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Eleições no Brasil

João Eduardo Correia. "A política no Brasil é como um Fla-Flu"

29 out, 2022 - 09:00 • Sérgio Costa

No Brasil, a rivalidade eleitoral vive-se como num derby. E isso deixa João Eduardo Correia surpreendido. À Renascença, este jovem treinador português a viver no Rio de Janeiro fala de famílias e amigos desavindos por causa da política. Da política para o futebol, a pergunta acontece: porquê o Brasil?

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Entrevista de Sérgio Costa a João Eduardo Correia

Atualmente com 29 anos, João Eduardo Correia chegou ao Brasil sem "curriculum". Já trabalhou no Cuiabá e, mais recentemente, no Vasco da Gama como treinador adjunto. Atualmente está desempregado, mas tem convites para regressar ao ativo.

Em entrevista à Renascença, o técnico lamenta a inveja para com os treinadores portugueses, mas diz que é no Brasil que quer fazer carreira, porque, segundo diz, qualquer clube tem as melhores condições de trabalho: ao nível das que se encontram dos chamados três grandes do futebol português.

Como foi a sua formação, como se tornou treinador?

Vem de muito cedo na minha vida. A maior parte das pessoas da minha geração, que são treinadores e trabalham com futebol, são influenciados pelo Mourinho. Comigo foi muito antes disso. Eu cresci num ambiente indiferente ao futebol, os meus pais não gostam de futebol, mas eu tinha um tio que era apaixonado pelo Benfica e me levava muito aos treinos e aos jogos.

Cresci a ver os treinos do Heynkes, e ao mesmo tempo os meus vizinhos mais velhos jogavam futebol no Football Manager. Com seis, sete anos, eu não via desenhos animados. Eu jogava jogos em que era treinador.

Fui crescendo, mas nunca com a ideia de ser treinador. Nem sabia se seria possível ser treinador, mas com a paixão do futebol, quando foi escolha da Universidade, e já tinha tudo certo para ir para a gestão, um amigo perguntou "por que não vais tirar desporto ou treno desportivo?” Eu nem sabia que esse curso existia e naquele dia abriu se uma luz. Um dia cheguei a casa e, contra tudo e contra todos, disse: “vou ser treinador”. O meu pai, por acaso, foi a única pessoa que me disse "gostei, fazes bem, vais fazer algo que tu gostas”, mas de praticamente toda a gente ouvir reações como “és maluco, vais ser treinador?” Que ia entrar num mundo que não controlo, onde não teria as condições de chegar onde outros chegaram, que é só para os filhos dos jogadores e para quem já foi jogador. Mas eu fiz a aposta e entrei com muita vontade de provar, e principalmente a mim mesmo, que eu conseguia. Então, desde o primeiro ano da universidade que eu dividia a universidade com o trabalho e comecei logo a estagiar numa equipa de futebol sénior.

Com 18 anos já era adjunto do Paulinho, que era um ex-jogador do Benfica, no 1º de Dezembro. Por isso, a partir dos 17 anos, cresci nos balneários de futebol sénior, de divisões mais baixas do futebol português, mas sempre com treinadores que já tinham passado pelo futebol profissional, enquanto treinadores e como jogadores. O meu trajeto até chegar ao futebol profissional começa dessa forma.

E há um momento em que se cruza com Mourinho...

Sim. Com 23 anos eu tornei-me o treinador principal de seniores mais jovem em Portugal. Depois de uma passagem pela China li um livro que me marcou muito: “Liderança, as lições de Mourinho”. Foi escrito por um dos seus melhores amigos, o Luis Lourenço, alguém com quem eu trocava algumas mensagens justamente por causa desse livro. Almoçamos algumas vezes e ele acabou por dizer que eu devia estagiar com Mourinho e que iria fazer tudo o que estava aso seu alcance. E lá fui estagiar com o Mourinho, curiosamente juntamente com o Ruben Amorim. O Mourinho era muito fechado a estágios, mas foi espetacular. É talvez uma das maiores personagens de sempre do futebol mundial.

