabemos, e nem há números que nos venham dar essa indicação”, diz.

A Renascença pediu esclarecimentos ao Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), mas até ao momento não obteve resposta.

Também Ricardo Sousa alerta para o vazio legal que existe neste mercado, sobretudo ao nível de quem anuncia, o que abre campo para um vasto número de abusos.

Apesar dos casos anteriormente apresentados, a média dos preços em Lisboa e no Porto, segundo o Idealista e o Observatório do Alojamento Infantil, situa-se entre os 430 e os 450 euros na capital, e os 350 e os 430 euros no Porto.

Olhando para aquela cidade do Norte do País, pode constatar-se que se multiplicam os anúncios de valores de mil euros e mais altos. Em Massarelos, há espaços de 8 m2 por 1.100 euros.

Moedas sem complexos com quartos para arrendar entre 695 e 1.096 euros

Na semana passada, o mercado de quartos conheceu uma polémica quando o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, inaugurou o espaço Nido, uma residência universitária privada, na zona do Campo Pequeno.

Com 380 quartos de 15 tipologias diferentes, com valores a oscilarem entre os 695 a 1.096 euros por mês, neste momento apenas tem disponíveis alojamentos a partir de 735 euros mensais. A categoria imediatamente a seguir, que ainda se encontra disponível, já custa 1.001 euros ao mês.

No Twitter, ao anunciar a abertura da nova residência de estudantes no Campo Pequeno, Carlos Moedas destacou: “Trabalhamos diariamente para aumentar a oferta de habitação: através do setor público e do privado, do setor social e cooperativo.”

A declaração provocou muitas reações, a maior parte negativa, como esta: “Vergonhoso. O cidadão comum mal tem dinheiro para comer e para pagar a renda, mas a Câmara de Lisboa vem anunciar a abertura de uma residência cujo preço médio por quarto é de 700€. Vergonhoso”.

Em declarações ao Público, o autarca respondeu às críticas, afirmando que “o trabalho para aumentar a oferta a este nível deve ser feito em todas as frentes, com os contributos de todos os setores e não marginalizando ninguém”.

E acrescentou que “agradece sempre, sem complexos, o investimento privado, que neste caso ascendeu a 150 milhões de euros na cidade”, destacando que “o grave problema da habitação, e em particular das residências para estudantes, só pode ser resolvido com mais investimento público”.

Entretanto, esta quinta-feira, em declarações à Renascença, a presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Mafalda Borges, diz que por cada 1.000 estudantes colocados em universidades e institutos politécnicos, pelo menos 106 não chegam a formalizar a matrícula ou são forçados a desistir da ideia de tirar um curso superior por razões económicas.

“Cerca de 10,6% dos estudantes que ficaram colocados em instituições do Ensino Superior nunca chegaram a matricular-se, porque não conseguem alojamento ou não conseguem pagar as propinas”, diz.

O número é “preocupante” e “nós temos tido muito esta discussão na nossa faculdade: ao longo do ano, quais são os estudantes que desistem do ensino superior e quais as razões?”

Sem se comprometer com um número exato, Mafalda Borges confirma que os pedidos de ajuda são “certamente muitos mais do que no ano letivo passado e há mesmo muitos relatos em torno da questão do alojamento, de estudantes à procura de alguma ajuda da nossa parte de alguém que nós possivelmente possamos conhecer que estivesse a arrendar um quarto mais barato”.

Por fim, em relação aos cuidados a ter por quem procura casa, a jurista da DECO Mariana Almeida enfatiza a questão dos contratos de arrendamento que, muitas vezes, “não são coincidentes com a informação nas plataformas”.

E soma outro conselho: o de ler bem todas as cláusulas do contrato e caso não perceba alguma coisa “contacte um especialista”.

Já Ricardo Sousa sugere que o consumidor valide bem a fonte do anúncio online, e que antes de fazer qualquer tipo de pagamento faça pelo menos uma visita ao espaço.

Neste aspeto, pede especial cuidado com os pedidos de transferências por MB Way, porque “se pode tratar de uma burla”.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Destaques V+