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Guerra na Ucrânia

​“O Ocidente deve tentar evitar a realidade paralela de Putin”

09 abr, 2022 - 01:08 • José Bastos

“A Rússia pode criar um ecossistema de informação fechado em que passa a ser possível um universo paralelo desligado do resto do planeta ou filtrado pelo regime. Seria preocupante”, alerta André Barrinha, cientista político da Universidade de Bath.

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André Barrinha. ​“O Ocidente deve tentar evitar a realidade paralela de Putin”

Foi uma espécie de ‘guerra’ antes da guerra: a 23 de fevereiro, um dia antes das tropas russas atacarem a Ucrânia, vários sites na web governamentais relevantes em Kiev ficaram bloqueados: os sítios virtuais do parlamento, do governo, do ministério dos estrangeiros e de outras instituições foram afetados.

Ainda agora, várias semanas depois, em que se combate na Ucrânia, o ciberespaço continua a ser um palco secundário da guerra. Kiev mobilizou não apenas os seus militares, mas também os especialistas em informática: a Reuters deu conta de que esses ‘soldados’ iriam tentar conter os ataques dos ‘hackers’ russos, bem como preparar as suas próprias ações contra importantes infraestruturas informáticas do Kremlin.

Resulta óbvio que se a Rússia usou o ciberespaço para apoiar a guerra híbrida, o está a fazer agora na guerra convencional e não apenas atacando infraestruturas relevantes. A difusão seletiva de informação falsa também faz parte da ação de Moscovo. Antes ainda da invasão, as operações cibernéticas converteram-se em parte da guerra psicológica moderna.

Pode um ciberataque ativar o artigo 5 da NATO? Que razão explica a perceção de que a dimensão da guerra cibernética tem estado abaixo do esperado? São perguntas para o professor de Relações Internacionais da Universidade de Bath, no Reino Unido, André Barrinha.

O cientista político André Barrinha analisa ainda a nova fase do conflito e as possíveis saídas diplomáticas para a crise. “A minha questão é: quando vai voltar a ser possível um relacionamento normal com a Rússia? A verdade é que não sei’.

A minha questão, e não tenho resposta, é de quando vai ser possível voltar a ter um relacionamento normal com a Rússia? No futebol, quando vai ser possível voltar a aceitar que clubes russos participem nas competições internacionais?

Nesta fase do conflito como pode o Ocidente manter o difícil equilíbrio entre o desejo de ações mais vigorosas quando se sabe que do outro lado está uma potência nuclear dirigida por um autocrata/ditador, sem se cair numa espécie de relativismo moral face aos massacres nos arredores de Kiev e quando a ONU e TPI parecem ser, por agora, ineficazes?

O conflito na Ucrânia caminha para uma nova fase, mas a questão principal continua a ser o que se pode fazer face à Rússia. O que o Ocidente tem feito durante as últimas semanas é o que talvez devesse ter feito há quase uma década quando a Rússia atuou na Síria e, depois, na invasão da Crimeia. Portanto, parte do problema que Ocidente agora tem é que muitas das ações que estão a ser tomadas não seriam necessárias se a resposta tivesse sido mais ríspida ao que o regime de Putin estava já, nessa altura, a fazer.

O Ocidente não só não respondeu como foi em 2014 de braços abertos para os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, como em 2018 participou no Campeonato do Mundo de Futebol como assinou toda uma série de acordos económicos com Moscovo. Com esta atitude, logo aí se criou um certo precedente sobre o tipo de 'atividades' a que seriam permitidas a Putin. Agora quando se olha para o que se passa na Ucrânia pensa-se um: 'como foi possível chegar a este horror?' sem, no entanto, se ter olhado de forma mais perspicaz e crítica para o que Putin já havia feito nos últimos anos.

Mas a possibilidade, quase no plano moral, de que no fim de tudo Putin possa continuar no Kremlin sem que nada lhe aconteça deve agora precipitar medidas que o possam dissuadir, ou eventuais, sucessores de repetir no futuro a ação?

O que temos agora é a mudança de paradigma no relacionamento do Ocidente com a Rússia que no passado recente foi benevolente em razão das ações bastante agressivas de Moscovo numa série muito diferente de cenários desde a Síria até Salisbury. Agora as medidas que têm vindo a ser impostas, e, aparentemente, continua a ser possível impor mais sanções, indiciam uma clara alteração de relacionamento.