Aprende-se muito com ele?

Como é que poderia não aprender? Principalmente num contexto inédito para mim e com abertura a 100% às ideias dele. E eu podia perguntar ao que quisesse, ou seja, foi muito bom para mim. A partir daquele momento eu fiquei muito melhor treinador, muito mais bem preparado para aquilo que vou encontrar daqui para a frente.

Entretanto, chega ao Brasil. Como é que isso acontece? Sabemos que, nesta altura, há um quadro de treinadores portugueses no Brasil, mas o João chega numa situação completamente diferente. Como é que chega ao Brasil?

O Brasil surge a partir de uma dificuldade, de um problema. Eu era treinador do Oeiras que estava para subir de divisão e, entretanto, surgiu a pandemia Covid e os campeonatos acabam por ser interrompidos. Foi uma frustração muito grande. Depois vou treinar o Olivais e Moscavide, chegamos à final da Taça de Lisboa, estava a lutar para subir de divisão e, novamente, os campeonatos são interrompidos em janeiro de 2021. Fiquei muito chateado! Aí comecei a pensar: “onde é que os campeonatos não pararam? Onde é que os campeonatos continuam e onde é que o treinador português está a ser valorizado? E aí vem logo à cabeça o Brasil e comecei a procurar, a enviar mensagens a treinadores que estavam sem clube. Muitos responderam, tive algumas reuniões e o Alberto Valentim, que foi jogador da Udinese e do Siena gostou do que eu apresentei. Basicamente era o que eu fazia no futebol distrital e ele achou que podia ser útil aqui no futebol profissional e acaba por apostar em mim como adjunto do Cuiabá, na primeira época do clube na principal divisão brasileira.

Futebol no Brasil? 'Está a crescer muito. Está muito evoluído, principalmente a nível de infraestruturas, nas condições e centros de treino, nos estádios, na estrutura dos clubes (...) Em Portugal, para encontrar uma estrutura semelhante, só nos três grandes'
Como é que correu essa experiência?

Foi uma experiência espetacular num clube organizado. Comecei a entender aquilo que pode fazer, de facto, a diferença no futebol brasileiro e percebi que quero ficar aqui nos próximos anos por muitos fatores, desde estádios cheios a condições financeiras. Tenho o objetivo de me tornar treinador principal numa grande liga e isso, com certeza, irá acontecer aqui com mais rapidez e com estrutura.

Essa é uma boa questão: como é que é a organização do futebol brasileiro? Por vezes temos a ideia de que o Brasil pode ser um pouco caótico, um pouco desorganizado. Como é a estrutura do futebol no Brasil?

Neste momento é um futebol extremamente profissional, com a emoção que é característica do povo brasileiro, com a magia que é característica do futebol de rua, mas é um futebol que está a crescer muito. Está muito evoluído, principalmente a nível de infraestruturas, nas condições e centros de treino, nos estádios, na estrutura dos clubes. Vou dar um exemplo. No Vasco da Gama o clube era dividido em oito, nove departamentos. Tínhamos analistas de mercado que passam o tempo a observar jogadores para contratar. Estou a falar de cinco ou seis pessoas, quatro analistas de desempenho, fisiologistas, nutricionistas, psicólogos, tem de tudo e mais alguma coisa.

Em Portugal, para encontrar uma estrutura semelhante, só nos três grandes e aqui estamos a falar de uma estrutura de segunda liga do futebol. Depois há um lado negativo que é a emoção com que se toma decisões. Num dia somos muito bons, mas no seguinte somos muito maus. O problema é que os clubes são geridos de fora para dentro, ou seja, como as “torcidas” são tão emotivas, as decisões acabam por ser influenciadas. No entanto, acho que nos próximos anos o caminho será de evolução com a entrada das SAD e SAF no futebol brasileiro com investidores estrangeiros, como é o caso do Botafogo. Aí a estabilidade será muito maior.

