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A pandemia vista pelas ciências sociais

João Sardinha: “Emigração vai aumentar, mas não vamos chegar aos números” do tempo da troika

03 mar, 2021 - 07:00 • Fábio Monteiro

Períodos de crise são sempre seguidos por ondas de emigração. Acontece que a crise provocada pela pandemia é global. Em entrevista à Renascença, João Sardinha, geógrafo e especialista em migrações, diz que não é claro “até que ponto as pessoas vão sair para procurar trabalho num sítio onde, se calhar, esses trabalhos também já não estão lá em abundância”. Para o especialista, é “imprevisível” quanto tempo vai demorar a recuperar.

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Em Portugal “fala-se demasiado, reage-se pouco”, diz João Sardinha, geógrafo doutorado em Estudos Migratórios pela Universidade de Sussex, no Reino Unido, em entrevista à Renascença.

Para o especialista, ter mais vozes das ciências sociais no grupo que decreta as medidas do estado de emergência não faz sentido. “Acabamos por perder aqui um bocado de tempo com tanta conversa vinda de diferentes áreas e disciplinas. Essa é a minha preocupação”, explica.

Nos próximos anos, a imigração para Portugal deverá continuar estável. Já a emigração tenderá a aumentar. Mas há uma questão no ar: “Até que ponto as pessoas vão sair para procurar trabalho num sítio onde, se calhar, esses trabalhos também já não estão lá em abundância?”

O geógrafo vê ainda com bons olhos as mudanças no regime dos vistos gold, que passaram a privilegiar investimentos no interior do país. “Acaba por favorecer futuramente aquilo que serão as áreas com menos população e menos desenvolvimento, e que precisam de atrair esse tipo de capital e de gente também para investir na recuperação ou desenvolvimento local”, diz.

Pela segunda vez no espaço de um ano, Portugal fechou as fronteiras. É possível, neste momento, prever de que forma irá a pandemia afetar, no futuro, os fluxos de imigração para o país?

Neste momento, é óbvio que há uma redução. Mas no futuro, se toda a gente acabar por receber a vacina, como está previsto até ao outono, fim do ano, imagino que por esta altura, para o próximo ano, vai tudo voltar à normalidade. Tudo indica que Portugal vai continuar de portas abertas, a seguir o seu rumo e o seu caminho no que diz respeito à imigração. E os fluxos vão continuar a ser como antes da pandemia.

Mas porque é que isso vai acontecer? Segundo dados do INE, a imigração para Portugal vinha a crescer desde 2012. Aliás, entre 2016 e 2019, mais que duplicou: passou de quase 30 mil para pouco mais de 72 mil. Já o último período de queda de imigração coincidiu com a crise financeira de 2008.

A imigração mais qualificada, digamos, de países que não são tradicionalmente países de imigrantes laborais que vêm para setores menos qualificados, vai continuar. E não só. Parece que os investimentos que estão a ser feitos em Portugal ou que estavam a pensar ser feitos vão continuar, o que vai certamente atrair essas pessoas.

Ao mesmo tempo, Portugal está cada vez mais atrativo para reformados; pessoas que vêm do norte da Europa, da América do Norte, pessoas mais "endinheiradas", pessoas que vêm à procura de outro estilo de vida ou mesmo um estilo de vida, um estilo de vida que não é vir para cá trabalhar.

Além disso, irá continuar a haver falta de mão de obra para a agricultura no Alentejo, no Algarve.

Esses são setores que vão continuar em expansão...

São setores que vão continuar [a precisar de mão de obra imigrante] e se calhar vão estar ainda mais fortes.

Agora, talvez as migrações mais tradicionais possam diminuir. Os cidadãos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa [PALOP], por exemplo, ou o emigrante do Leste foram um fenómeno do passado, que já não é tanto hoje em dia, só se for alguma reunificação familiar.

Depois, há também a imigração que está muito em crescimento que é a população estudantil, as pessoas que vêm para cá estudar. As universidades estão a sentir um "boom" que nunca aconteceu antes. Estudantes que vêm do Brasil e continuam a vir.

Ao nível europeu, a tendência de imigração será a mesma que se fará sentir em Portugal?