A minha questão, e não sei se tenho uma resposta, é de quando vai ser possível reverter estas sanções? Quando vai ser possível voltar a ter um relacionamento normal com a Rússia? Recorrendo ainda ao exemplo do futebol, quando vai ser possível voltar a aceitar que clubes russos participem nas competições internacionais? Qual vai ser o momento que nos vai indiciar que essa 'normalização' vai ser possível. A verdade é que não sei.

Estamos num território completamente desconhecido. Claro que esse momento chegaria mais facilmente com uma mudança de regime na Rússia, mas não parece particularmente fácil que tal suceda, talvez a mudança de liderança num quadro de manutenção do regime, mas com Putin no poder não sei qual possa ser o sinal que indique ao Ocidente que possa voltar a ter relações 'mais normais' com a Rússia sendo que há uma questão fundamental.

A Rússia será sempre um ator importante no quadro internacional que não se pode isolar completamente, desde logo por fazer parte do Conselho de Segurança das Nações Unidas enquanto membro permanente, mas também porque é um vizinho da Europa, faz parte da história integral europeia e é uma fonte preciosa de recursos energéticos como Josep Borrell fazia questão de salientar, esta semana, quanto aos fluxos financeiros que a União Europeia tem enviado para Bruxelas na compra de energia.

Como pode evoluir o papel da China na mediação de uma solução para a guerra e a Índia? Vamos ter uma superpotência e uma potência regional a aproveitar a proximidade de Moscovo numa nova ordem? E, já agora, como a Turquia é também objeto do seu estudo, um papel mediador de Erdogan a correr bem, pode levar o Ocidente a olhar a Turquia com outros olhos? Ou é tudo mais complexo?

A Turquia é a questão mais fácil de responder. Ancara sempre teve um relacionamento particularmente estratégico face à Rússia. As relações entre Erdogan e Putin, no plano das interações públicas, seguiram sempre um padrão de oscilação, sendo que os interesses energéticos, esses mantiveram-se sempre num plano de grande estabilidade.

Essa estabilidade foi mantida mesmo durante o confronto quase físico de forças turcas e russas na Síria. Há esta percepção entre Moscovo e Ancara de haver um relacionamento estratégico estável.

Agora no Ocidente seria visto com bons olhos se Ancara conseguisse alcançar algum sucesso na mediação na guerra da Ucrânia e o regime de Erdogan beneficiaria obviamente desse quadro, mas não creio que seria um desenvolvimento que alteraria na Europa significativamente a perceção do regime turco...

Não seria suficiente para retirar do congelador a adesão turca à UE?

Julgo que não, porque a questão da adesão turca não é uma questão da sua política externa necessariamente, mas tem a ver com as dinâmicas internas da Turquia à luz do que tem acontecido na última década.

Já quanto à China e à Índia?

São casos distintos. A Índia é uma potência a tentar definir a sua posição no sistema internacional e que tem tentado manter a sua distância face à guerra na Ucrânia justamente porque não vê aí qualquer prioridade estratégica. A Índia não só quer continuar a manter boas relações com vários dos atores envolvidos no conflito como de imediato tem outras prioridades.

Mas vai haver um momento em que Nova Deli vai ter de definir a sua posição. Tal como aconteceu com o Brasil, a Índia é um país que no início do milénio se aproximou bastante da Rússia e da China no contexto da lógica dos BRIC's, grupo de países de economias emergentes, sendo que essa narrativa está hoje um pouco ultrapassada, mas a Índia continua a oscilar entre ser uma democracia moderna aberta ao Ocidente ou ser uma potência emergente em que alguns dos seus interesses se alinham melhor com o padrão defendido por China e Rússia no contexto internacional.

A energia russa a preço de saldo é um desses interesses não só para a Índia como para a China?

Claro que sim, mas essas prioridades têm de ser ponderadas à luz da maior ou menor proeminência que China e Índia tendam a assumir no plano internacional. Portanto, nessa ponderação há trade-off's aqui, há conflitos de escolhas, que é preciso levar em consideração.

Já o papel da China é bastante relevante porque Pequim não tem interesse nenhum na guerra que a Rússia está a levar a cabo na Ucrânia, mas, por outro lado, a China tem um relacionamento próximo com Moscovo, tendo todo o interesse em manter essa ligação.

Daí a China estar numa posição de não comprometimento, permitindo até nos media oficiais campanhas de propaganda sobre o que a Rússia está a levar a cabo e sobre o que a Ucrânia está a fazer.

Ao contrário da Índia, não acho que a China esteja em cima do muro. A China está mais do lado da Rússia do que a Índia. Mas é do interesse de Pequim que o conflito termine o mais rapidamente possível.