Já falou do Vasco da Gama. Vai para o Vasco da Gama. Como foi essa experiência?

O Vasco da Gama acaba por me dar uma visibilidade que eu nunca tinha tido na minha vida. Acabei por me tornar um conhecido no futebol por ser um português num clube de portugueses no Brasil. Teve um impacto muito grande. A experiência foi boa, mas infelizmente, no futebol brasileiro, há uma certa rejeição pelo facto de alguns treinadores portugueses terem grande sucesso.

Entretanto, saiu do Vasco da Gama. O que correu mal?

O que correu mal foi a circunstância de ser português no meio de muitos brasileiros que, neste momento, estão com o orgulho ferido pelo sucesso de outros treinadores portugueses. Começa a haver uma pequena guerra, uma pequena guerra entre os treinadores brasileiros por causa da chegada de treinadores portugueses. Continuo a dizer que há treinadores brasileiros de muita qualidade, brasileiros com menos qualidade tal como há treinadores portugueses com muita qualidade e outros com menos. Enfim, há alguma inveja, digamos assim.

Podia ter regressado a Portugal, mas o meu objetivo neste momento é ficar no Brasil porque é um país que me apaixona
O que o fez sair do Vasco da Gama foi a mentalidade?

É engraçado porque quando sou contratado pelo Vasco da Gama, é-me dito é que sou uma aposta para o futuro do clube, para dois ou três anos. Por isso fui para o Vasco com a ideia de ficar muitos anos como adjunto, fazer o clube crescer. Mas esta emoção que é característica do povo brasileiro na tomada de decisões acabou por me prejudicar. Ainda assim serei sempre grato às pessoas que me contrataram. Serei sempre grato ao Vasco pela visibilidade que me deu no futebol brasileiro e serei sempre grato também aos seus adeptos, que desde o primeiro dia ao último dia me receberam muito bem.

Todos os dias recebo mensagens com pedidos para regressar ao Vasco. Eu tenho a certeza de que um dia vou voltar para o Vasco da Gama numa posição mais acima, numa posição melhor, para conquistar títulos.

O seu objetivo é ficar no Brasil. Quais são, no imediato, as suas perspetivas?

A minha ideia passa, de facto, por ficar no Brasil, por assumir um novo projeto. Eu podia ter regressado a Portugal, mas o meu objetivo neste momento é ficar no Brasil porque é um país que me apaixona, é um futebol que me apaixona e é um futebol que eu conheço e onde já sou conhecido. Se calhar, neste momento, sou mais conhecido e mais referenciado na primeira liga do futebol brasileiro do que na primeira Liga do futebol português.

Tem propostas no Brasil?

Sim, tenho algumas propostas, tanto para ser adjunto de Série A como para ser principal de Série B ou para ser principal de sub20.

Percebe-se que há alguma animosidade para com os treinadores portugueses, com o sucesso dos treinadores portugueses, mas que balanço que faz desse trabalho que está a ser feito pelos portugueses no futebol brasileiro?

Considero que a chegada dos treinadores portugueses, e de outras nacionalidades, tem ajudado muito o futebol brasileiro e tem contribuído para o crescimento dos treinadores brasileiros que, penso eu, estavam um pouco acomodados. Falo com treinadores de camadas jovens do Palmeiras, das camadas jovens do Flamengo, treinadores jovens da minha, e vejo que já estão com uma capacidade muito grande e que essa capacidade vem muito da chegada do Jorge Jesus e do querer saber mais, de entenderem que para ganhar espaço no mercado do futebol brasileiro também têm de crescer.

Agora, sobretudo o trabalho do Jorge Jesus, Abel Ferreira e Vítor Pereira, é muito positivo. Três Libertadores, é impressionante. foram conquistadas por dois treinadores portugueses. Este ano o campeonato brasileiro vai ser conquistado outra vez por um treinador português. Se chegarem ao Brasil treinadores portugueses, treinadores fora, que sejam treinadores de qualidade, mas que isso não tape os treinadores brasileiros que que têm qualidade para estar nas equipas grandes.