Depende do tipo de imigração que estamos a falar. Esta tendência de atrair quadros, por exemplo, é uma tendência que acontece um pouco por todos os lados. Em certos países já acontecia há muito mais tempo e Portugal agora está a chegar a esse ponto. Mas vamos comparar, por exemplo, com os países do sul da Europa, aqueles que são os mais semelhantes, em termos de competitividade com Portugal, em termos de atrair mão de obra ou investimento estrangeiro.

Mas há aqui um pequeno pormenor que vale a pena mencionar, que são os vistos gold, que vão acabar a partir do verão. E falta saber até que ponto isso irá acabar por ter algum impacto também.

Os vistos gold não vão acabar propriamente. O regime vai continuar a existir, mas para outras regiões do país.

Sim, exatamente. Mas vão acabar para o Porto, Lisboa, as áreas que, na realidade, atraem mais esse tipo de investimento.

Acha, então, que vai haver uma redução muito significativa?

Tomando em consideração que tem havido pouco interesse nas áreas rurais ou as áreas menos desenvolvidas em Portugal, tudo indica que sim. No passado, nunca houve essa tendência - e espero que esteja enganado, espero que esteja muito enganado. Porque acho que é uma coisa que Portugal merece mesmo, precisa mesmo, é de investimento nas áreas rurais.

E, aliás, ainda bem que isto foi feito desta maneira, em que acaba por favorecer futuramente aquilo que serão as áreas com menos população e menos desenvolvimento, e que precisa de atrair esse tipo de capital e de gente também para investir na recuperação ou desenvolvimento local. Mas agora aquilo que tem sido o padrão no passado é não investir nessas áreas. É comprar em Lisboa, viver em Cascais. Depois, há também a questão do capital que está a ser envolvido…

Mas a possibilidade de comprar um passaporte europeu continuará a ser um negócio atrativo. Obviamente que quem compra uma casa em Lisboa não será, à partida, a mesma pessoa que compra uma casa no interior. Mas se o objetivo último foi ter um passaporte europeu...

Isso, sim. É uma das razões porque Portugal é considerado um país em que é fácil arranjar um bilhete para a Europa. Se continuar essa facilidade, e se forem pessoas com recursos financeiros bastante grandes, quer dizer, que possam investir meio milhão de euros num sítio qualquer, num sítio que não seja Lisboa, Porto ou Algarve, mas um sítio que não dê para perder muito.

Em regra, os períodos de crise financeira coincidem e são sucedidos por momentos de maior emigração. Não é preciso recuar muito para ver isto, basta ir aos anos da Troika. Acontece que agora, com a pandemia, o problema é global, todos os países estão em recessão. Ou seja, a capacidade de absorção de mão de obra é muito inferior. Mesmo assim, devemos esperar uma nova onda de emigração portuguesa assim que a pandemia cessar?

Muito provavelmente, a emigração vai aumentar, devido ao facto de estarmos a entrar numa crise. Agora, não se sabe é quanto tempo essa crise pode durar. Pode durar meses, pode durar um ano ou pode durar mais. Da mesma maneira que, no espaço de uns meses, entramos nesta situação em que nós estamos por causa de uma pandemia. O desemprego tem disparado duma maneira fora de série. É um bocado imprevisível quanto tempo vai demorar para recuperar.

Acho que é muito difícil fazer esse julgamento, tendo em conta o estado atual, porque isto é um estado atual que ninguém estava à espera e os números que se vêm por aí em termos do desemprego, em termos de restaurantes que fecham, em termos do turismo que falta no Algarve, que é o ganha pão de muita gente. É muito difícil dizer se isso vai recuperar depressa, se vai demorar meses, anos, para recuperar.

Mas é consensual que os outros países europeus não terão a mesma capacidade de absorção de mão de obra que anteriormente.

Os portugueses estão habituados a ir para Inglaterra. É um destino principal. Ora, a Inglaterra também está a passar muito mal. O desemprego também disparou. Até que ponto as pessoas vão sair para procurar trabalho num sítio onde, se calhar, esses trabalhos também já não estão lá em abundância? É preciso ver esses pormenores e estudar também.

