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Dia mundial da Criança

Literacia Mediática também é assunto de crianças. Que notícias veem os mais novos?

01 jun, 2022 - 08:00 • Maria Costa Lopes

Consomem poucas notícias, mas são influenciados pela informação que lhes entra pelos olhos, via televisão e redes sociais. Os pais e a escola são muito importantes no processo de compreensão dos mais novos sobre a atualidade. No Dia da Criança, perguntamos: como é que as crianças consomem informação?

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Que notícias veem os mais novos?

No início do ano, eram poucas as crianças portuguesas que sabiam nomear a capital ucraniana; agora, não só estão familiarizadas com Kiev, mas também com outras cidades, alvos de atentados da invasão russa à Ucrânia.

É o caso de Mateus, de 11 anos, estudante do sexto ano da escola básica Professor Delfim Santos. A última notícia que viu foi um bombardeamento à cidade ucraniana de Mariupol. Como ele, também Miguel, Jorge, Eduardo e João dizem que a Guerra na Ucrânia é o principal assunto que veem nas notícias nos últimos tempos. A invasão militar da Ucrânia pela Rússia tem sido alvo de grande mediatização pelas principais fontes de informação e meios de comunicação internacionais.

Mas no caso das crianças, o consumo destas notícias não é propriamente intencional. As crianças “não têm o hábito de consumir notícias, nem de ler notícias em jornais”, explica à Renascença Sara Pereira, investigadora e professora na Universidade do Minho, atualmente a trabalhar num estudo para dar voz a crianças e jovens, entre os 11 e os 18 anos, com o objetivo de conhecer e problematizar a sua relação com os media.

A televisão no seio familiar

Seja de manhã, enquanto tomam o pequeno-almoço, como é o caso do Mateus, ou à hora do jantar, como Matilde e Eduardo, as crianças portuguesas consomem primariamente notícias na companhia dos pais.

A televisão é tida como o meio de referência das famílias portuguesas e a hora das refeições é a altura preferencial para ver as notícias. O meio já não tem a mesma predominância que tinha nos anos 90 ou 2000, altura em que a televisão era um centro do quotidiano familiar, mas está ainda muito presente no consumo de notícias das famílias portuguesas e acaba por ser o principal contacto dos jovens com a informação, conta a investigadora.

“Alguns fazem-no porque reconhecem que gostam, outros dizem que estão ali porque os pais querem ver as notícias, mas não têm propriamente interesse.”

Apesar de ainda ser importante, a televisão já não é o único meio de consumo de notícias entre os mais novos. Miguel, com 11 anos, diz que não costuma ver televisão - recebe as notícias quando vai ao Google, no computador. Também João, de 12 anos, diz que quando faz trabalhos para a escola, no computador, lhe aparecem algumas notícias que lhe despertam a curiosidade e ele fica a ver.

Em ambos os casos, a maioria dos jovens portugueses acede às notícias de forma “passiva e pouco criteriosa”, adianta a investigadora da Universidade do Minho, doutorada em Estudo da Criança. No caso das redes sociais, ou das sugestões dos motores de busca, é o algoritmo a ditar o que consomem; no caso da televisão, acaba por ser o canal que está ligado no momento em que estão a consumir.

Professores e família fazem de mediadores

Para Mateus, a professora de História e Geografia de Portugal teve um papel significativo quando começou o conflito armado na Ucrânia, porque o ajudou, e aos restantes colegas da turma, a tomar conhecimento dos eventos e tranquilizar os alunos.

Já Matilde, da mesma turma, diz confiar nas notícias que vê na televisão porque os pais não a iriam pôr a ver algo que não fosse verdade.

Sara Pereira explica que o que está aqui em causa é a “mediação do adulto significativo”, que podem ser os pais, irmãos mais velhos ou professores. São eles que ajudam os mais novos a fazer a leitura do mundo, introduzindo diferentes dimensões para essa mesma leitura.

Foi o que aconteceu quando a guerra da Ucrânia começou a dominar os noticiários. “Há alguma preocupação por parte destas crianças sobre a questão da guerra e, portanto, conversam com os pais sobre aquilo que está a acontecer”, explica.

A professora universitária defende o importante papel da escola para abrir a discussão e ajudar os jovens a compreender o acontecimento a partir de diferentes pontos de vista.

Um dos objetivos da Literacia Mediática hoje não é só ajudar os jovens a ler e procurar informação, mas informação de qualidade. Se, por um lado, eles já estão conscientes dos perigos e dos riscos associados à informação falsa, compete-nos agora dar-lhes as ferramentas para que possam reconhecê-la, reitera a investigadora.

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