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Entrevista a José Pedro Teixeira Fernandes

Tropas ocidentais na Ucrânia? "Macron terá sido alarmista para manter opinião pública mobilizada"

27 fev, 2024 - 10:49 • André Rodrigues

Professor universitário e investigador do IPRI considera que as afirmações do Presidente francês sobre possível envio de tropas ocidentais para combater na Ucrânia devem ser vistas como um “sinal político” para Moscovo.

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O analista José Pedro Teixeira Fernandes considera que as afirmações do Presidente francês, Emmanuel Macron, sobre possível envio de tropas ocidentais para combater na Ucrânia devem ser enquadradas “na proporção correta”.

"Um Estado que não consegue controlar mais de 20% do território da Ucrânia, como é que tem capacidade de invadir os vizinhos?", pergunta o especialista.

Em entrevista à Renascença, o professor universitário e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) diz que as afirmações do Presidente francês devem ser vistas como um “sinal político” para Moscovo e como uma tentativa de manter o apoio à Ucrânia presente na opinião pública europeia.

Quando Emmanuel Macron diz que não se deve excluir a possibilidade de enviar militares de países europeus, alguns deles membros da NATO, para combater na Ucrânia, isso pode ser interpretado como um discurso preparatório para um confronto bélico com Moscovo?

Vamos por partes. Esta declaração de Macron, eu penso que, se calhar tem tanto a ver com a política externa, como com a política interna francesa.

Olhando internamente para a França, e para Macron em particular, ele tem estado sob grande contestação, por razões que não têm a ver diretamente com a guerra na Ucrânia.

Macron é um governante que mostra uma certa fragilidade interna, depois das eleições e por causa da própria lógica francesa de formação de governo.

No plano externo, a França é, tradicionalmente, um país que se vê a si próprio como líder da União Europeia e das políticas relacionadas com o plano externo e com a Defesa.

Nesse sentido, Macron tem feito uma evolução muito grande da sua posição: basta pensarmos que no que foi a sua atitude política um pouco antes da invasão russa da Ucrânia e, mesmo depois, sendo dos governantes dos estados europeus de maior dimensão, aquele que, apesar de tudo, ainda defendia alguma possibilidade de negociação com Vladimir Putin.

Com o tempo, ele foi alterando a sua posição e, ultimamente, tem estado numa posição que poderíamos dizer de uma linha dura ou próxima de uma linha mais dura contra a Rússia e contra Vladimir Putin.

Mas, nas atuais circunstâncias da guerra, estas declarações podem ser vistas numa lógica realista?

Para isto funcionar na lógica da NATO, teríamos de ter uma decisão consensual, o que me parece altamente improvável.

Ou então há dados que nós não temos nesta altura e a situação, se calhar, não é como nós pensamos. Caso contrário, não vejo que, com as atuais circunstâncias, a generalidade dos países da NATO esteja disposta a fazer isso.

Seja como for, a contraparte neste conflito pode interpretar estas declarações de Macron como um envolvimento de países europeus que também fazem parte da Aliança Atlântica. No fundo, tomando o todo pela parte. Que riscos é que isto comporta?

Em primeiro lugar, eu julgo que a declaração de Macron – nesta altura em que a situação na Ucrânia é difícil - pretende, antes de mais, dar um sinal político à Rússia da determinação ocidental e, neste caso, europeia, para apoiar a Ucrânia.

O facto de dizer que, no limite, até podia considerado o envio de tropas da NATO é, no fundo o que exemplifica bem essa ideia de determinação inabalável de vitória da Ucrânia.

Isso é suficiente para dissuadir eventuais planos que Vladimir Putin possa ter para expandir o conflito a outros países?

Eu tenho muitas dúvidas que haja um plano de Vladimir Putin de expansão a outros países. Há múltiplas interpretações para as intenções de Putin.

Vamos ser razoáveis: um Estado que não consegue controlar mais de 20% do território da Ucrânia, como é que tem capacidade de invadir os vizinhos? Se nem a Ucrânia consegue controlar, não faz sentido estarmos a colocar a ameaça dessa forma. É um exagero, claro.

Outra coisa é nós dizermos que pode haver uma espécie de guerra híbrida, uma tentativa de subversão, eventualmente, de países vizinhos do Báltico, aí entramos noutro terreno e isso é muito mais plausível.

Portanto, é algo que me parece muito exagerado. Portanto, esse discurso – e esse é o lado mais benévolo ou mais positivo que eu vejo – pretende mostrar duas coisas: em primeiro lugar, no que toca à opinião pública europeia – que se percebe que está a esmorecer no seu apoio à Ucrânia – esta é uma forma de mobilizá-la, passando a mensagem da seguinte forma: o cidadão pode nem estar muito preocupado com a Ucrânia, ou estar fatigado com a situação. Mas isto não é só a Ucrânia, é a vossa segurança, a segurança da Europa.

O objetivo de Macron será criar um ambiente político que permita manter permanentemente este apoio à Ucrânia, a não ser que haja dados que não conhecemos publicamente e, aí, eu não posso pronunciar-me. Mas parece-me que estas ideias são, nesta altura, especulativas.

O que não significa que a questão da Rússia não seja um problema sério e uma ameaça séria à segurança europeia. Mas precisamos de vê-la na proporção correta. Nada indica que as coisas sejam assim, a não ser em cenários como os que muita gente possa elaborar, mas que são apenas cenários, não passam disso.

Eu só imagino essa situação possível, como disse Macron, se nas próximas semanas ou meses se perceber que as forças armadas da Ucrânia começavam a desmoronar-se e a não conseguir suster a frente ofensiva russa.

O risco de Kiev ficar sem liquidez a partir de março pode acelerar esse cenário?

Essa liquidez não tem nada a ver com tropas no terreno. Tem a ver com o dinheiro.

Mas, apesar do apoio ocidental, o dinheiro do orçamento ucraniano também financia o esforço de guerra…

… Claro que sim. Mas voltamos à questão: interpreto mais isto como o criar de um clima para obrigar os políticos europeus e até norte-americanos a agirem no sentido de manter o apoio financeiro, económico e de equipamento militar à Ucrânia.

Porque a Ucrânia não consegue viver se não tiver um largo apoio financeiro e militar do Ocidente. E essa é a realidade da Ucrânia desde o primeiro dia.

E o tempo encarrega-se de criar o desgaste e o problema que nós estamos a ver.

Se cruzarmos isto com os estudos que têm sido feitos à opinião pública europeia, vemos uma descrença muito grande na vitória total da Ucrânia.

E vemos, também, cada vez mais gente a considerar que a saída deve ser uma negociação política. Resta saber exatamente como ela podia ser feita, mas, notoriamente, a opinião pública europeia está a mudar.

Portanto, eventualmente, Emmanuel Macron foi deliberadamente alarmista, numa tentativa de inverter essa tendência e para, por um lado, manter a opinião pública mobilizada e, por outro, garantir que os políticos continuam vigilantes.

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