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Seca. Pastores falam em “situação extremamente preocupante”

10 fev, 2022 - 07:31 • Liliana Carona

A falta de chuva preocupa os pastores da Serra da Estrela, que reivindicam mais apoios e incentivos para um setor que admitem correr o risco de extinção. Se as previsões de pouca ou nenhuma chuva se mantiverem até ao final do mês estão previstas quebras na produção de queijo DOP na ordem dos 35%.

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Pastores falam em “situação extremamente preocupante” - reportagem de Liliana Carona
Ouça aqui a reportagem da jornalista Liliana Carona

Ao longe, uma nuvem de pó... são as 270 ovelhas de Ricardo Pimenta, 43 anos. Pastor toda a vida, herdou do pai a exploração em Vinhó onde diariamente faz a ordenha manual. Não questiona o amor à camisola, mas a seca está a complicar-lhe a vida.

“Isto é atípico, não é normal. Esta nuvem de pó à passagem das ovelhas é uma imagem a partir de junho, julho. Em situações normais, este pasto de centeio e trigo, que está completamente cortado, teria um palmo”, observa o pastor que é representante da Associação de Pastores e Produtores do Queijo da Serra da Estrela, do concelho de Gouveia.

A chuva que tarda em cair preocupa os cerca de 80 pastores associados da APROSE, representados por Ricardo Pimenta que considera existir “um problema bastante grande”. As ervas não desenvolvem, porque a ausência de chuva e o muito vento desidrata as plantas, causando “mossa na alimentação de animais de pastagem em regime extensivo que é 90% de alimentação de pastagem”, explica.

Localizada em Vinhó, a exploração de Ricardo Pimenta com 270 ovelhas Serra da Estrela, produz leite para queijarias DOP, certificadas, onde já se sentem os efeitos da seca prolongada.

“Já se começa a notar uma quebra na produção por todas as explorações, umas sentem mais que outras, mas há quebras na ordem dos 15%. Se se mantiver este regime de seca até ao final do mês, a produção de queijo DOP poderá ser afetada entre 30 a 35%”, contabiliza o representante da APROSE, realçando que se tem menos erva, a produção de leite é também inferior.

"Ainda tenho stock de feno, mas muita gente já recorreu à compra dele”, alerta, sublinhando: “este rebanho se fosse tratado em regime intensivo e totalmente a fenos, a qualidade do leite não seria esta e depois isso refletia-se no sabor”.

Com receio de que as previsões se confirmem "de apenas chuviscos", Ricardo Pimenta fala num problema imediato e a longo prazo, pois “vai trazer uma primavera com défice de precipitação e depois no verão será o caos, este ano nevou muito pouco para alimentar as nascentes na serra e a situação está extremamente preocupante, como há muitos anos não via, lembro-me de um ano assim em 2003, 2004”, recorda.

Assim, pede que o Estado não se esqueça de apoiar os pastores, antes que seja tarde.

“O sentimento é geral, tenho a perceção de todos os ângulos desde o criador ao transformador, queijarias. Vai afetar todos, porque as pessoas têm contratos com quem fornecem e depois não têm quantidades para honrar os compromissos. Se as previsões meteorológicas se concretizarem e a chuva tardar, o Estado terá de ajudar. Há produtores que ponderam vender gado, é logico que terá de haver intervenção do Estado, sob pena de haver mossa a nível de número de efetivos”, assume.

Abandono do interior põe em causa futuro da pastorícia

Com apenas 15% dos pastores com idade inferior a 50 anos e com poucos incentivos, há receios pelo futuro da profissão e do queijo Serra da Estrela.

Ricardo Pimenta salienta outras dificuldades a par da seca: “Os terrenos estão cada vez mais abandonados, é importante que quem de direito crie fatores aliciantes à fixação de pessoal jovem nesta zona do interior. E mesmo quem nos quer visitar, sente que tem várias barreiras, pagar portagens, por exemplo, e a agricultura vai ter de ter um estímulo grande para fixar e dar formação”, adverte o pastor, colocando uma meta temporal para inversão da tendência de extinção.

“Está aqui a fronteira, entre 2020 e 2030 entre o sucesso e o terminar, se nesta década não houver condições para as pessoas trabalharem, corre o risco de se extinguir a produção de queijo da serra e o fim de um dos produtos mais conceituados do mundo. E já que toda a gente fala na ‘bazuca’, vamos ver se é aplicada em todos os setores”, conclui, afirmando que “são precisos mais rebanhos e mais pessoas empreendedoras a defender as raças autóctones”.

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  • Ivo Pestana
    10 fev, 2022 Madeira 21:01
    Precisamos de mais Alquevas...e evitar desperdícios. Na minha terra corre muita água para o mar e ninguém quer saber. Até um dia.

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