Consegue imaginar o que pode mudar? Como vão ser os próximos dois ou três anos?

Imagino que nos próximos dois ou três anos a emigração vá outra vez aumentar. Mas, atenção, na minha opinião não vai chegar aos mesmos números da crise económica de há oito anos.

Ou seja, como em 2014, quando tivemos 134 mil portugueses a sair do país.

Exatamente. Acho que não vai chegar a esse ponto, única e exclusivamente porque esta crise não é económica, mas sim gerada por uma situação de uma pandemia. Basta ultrapassar este obstáculo para as coisas voltarem à normalidade. É a minha perspetiva.

Porventura vale a pena fazer uma comparação histórica. De acordo com um estudo publicado em 2010, parte devido à I Guerra Mundial e parte devido à gripe espanhola, a imigração para os Estados Unidos abrandou muito entre 1914 para 1918. De um milhão e duzentos mil imigrantes para 110 mil. Diria que as circunstâncias são comparáveis?

É um bocadinho difícil comparar os dois períodos, em termos de espaço/tempo, por causa das tecnologias que hoje existem. Hoje em dia, a mobilidade é uma coisa que acontece muito mais repentinamente, muitas vezes sem grandes planeamentos. Simplesmente, acontece porque o conhecimento é muito mais avançado do que era antigamente.

Na altura, não sei o que diz respeito às leis de emigração nos EUA. Se calhar não permitia essa mobilidade tão fácil e essa entrada a pessoas novas.

O estudo diz que em 1918 houve um aumento do sentimento anti-imigração. Após a pandemia acalmar, regressar algum tipo de normalidade, o sentimento anti-imigração em alguns países europeus não poderá ser inflamado?

Acho que os preconceitos que existem hoje em dia vão continuar a ser os de antigamente. Acho que a pandemia não vai ser geradora de novos preconceitos.

Nós hoje estamos sempre a falar de diferentes variantes. Estamos a falar da África do Sul, do Brasil, de fechar fronteiras, de não permitir voos para trás e para a frente de certos países, porque há ameaças de certos países.

Recentemente, a Inglaterra fechou a fronteira com Portugal, por causa da chegada de brasileiros que entravam por aqui. Entretanto, o Reino Unido também tem a sua variante e se calhar estava também a prejudicar a população nacional. Talvez Portugal devesse ter reagido à semelhança do que os ingleses fizeram. Mas pronto. Não sou político. Não estou numa posição de tomar essas decisões.

Falemos de Portugal. Geograficamente, somos um país com a população muito concentrada no litoral. O interior é muito desertificado e com uma maioria de população idosa. Tendo em conta que a maioria dos óbitos da Covid-19 são pessoas de idade, a pandemia pode acentuar ainda mais este desequilíbrio?

Portugal é um país cada vez mais velho, mais idoso. Haverá um impacto, sem dúvida, tendo em conta que a grande maioria das pessoas que têm falecido são mesmo os idosos. Ao mesmo tempo, estamos a falar de um país onde há cada vez menos crianças a nascer.

Não será por isso futurologia pensarmos que a natalidade vai voltar a cair?

Este ano de 2021 teremos menos crianças a nascer que em 2020. E em 2020 já foi um número bastante reduzido [o mais baixo dos últimos seis anos]. Por isso, sim. Cada vez vai haver mais mortes de idosos. Quer dizer, não é vai haver, é está a haver. Cada vez há menos bebés a nascer. Por isso, dependemos da imigração.

Uma das razões que foi dada para haver menos bebés em 2020 foi precisamente por algumas grávidas imigrantes terem abandonado o país. A mulher imigrante tem contribuído bastante para o aumento da população. Este ano houve uma redução.

Um dos temas que trabalha já há mais uma década é o retorno dos emigrantes e luso-descendentes a Portugal. Consegue imaginar o que vai mudar na próxima década?

Acho que o regresso de malta jovem luso-descendente vai ocorrer em maior número. Isto deve-se sobretudo ao facto de que Portugal cada vez mais atrai. Tem um "sex appeal" que acaba por atrair jovens um pouco por todo o lado.