Recentemente, disse-nos acreditar que Abel Ferreira poderá assumir a seleção brasileira. Continua a acreditar?

Continuo a acreditar como ele será o próximo selecionador brasileiro, mesmo apesar da rejeição por parte de treinadores brasileiros. O povo brasileiro não teria qualquer problema em ver o Abel tornar-se o primeiro treinador estrangeiro da seleção brasileira, mas para os treinadores brasileiros continua a ser impossível esse cenário. No entanto, se espreitarmos as redes sociais, a opinião do povo brasileiro, percebemos que o Abel seria a pessoa certa para treinar a seleção brasileira. Neste momento não vejo nenhum treinador brasileiro com a aceitação que o Abel tem.

Como é que famílias, pessoas que trabalham juntas, amigos deixam de se falar por opções políticas diferentes?
Está no Brasil num momento muito particular da história do país, com tensão social e política. Como é que observa este fenómeno?

Eu acho uma loucura. É uma loucura para quem está habituado a conviver com as eleições em Portugal de forma tranquila. Aqui as coisas são vividas de uma forma muito, muito intensa, e eu fico um pouco admirado... Como é que famílias, como é que pessoas que trabalham juntas, como é que amigos deixam de se falar por opções políticas, opções políticas diferentes?

Presenciou casos desses, de famílias que deixaram de se falar por causa da política?

Amigos, famílias, colegas de trabalho. Presenciei discussões em bombas de gasolina sobre o Lula e Bolsonaro. É a forma como se vive o futebol e como se vive a vida aqui, é como no futebol, é como um Fla-Flu, ou um Flamengo – Vasco. Vive-se de forma tão intensa, as pessoas são muito mais emotivas do que em Portugal, e na política acaba por ser o mesmo. Seguem a política como se fosse um jogo de futebol, como se fosse um jogo, ou até como se estivéssemos a falar de vida ou de morte. Eles vão votar com a camisola do Lula, vão votar com a camisola do Bolsonaro. No dia anterior às eleições, na primeira volta, eu assisti centenas de discussões porque passavam os carros do Lula, ora passavam os autocarros do Bolsonaro e eu e ouvi tudo. É uma loucura mesmo.

Como é que a comunidade portuguesa vive este momento? Este momento de tensão afeta a comunidade portuguesa ou fica um pouco à margem?

Acho que fica à margem. Vou ser sincero, e eu não conheço muitos portugueses aqui porque eu trabalho com brasileiros e convivo mais com brasileiros. Mas julgo que os portugueses ficam completamente à margem daquilo que são os conflitos políticos do país.

Mas, observando as eleições do exterior, na Europa, por exemplo, muitas pessoas ficaram surpreendidas com o apoio massivo que Bolsonaro teve na primeira volta. Consegue encontrar uma explicação para esse apoio massivo mais de 50 milhões de eleitores no Bolsonaro, com hipótese, até, de vencer a segunda volta?

Julgo que o facto de o Lula ter sido preso, supostamente por ter roubado o Estado, que é o que muita gente diz, acaba por ser natural que o Bolsonaro tenha alguma aceitação. Se Lula nunca tivesse sido preso eu acredito que tinha com o Bolsonaro tinha sido esmagado. Esse é o único trunfo que o Bolsonaro.

Admite que nos próximos tempos a tensão vai escalar aqui no Brasil?

Eu acho que a tensão vai escalar. É imprevisível, é completamente imprevisível. Eu sinto que as pessoas que votaram Bolsonaro após ficaram super revoltadas depois da vitória do Lula na primeira volta. Então eu acho que a tendência do conflito aqui é para piorar.

Vamos ter momentos de grande violência, não só verbal?

Acho que sim. A minha família liga-me e diz-me sempre para ter cuidado. Isto pode escalar a sério, mas onde eu moro acho que é tranquilo.

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