Mas a China não vai ter de deixar de estar em cima do muro?

Ao contrário da Índia, não acho que a China esteja em cima do muro. A China está mais do lado da Rússia do que a Índia está. A questão principal é da o envolvimento e de até que ponto está a China disponível para apoiar de forma completamente acrítica o que Putin está disposto a fazer. Parece-me ser do interesse da China haver alguma estabilidade no sistema internacional e que este conflito termine o mais rapidamente possível.

Mas é de levar em conta as prioridades chinesas imediatas e Taiwan é uma dessas questões. Para Pequim, criticar agora o tipo de atuação que a Rússia está a ter na Ucrânia e, uns anos mais tarde, replicar o mesmo tipo de argumentação face a Taiwan não faria muito sentido. Portanto, também é preciso ter em consideração os objetivos estratégicos chineses quando se analisar a posição de Pequim face à guerra na Ucrânia.

Os franceses votam este domingo nas presidenciais com aparente vantagem do incumbente. No último domingo, Órban, na Hungria, e Vucic, na Sérvia, reelegeram-se, um na UE, outro à porta, sem comprometer as relações com o Kremlin e criticando Kiev. Que efeitos pode ter a guerra na Ucrânia nos cenários políticos domésticos, em particular, neste nicho eleitoral de forças ultranacionalistas e autoritárias, ainda que com expressão diferente de país para país?

O regime de Vladimir Putin tem sido um apoiante deste movimento iliberal que existe nas democracias ocidentais, sendo a Hungria um bom exemplo desse apoio da Rússia. Esse apoio de Putin até podia ter afetado eleitoralmente Órban, mas isso não aconteceu.

No caso francês o cenário é diferente. É certo que é sempre preciso ter cuidado nas previsões feitas para a política francesa, mas a guerra poderá acabar por beneficiar Macron nas eleições deste domingo. Neste momento estamos a viver uma espécie de hiato na ação das forças populistas que tem marcado a política no mundo ocidental, mas que a eleição de Joe Biden nos Estados Unidos e com Macron a afirmar-se em França como referência ao centro, faz com que essas dinâmicas populistas que tanto preocupavam, há não muitos anos, sejam agora relegadas para um segundo plano.

Mas atenção: é muito fácil que essa dinâmica populista volte a ascender, basta, por exemplo, Marine Le Pen passar este domingo à segunda volta com um resultado significativo em França, ou basta Joe Biden perder as eleições intercalares de novembro o que beneficiará Trump. Portanto, estamos num contexto relativamente frágil que pode sofrer alterações de um dia para o outro e temos de ter consciência da fragilidade deste quase consenso internacional à volta do conflito na Ucrânia.

É preciso levar em consideração que a Ucrânia tem sido, há já vários anos, alvo de ataques cibernéticos russos, desenvolveu resistências nesse âmbito e, com auxílio norte-americano e da União Europeia, tem sido capaz de montar uma assinalável defesa das suas estruturas

Desenvolve também investigação académica na área da ciber-segurança e nos primeiros dias do conflito emitiram-se no Ocidente alertas máximos para os ciber-ataques russos, mas essa frente parece estar calma. Muitas das ações vêm de fora da Rússia e da Ucrânia pela mão de criminosos interessados em dinheiro fácil, ataques de phishing explorando o pretexto da guerra, mas não ataques envolvendo infra-estruturas críticas. Há surpresa nesta tendência? É explicável pelos riscos envolvidos?

É explicável pelas possíveis consequências em termos estratégicos de ataques cibernéticos num contexto de guerra.

...é o risco de um ciberataque mal executado poder ativar o artigo 5º da NATO?

Sim, mas não julgo ser por aí que temos assistido a uma menor intensidade de ataques cibernéticos do que se poderia inicialmente supor em contexto de guerra. Desde logo há a questão de muitas vezes, haver a percepção generalizada da utilização de meios cibernéticos magnificando o seu potencial destrutivo como podendo ter um poder estratégico bem maior do que o real.

Dito isto, já tem sido levado a cabo um conjunto de vários ataques na Ucrânia, de resto, logo nos primeiros dias contra uma empresa de satélites, a Viasat, que providencia redes de comunicações usadas pelas forças armadas e pelos serviços secretos ucranianos. Esta ação contra a Viasat teve relevância nos primeiros dias do conflito.

Tem também havido vários ataques a sites governamentais ucranianos e roubo de informação que tem circulado pelo exército russo e que, por vezes, vem parar às chamadas 'kill list', lista de execuções de que o exército russo tem em seu poder. Nalgumas cidades tem também havido disrupções pontuais de acesso à internet, portanto não é um contexto onde de todo não tenha havido ciberataques.