Vai continuar a acontecer o regresso de luso-descendentes que querem vir para cá descobrir as suas raízes, mas também aquelas pessoas que acham que isto é um bom país para desenvolvimento, para apostarem, para terem melhor qualidade de vida também.

O João esteve emigrado no Canadá durante quase duas décadas, juntamente com a sua família. O seu pai ainda lá está. Hesitaria se tivesse de o aconselhar a regressar a Portugal neste momento?

É complicado. O meu pai regressou a Portugal, mas voltou para o Canadá dois anos depois. Por razões de saúde. Mas quando chegou lá, percebeu que aquilo não era melhor do que isto aqui. E a saúde também não ficou melhor.

É uma questão muito difícil de dizer por questões de saúde. Não acho que Portugal seja melhor ou pior do que aquilo que ele encontra lá no Canadá. Lá as listas de espera são semelhantes às de cá. A saúde é barata. Paga-se é bastante pelos medicamentos. Aqui os medicamentos são uma pechincha comparados aos de lá. É preciso ter muito dinheirinho.

Sei que a saúde é um tema muito, muito importante para o emigrante que regressa. Há muitos emigrantes que regressam a Portugal, mas continuam nesta vida de lá e cá e a razão principal é sempre a saúde. Há muita gente que não confia no sistema de cá. Se calhar no passado já houve razões para isso. Mas hoje em dia não sei se é bem assim. Falo em relação à situação que conheço do Canadá. Lá, tem piorado.

Como tem seguido a gestão do combate à pandemia em Portugal?

Portugal, de certa forma, teve muita sorte que uma coisa destas [um pico de casos e hospitais em stress] não tenha acontecido logo à primeira, como em Espanha ou Itália.

Agora, parece que demorou um bocadinho demasiado para responder à crise que estamos a passar neste momento [o segundo confinamento geral].

O Governo não devia ter um especialista de cada área das ciências sociais para ouvir quando decreta as medidas do estado de emergência, ao invés de só ouvir vozes do campo da saúde? Um geógrafo, por exemplo.

Não sei se seria a melhor ideia. Já há tanto "opinion maker", tanta gente a dar a sua dica. Não sei se isso simplesmente não ia criar mais burocracia. E o que nós precisamos mais neste momento é de um bocadinho mais de ação do que mais pessoas a dar opiniões.

Um caso hipotético: sou um psicólogo e a minha área é a psicologia. E estou neste momento cheio de trabalho porque há pessoas em estado de depressão e estão em depressão por causa do desemprego e porque estão em casa e os filhos estão-lhe a chatear a cabeça. Ou por causa de casos de violência de doméstica, por exemplo.

Todos estas preocupações são importantes, valiosas e merecem ser todas debatidas. Mas até que ponto ter estas pessoas a falarem todas juntas sobre um assunto é tentar salvar vidas? Acabamos por perder aqui um bocado de tempo com tanta conversa vinda de diferentes áreas e disciplinas. Essa é a minha preocupação.

Talvez tenha uma perspetiva diferente e falo agora como "outsider", como emigrante, como pessoa que veio para Portugal já com 25 anos, mas na minha opinião fala-se demasiado em Portugal. E de vez em quando reage-se pouco, quando devia ser ao contrário.

Por isso é que tenho estas dúvidas, se é assim tão necessário.

Se estivesse presente na reunião em que se decidiu encerrar as fronteiras, o que diria? Consegue imaginar qual seria a sua posição?

Acho que não ia ter uma reação muito diferente. É importante neste momento ter essa preocupação e reduzir mesmo a mobilidade transfronteiriça. E não só em Portugal. Isso está a acontecer noutros países também.

Se moro em Odivelas e tenho a fronteira do concelho fechado, quando quero ir visitar a minha mãe a Cascais; então, se um cidadão espanhol quer vir a Lisboa comer uma sapateira à beira-mar, faz também todo o sentido que a fronteira esteja fechada.

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  • Ivo Pestana
    03 mar, 2021 RaM 20:51
    Mas muitos virão para Portugal, em especial dos países onde existem portugueses com problemas sociais e de países que falam português.

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