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Ataque de Israel a ONG de chef Andrés. "Acontece em tempos de guerra", diz Netanyahu

02 abr, 2024 - 16:24 • Diogo Camilo

Carrinha da World Central Kitchen, que acabava de descarregar 100 toneladas em armazém em Gaza, foi atacada em zona sem conflito pelo exército israelita, que já anunciou uma investigação ao bombardeamento. Organização do chef espanhol José Andrés oferece refeições e apoio humanitário em situações de conflito e desastres naturais.

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Sete membros de uma organização em missão humanitária morreram num ataque do exército israelita durante a noite de segunda-feira em Deir al Bala, no centro da Faixa de Gaza.

A carrinha da World Central Kitchen tinha acabado de descarregar 100 toneladas de alimentos para serem distribuídos à população palestiniana, num movimento coordenado com as autoridades israelitas, e encontrava-se numa zona sem conflito, quando foi atingida por um ataque aéreo, entretanto confirmado pelo exército israelita, que avançou que irá realizar uma investigação ao incidente.

“O trágico incidente da última noite ocorreu como resultado de um ataque das IDF [Forças de Defesa de Israel] e estamos a investigar as circunstâncias”, adiantou a IDF, em comunicado, enquanto o porta-voz Daniel Hagari referiu que enviou condolências ao chef José Andrés.

Recuperado de uma cirurgia e em vídeo nas redes sociais, Benjamin Netanyahu condenou o ataque em Gaza, descrevendo-o como um “incidente trágico” e “acidental”.

“Acontece em tempos de guerra. Estamos a investigar, em contacto com os governos [de estrangeiros entre as vítimas] e vamos fazer tudo para garantir que não acontece outra vez”, afirmou nas redes sociais.

Já a World Central Kitchen refere que este não foi só um ataque contra si, mas contra todas as ONG no local. Isto "não foi apenas um ataque contra a WCK, foi contra as organizações humanitárias que aparecem nas situações mais terríveis, nas quais os alimentos são usados como arma de guerra", denunciou a diretora executiva, Erin Gore.

Os trabalhadores da WCK estavam no enclave palestiniano em plena missão humanitária, em colaboração com a organização não-humanitária Open Arms, para estabelecer um corredor humanitário marítimo entre o Chipre e Gaza e assim superar os enormes obstáculos impostos por Israel à entrega de ajuda por via terrestre.

O que é a World Central Kitchen?

Em resposta ao sismo no Haiti de 2010, e com o objetivo de distribuir comida de emergência aos sobreviventes, o chef José Andrés e a sua mulher, Patrícia, decidiram fundar a organização não-governamental que oferece não só refeições, mas formação e apoio a sobreviventes de desastres naturais, refugiados e pessoas afetadas em conflitos e guerras.

Na Ucrânia, a WCK esteve em missão desde o início da invasão russa, distribuindo dezenas de milhões de refeições a ucranianos.

A organização esteve ainda envolvida na primeira entrega de ajuda humanitária em Gaza através de corredores marítimos, precisamente através da colaboração com a Open Arms, a partir do Chipre, em março deste ano.

A distribuição de refeições em Gaza pela World Central Kitchen. Foto: José Andrés/Reuters
A distribuição de refeições em Gaza pela World Central Kitchen. Foto: José Andrés/Reuters
A distribuição de refeições em Gaza pela World Central Kitchen. Foto: José Andrés/Reuters
A distribuição de refeições em Gaza pela World Central Kitchen. Foto: José Andrés/Reuters
A entrega de refeições da World Central Kitchen através de um corredor marítimo pelo Chipre. Foto: Forças de Defesa de Israel (IDF)
A entrega de refeições da World Central Kitchen através de um corredor marítimo pelo Chipre. Foto: Forças de Defesa de Israel (IDF)
O ataque em Gaza que provocou a morte de membros do World Central Kitchen. Foto: Ahmed Zakot/Reuters
O ataque em Gaza que provocou a morte de membros do World Central Kitchen. Foto: Ahmed Zakot/Reuters

No início desta semana chegou ao destino a segunda carga, com 332 toneladas de comida.

José Andrés é um chef internacionalmente conhecido, dono de um restaurante com duas estrelas Michelin em Washington DC. Em 2015, pelo seu trabalho com a fundação, recebeu de Barack Obama a Medalha das Humanidades Nacionais.

Em reação ao ataque, diz-se de “coração partido” e pede a Benjamin Netanyahu que pare com as “mortes indiscriminadas”.