Mas não tem havido ciberataques de origem russa a infraestruturas como o de dezembro de 2015 que deixou milhares de ucranianos sem eletricidade, ou em junho de 2017 a eliminar dados de bancos, comboios, um aeroporto...

Registou-se a tentativa de aceder à rede ferroviária ucraniana, mas o ataque foi rechaçado também com a ajuda de forças norte-americanas, mas não tem havido ataques em grande escala. Mas também é preciso levar em consideração que as próprias forças russas necessitam de algumas dessas infraestruturas críticas para as suas operações de guerra. Por um lado, as próprias redes de comunicação usadas na Ucrânia pelos militares russos eram redes de comunicação ucranianas.

Por outro lado, a questão-chave aqui tem a ver com o tipo de operação militar que a Rússia estava a planear na Ucrânia: um tipo de ação rápida, uma invasão em poucos dias que dispensaria esse tipo de ciberataque a infraestruturas críticas porque o objetivo seria conquistar Kiev num reduzido espaço de tempo.

É também preciso levar em consideração que a Ucrânia tem sido, há já vários anos, alvo de ataques cibernéticos russos e desenvolveu resistências nesse âmbito e, com auxílio norte-americano e da União Europeia, tem sido capaz de montar uma assinalável defesa das suas estruturas cibernéticas.

Ter grupos de civis a atuar isoladamente com ciberataques em contexto de guerra, não deixa de ser preocupante e ter algum potencial de risco.

E existe o risco de hackers entrarem em ação de forma individual e provocarem consequências complexas?

Esse risco existe. Essa tem sido uma preocupação dos dois lados, porque se, por um lado, a Rússia tem tido óbvias relações próximas com grupos organizados de hackers a atuar no submundo do cibercrime e que, aliados de Putin na guerra, já desencadearem alguns ataques, sem grande relevo, mas a valer a pena mencionar, do lado da Ucrânia já se tentou criar o IT Army, um exército eletrónico, composto por voluntários de todo o mundo.

O objetivo deste IT Army seria atacar alvos muito específicos na Rússia. E não sendo em larga escala, esses ataques têm tido lugar com algum sucesso. Mas ter grupos de civis a atuar isoladamente não deixa de ser preocupante e ter algum potencial de risco.

O Prof. André Barrinha estuda o ciberespaço enquanto instrumento de poder nacional e internacional. Que consequências desta guerra podem ser antecipadas para o plano global?

É ainda cedo. Temos de aguardar. Para já temos de perceber a evolução que o conflito em si vai ter nos próximos tempos. Se passarmos a ter um conflito de longa duração em que as posições estão, mais ou menos, bem definidas, mas que se prolongará durante meses a fio, é de esperar que, nesse cenário, a Rússia possa desenvolver ciberataques de larga escala. Mas, independentemente do que possa acontecer, há já duas consequências importantes a ter em conta: por um lado o espaço que a Rússia está a dar no plano interno para conseguir ter uma Internet desligada do resto do mundo, caso seja possível.

E ainda de forma relacionada fica a questão da circulação de informação no contexto russo. É uma preocupação o regime de Putin tentar caminhar para a criação de um ecossistema de informação fechado em que passa a ser inteiramente possível criar uma realidade paralela - um mundo paralelo desligado do que acontece no resto do planeta, ou filtrado pelos parâmetros impostos pelo regime. Esse é o cenário mais preocupante.

A questão principal em Moscovo - que já vem do regime soviético - é o controlo da informação e o receio tremendo por parte do poder instituído da ausência desse controlo. Este receio não é nada de novo, mas tornou-se mais visível com o regime de Putin. Nesse sentido, a maior arma que o Ocidente pode jogar neste contexto é romper essa bolha, ou tentar evitar que essa bolha seja criada, criando uma abordagem no mundo da informação que permita um conjunto plural de vozes a chegar aos cidadãos russos para estes depois tomarem as decisões que entenderem por bem relativamente ao regime no poder em Moscovo.

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  • Cidadao
    10 abr, 2022 Lisboa 11:46
    Em relação à Rússia de Putin, o Ocidente tem de fazer 3 coisas: não acreditar em nada que venha de lá, resolver rapidamente os problemas de dependência energética e não só, que Schoroeders, Sarkhozys, Merkels deixaram para trás, e rearmar-se tanto militar como ciberneticamente. E obviamente, falar grosso a Putin.

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