“Hoje a WCK perdeu vários irmãs e irmãos num ataque aéreo das IDF [Forças de Defesa de Israel] em Gaza. Estou de coração partido e em luto pelas suas famílias e amigos e por toda a família do WCK. Estes eram anjos que serviram na Ucrânia, em Gaza, Turquia, Marrocos, Bahamas, Indonésia. Não são pessoas sem cara, sem nome. O governo israelita tem de parar com as mortes indiscriminadas. Tem de parar de restringir a ajuda humanitária, parar de matar civis e ajudantes humanitários, de usar a comida como arma. Que não se percam mais vidas inocentes. A paz começa com a partilha de humanidade. E tem de começar agora”, escreveu nas redes sociais.


As sete vítimas são de Austrália, Polónia, Reino Unido, um cidadão com dupla cidadania de EUA e Canadá e o motorista, que era palestiniano. A equipa da WCK encontrava-se numa carrinha, identificada com o logotipo da organização, a percorrer uma zona sem conflito e foi atingida quando saía do armazém em Deir al Bala, onde acabara de entregar mais de 100 toneladas de ajuda alimentar humanitária.

A organização anunciou entretanto a suspensão de atividade na região, indicando que decidirá o futuro do seu trabalho em Gaza nos próximos dias.

Segundo Andrés, já foram distribuídas mais de 40 milhões de refeições na região desde o início dos ataques, a 7 de outubro do ano passado, incluindo em Israel.

Líderes mundiais condenam ataque

Na sequência do bombardeamento, a União Europeia, Polónia, Reino Unido e Bélgica exigiram explicações a Israel, com o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, a condenar o ataque e a pedir para ser aberta uma investigação "o mais rapidamente possível", como escreveu na rede social X.

"Apesar de todos os apelos para proteger os civis e os trabalhadores humanitários, continuamos a ver pessoas inocentes a ser mortas", acrescentou Borrell.

A presidente da Comissão Europeia expressou condolências às famílias dos trabalhadores, descrevendo a organização como um "parceiro crucial" para aliviar a fome.

A publicação de Von der Leyen na rede social foi acompanhada de uma outra publicação da Comissão Europeia, que apela à proteção das pessoas que prestam apoio humanitário em qualquer circunstância, à luz da lei humanitária internacional, e pede "uma investigação minuciosa a esta tragédia".

Também o ministro dos Negócios Estrangeiros polaco exigiu que Israel dê explicações pelo ataque de segunda-feira aos trabalhadores humanitários — um dos quais de nacionalidade polaca — que levou a organização a suspender as suas atividades na região.

"Pedi pessoalmente explicações urgentes ao embaixador israelita, Yacov Livne. Ele assegurou-me que a Polónia receberia em breve os resultados de uma investigação sobre esta tragédia", disse Radoslaw Sikorski também na rede X.

O ministro assegurou, no entanto, que Varsóvia planeia conduzir a sua própria investigação.

Por sua vez, o Presidente polaco, Andrzej Duda, afirmou na rede social que "esta tragédia nunca deveria ter acontecido e deve ser explicada".

Entre as vítimas contava-se também um trabalhador humanitário britânico, segundo confirmou o Governo do Reino Unido, manifestando "preocupação com o ataque".

O Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico adiantou apenas, através de um porta-voz, que ainda aguarda "mais informações", mas a ministra da Educação, Gillian Keegan, admitiu em declarações à BBC que o Governo está "muito, muito preocupado".

Keegan lembrou que o Governo britânico instou Israel "a fazer mais para proteger os civis" e para permitir a entrada de ajuda humanitária em Gaza e lamentou que o ataque tenha levado a organização fundada pelo chef espanhol José Andrés a suspender as suas operações na Faixa de Gaza. "Uma das prioridades é tentar levar mais ajuda a Gaza, por isso é obviamente muito preocupante", afirmou.

Além dos cidadãos britânico e polaco, o grupo de vítimas incluía um australiano, dois com dupla nacionalidade norte-americana e canadiana e um palestiniano, conforme avançou a WCK, que descreveu o ataque como "imperdoável".

A Austrália, através do seu primeiro-ministro, Anthony Albanese, também exigiu explicações ao Governo de Israel e defendeu que tem de haver uma "responsabilização total".

A mesma posição foi tomada pela Casa Branca, que exigiu uma "investigação rápida" sobre o que aconteceu.

Embora nenhum dos atacados fosse de nacionalidade belga, a Bélgica também reagiu ao ataque, criticando o "inaceitável assassinato" de sete trabalhadores humanitários e sublinhando que "mesmo em tempos de guerra, existem regras".

A Espanha foi outro dos países que se mostrou indignado, tendo o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, "exigido que Israel esclareça, o mais rapidamente possível" o sucedido.

Num comunicado de imprensa, após uma visita ao campo de refugiados palestinianos de Jabal el-Hussein, na Jordânia, a primeira paragem de uma viagem regional por três países, Sánchez expressou "as suas mais profundas condolências" pelas mortes e classificou o episódio como "um ataque brutal".

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